Entre a porta do banheiro e o corredor

Não se pode dizer que aquele silêncio era um daqueles necessários. Os dias mergulharam a presença do rapaz numa escuridão fora do comum. Era outra a realidade, como não era nada o que tinha sido desejado antes. Não se tinha notícias do que fizera ontem ou anteontem, ou depois que fechou-se à entrada da vida. Dormia estendido, talvez, sobre a cama e sobre lençóis encharcados de suor. Quando uma vez levantou-se, foi para tirar a roupa. Tudo era escuro. Tanto dentro quanto fora, o que era apenas o mais que real reflexo da ausência de quaisquer interesses. Lá na rua os carros passavam, os barulhos, as vozes, as buzinas, a fumaça e na calçada do prédio, o vai-e-vem de pessoas era contínuo e indiferente. Quem sabia, senão os vizinhos, que o rapaz estava ali? 

Violeta sempre deitava para dormir pensando nele. E mesmo antes de pegar no sono fazia orações ao seu anjo da guarda. Assaltava-a a ideia - não -, a certeza de que aquilo não acabaria bem. Na verdade, o rapaz já havia acabado. Tinha fechado as próprias saídas, desenganado do mundo e crente que seus sonhos haviam minguado a ponto de derreterem, liquefeitos e sombrios, no chão da sua alma. E que alma ainda lhe restava? Para ele o tempo também já não contava, apenas restringia- se entre dois ponteiros parados e descabido, numa coisa que ainda se chamava relógio pendurado na parede. O que importariam as horas para ele? Ou o sol, ou a lua, ou a vida? 

Ainda assim, Violeta desejava ardentemente a sua salvação. Qualquer que fosse, qualquer uma que recuperasse um pouquinho de seu sorriso e suas piadas sarcásticas que foram desaparecendo de forma galopante, há uns dois anos atrás. Agora era o silêncio que anunciava extrema solidão de si mesmo, motivado pela inadequação à realidade e às pessoas. Mas, antes disso, ainda acreditando naquilo que criara as suas ilusões, mostrava-se ele, um rapaz perdido entre gargalhadas desconexas, conversas tensas, grandiloquências. Já não era mais o mesmo e jamais voltaria a sê-lo.

Em quem se tornara ele, afinal? 

Nas praças as flores e a grama cresciam viçosas. Nascia o dia e a noite findava mais um tempo de viver. A roda de coco ali pertinho, continuava acontecendo todas as segundas-feiras. As cervejas festejavam as escassas alegrias genuínas e as tantas pseudo-alegrias ao som animado dos bandeiros. O converseiro, as mulheres bonitas acompanhadas ou sozinhas, a algazarra das crianças brincando, tudo prosseguia. Mas, nada. Nada disso o seduzia mais. Que tormento. A luz da vida foi-se apagando sorrateira até ficar tudo completamente escuro e triste. No entanto um rompante fê-lo levantar-se, finalmente, da cama e o conduziu para fora do quarto. Seria, então, mais uma tentativa de abrir as portas de sua alma, de olhar para a vida mais uma vez? Que tipo de olhar receberia do mundo que já não o cabia, nem quando estava eufórico, nem quando se achava perdido, nada fazendo qualquer sentido que fosse, e profundamente triste? Não se sabe. 

Sua história findou entre a porta do banheiro e o corredor da casa, no mais completo silêncio.

Para onde ia o rapaz? Em busca de quê?

Violeta sempre se fará essa pergunta. Sempre.

Goretti Brandão
Santana do Ipanema-AL, 13/05/2026 
(Data da 1ª Aparição de Nossa Senhora em Fátima -Portugal)



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