Inocência

 O menino chorava se sentindo largado:

"quero ir pra minha casa. Eu moro perto de "Bizola"

Era o nome do candidato à presidência do país pintada com tinta vermelha na única parede intacta dos escombros em frente à casa.

Ainda me pergunto quem traduziu para ele, que ainda não sabia ler nem falar direto: Brisola.

A mãe, o irmão mais velho...

Voavam as pequenas borboletas pretas naquele quase jardim desarranjado, feito por si mesmo,

de verdes, chananas, beldroegas, escombros e lixo.

Assanhavam-se legiões de mosquitos e o cantar dos sapos nos dias de frio.

"Eu quero ir pra minha casa"

Um dia chegou da escola antes da hora

todo feliz, "mamãe, graças a Deus

hoje não vai ter aula: o marido de tia Carla, morreu!"

O menino hoje é um homem.

De pequeno restou nele meia dúzia de tristezas que ainda agora reverberam.

Comigo é quase igual:

quando fui crescendo desconheci o paraíso

e quase morri afogada tomando banho no rio.

Passada a agonia, falava nisso orgulhosa.

Achei que moscas e baratas eram inúteis e desnecessárias e duvidei de tudo.

Inadequada, quis voltar para um lugar que eu não sabia onde.

Uma vez me revoltei, inconformada, e ameacei falar em azar.

Minha avó, diligentemente, séria, emoldurada pela cortina do quarto, me falou com autoridade:

"Azar, minha filha, quem tem é o diabo!" 



Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Com quase sessenta

Depois de ontem

Entre a porta do banheiro e o corredor