Pensamento embolado
Adilson me faz raiva. Daquelas que a gente tolera e vai levando. Desatencioso, faz que escuta o que digo mas não ouve. Ouvido de mercador. Responde 'tá certo, tá certo, dona Violeta, mas nem se presta à atenção. Quis atingi-lo essa manhã e sem dar tempo dele tomar fôlego, sem preparar o terreno, anunciei sem rodeios nem misericórdia, a morte de um cantor de bregas antigos. Um daqueles de sua devoção. Ele parou de arrancar os matinhos do jardim e ficou ali matutando. Coçou a cabeça. E eu satisfeita, me sentindo vingada, mexi na emoção dele, só para aumentar mais um pouquinho a sua tristeza. ' Quer ver a notícia na internet, quer? Eu mostro'. Queria ver sim. Queria ver para acreditar. Como consolo de si pra si, cantou a música mais conhecida do cantor e foi buscar na memória quantos cd's tinha, a lembrança de um show que tinha ido. 'O artista era dos bons. Sabia entrar e sair do palco com educação. Fazia bonito'. Calou-se, resignado.
Voltou a tirar matinho por matinho dos canteiros e vasos, até que parou de vez. Quis ver de novo a notícia, que eu li, agora, ficando com pena dele, arrependida. Essa coisa de vingança, presta não, comigo. Eu precisava mesmo fazer uma maldade premeditada daquelas? Ficamos os dois sem ir nem vir. Suspensos. Olhei o relógio ' vá pra casa, Adilson. Está na sua hora. Vá pra casa'.
'Eita, Dona Violeta, que com essa na minha cabeça, se embolou todinho meu pensamento'
Goretti Brandão/2018
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