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Ao meio-dia

Se chuviscasse no começo da noite, toda a intenção de sair iria por água abaixo. Era assim naquela casa. Não havia o que fazer na rua em dias chuvosos, nem ao meio-dia. Ninguém era besta de colocar os pés além do batente da porta. Era a hora de o diabo andar solto pelo mundo. A larga avenida tornava-se lugar inóspito e a sisudez estabelecida murchava o vento na folhagem das árvores. Via-se o tempo através da janela. Mas isso já faz é tempo. Naquele dia de sol quente e mormaço, Isaura debruçou-se a ver da paisagem faíscas de luzes. Vinham dos arredores. Ela enxergava por assim dizer, com os olhos da casa, por seus grandes olhos de janela, que constantemente vigiavam a serra e as nuvens, e que mendigavam acontecimentos. A mulher, ali, como extensão da casa ou a casa dela, deu por visto, o homem que falava ao microfone. Viu da sua imaginação, a sua estatura, sua voz e toda vez em que gesticulava em frêmito, na tentativa de organizar a confraternização natalina. O aparelho chiava. O su...

Fadário

Fui visitá-los. De tardezinha ao chamar por Rosa, a sua vizinha saiu à porta acompanhada da mãe. Duas abelhudas. Rosa apareceu. Vinha de uma confusão de sonhos azedos e trazia as pálpebras inchadas. Fitou-me com os tais olhos da sua enorme apreensão sobre mim e abriu-me a porta desanimada, mantendo-se a certa distância. E já no sofá eu sentara em uma ponta e ela em outra. Chegue pra cá, criatura. Tá com medo de mim? Ela não respondeu. Era tanta a sua aflição, que eu fugi por alguns instantes daquele momento, mexendo no celular para suavizar a tensão. Rosa usou de um fiozinho de voz pra me perguntar: _ E agora? O que é que eu vou fazer? Eu não tinha resposta, senão aquela, de que há solução para tudo. Porém, nem me agradou dizer aquilo e nem a ela, ouvir. Frases genéricas soam como chavões, esvaziados pelo tanto que são usados. Fica o dito pelo não dito, o que é o mesmo que dizer que, para cada situação arquetípica, existe uma frase correspondente, que não responde n...

Ao final do dia...

Dona Violeta, a senhora gosta de Lindomar Castilho? E Waldick Soriano? A senhora gosta? Perguntou-me o jardineiro enquanto revolvia sem a menor pressa o chão de terra. Ciscador na mão, ele disse que o instrumento que eu acabara de trazer nas compras, viera a calhar. Arrancava gravetos e amansava modestamente a grama já existente, cantarolando com a voz molenga, que nem de preguiça era. Era de fazer tristeza à canção. Sofredor de todos os amores, dos amores mal empregados, o ciscador servia-lhe para remexer um chão mais profundo e escondido, lá dentro dele. As inflorescências caíam das buganvílias e cobriam o verde de púrpura e lilases. A tarde alaranjou e foi-se escorregando por trás das serras. Corri a acender as luzes do jardim e de volta a ele, respondi ao jardineiro a resposta possível: _Você canta bem essas músicas. Não, ele não canta nada bem, mas canta emocionado. Canta sentindo tanta dor que me faz senti-la também. Então vale. Porque é cheio de sentimentos e é na linguagem d...

Espantos e deslumbramentos

Eles seguiam em viagem pela estrada. Chovia no tempo e a manhã era molhada, as flores eram molhadas e de cima dos telhados dos casebres, a água descia cantando musiquinha umedecida. A mulher olhava distraída, as encostas no caminho, divisando pequeninas flores. Viu brancas ipoméias , dezenas delas margeando a estrada. Repentinamente, precisou que o tamanho do mundo vasto, era pequeno demais à imensidão do espaço e pôs-se a imaginar que infindáveis aritméticas poderiam contar o infinito. Nenhuma... Ao seu lado, o marido asseverava que eram cinquenta e cinco, o número de países que formavam o continente africano. Um lugar onde nascem mais pessoas e onde mais pessoas morrem. Com quantos números seria possível calcular tanto mistério (?) pensava a mulher, enquanto assentia com a cabeça, sobre a África, os povos, a fome, a vida e a morte.  Pensava em buracos negros e que faltam bilhões de anos ainda, mas que a Via Láctea e a Andrômeda vão se chocar. Tentou imaginar o tempo cósmico. ...
Minha primeira redação foi na escola primária. A orientação era para que descrevêssemos o que víamos de uma paisagem posta no flanelógrafo¹ . Eu abusei do verbo Ver: "Vejo uma casa com portas, vejo janelas, vejo o campo, vejo os bois, vejo isso, vejo aquilo. Vejo." Eram os meus olhos de enxergar que falavam. Os meus olhos de sentir, eu comecei a ver com eles, pouco tempo depois... Foi quando eu entendi que Ver com o coração é enxergar por dentro das coisas! ¹Quadro revestido de flanela ou de feltro de cor lisa, us. como recurso didático, e sobre o qual se fazem aderir objetos ou figuras, fixadas ou removidas segundo as necessidades do ensino. (Dic. Aurélio)

Desenredo...

Gosto da atmosfera do tempo dos últimos meses do ano. Gosto dos cheiros que esse tempo exala, das ventanias e da cor do sol sobre o mundo nos finais da tarde, do barulho que o vento faz, e do ladrar dos cães no fundo dos quintais. E se eu ainda pudesse contar sobre o que sinto acerca desse tempo à minha avó, ela diria: "Dou por vista". Não sei explicar, mas sei sentir, o que o dou por vista quer dizer.  Há duas noites andei por um tão longo corredor que eu não via o seu final. Foi um sonho. Acordei com a sensação de um nunca acabar. Um nunca acabar o quê? O vento bate forte nas vidraças da janela, a tarde cai e eu faço silêncio em mim. Dou por vista o que muita gente sente nos finais da tarde. Eu, sinceramente, gosto muito é de ter a consicência sobre que os ciclos da vida vão se fechando e outros vão tendo início.

Bom dia, Pão de Açúcar

"Você tem fome de quê?" São sempre bem vindas ações que visam minorar as necessidades da população mais carente, desde que tais ações não tenham como objetivo desviar a atenção dessa mesma população e da sociedade em geral, para outras necessidades. Saúde, Educação, Moradia, também fazem parte das necessidades básicas dessa gente e poderiam ser identificadas, da mesma forma, como outras fomes irmãs. Certos micro-projetos" sociais, reproduzem as velhas fórmulas filantrópicas-paternalistas que visam sim, tornar o gestor municipal um "meritório": "Pai da Pobreza" e amenizar as queixas dessa mesma população de necessitados. Pão e mungunzá podem e servem, num dado contexto, para amenizar a fome primária, física e visceral, do povo pobre e necessitado de nossa cidade. Ação que, inclusive, nos remete à Roma antiga e a antiga e tão atual expressão: Panis et circus (Pão e Circo, para iludir outras fomes e outras precisões). "A gente não quer só comida...