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Bom dia, Pão de Açúcar

"Você tem fome de quê?" São sempre bem vindas ações que visam minorar as necessidades da população mais carente, desde que tais ações não tenham como objetivo desviar a atenção dessa mesma população e da sociedade em geral, para outras necessidades. Saúde, Educação, Moradia, também fazem parte das necessidades básicas dessa gente e poderiam ser identificadas, da mesma forma, como outras fomes irmãs. Certos micro-projetos" sociais, reproduzem as velhas fórmulas filantrópicas-paternalistas que visam sim, tornar o gestor municipal um "meritório": "Pai da Pobreza" e amenizar as queixas dessa mesma população de necessitados. Pão e mungunzá podem e servem, num dado contexto, para amenizar a fome primária, física e visceral, do povo pobre e necessitado de nossa cidade. Ação que, inclusive, nos remete à Roma antiga e a antiga e tão atual expressão: Panis et circus (Pão e Circo, para iludir outras fomes e outras precisões). "A gente não quer só comida...

Tergiversar

Entre a Palavra e a Imagem, há espaços onde ergo a minha morada. Ora feita com letras, ora de pincéis e tintas. Dentro da imagem, o meu coração é maestro de batuta em punho, harmonizando sístoles e diástoles, esses meus barulhos. Um maestro daqueles que a palavra chama pelo nome de sentimento.  O mais profundo mergulho é o que dou para dentro de mim. Meu salto quase heróico é como um vôo sem asas, à imensidão do vagar entre o vivido e o registrado, para a nunca concluída Casa que é em mim, o lugar de insistentes perguntas, que a ela me retornam. Do lado de fora do que julgo ser, os vazios, a inércia, o temor do imponderável, também sou eu.

Ao Companheiro de Luta, Luisinho Costa

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O tempo passa tão depressa... Se não me engano, foi no final do ano passado, nas celebrações da formatura das crianças do ABC, que nos encontramos, eu e Luizinho, festejando nossos pequenos doutores: meu sobrinho e sua netinha. Aquela noite festiva onde trocamos tantas palavras amistosas, marcava, porém, nosso último encontro, de tantos encontros que tivemos décadas atrás, ambos, militantes do PC do B em Pão de Açúcar.  Pela manhã recebemos, eu e Waldson, a notícia da sua partida. Comove-me sentir que a sua presença sorridente, ponderada, companheira de tantas lutas, fez deslocamentos no tempo, ocupou espaços e agora se ausenta para desconstruir-se no silêncio do útero úmido da Terra-Mãe. Comove-me, sobretudo Luizinho, lembrar que em um período significativo, fizemos parte da vida uns dos outros, entrelaçando andanças, discussões políticas e história. Comove-me saber que a sua realidade se despede e nos obriga a mergulharmos no recurso da memória. Quero fa...

Sem a palavra

Às vezes a palavra some, amiudada, sem conseguir corporificar-se ou conter em si o símbolo do meu sentido. É que sentir por vezes é tão grande, e quase tão próximo do impenetrável, que o Silêncio da letra, escrita, emudece, e faz-se santuário de um repertório tardio. A palavra - e eu tenho medo -, talvez reduza o sentido e empobreça, pagã, a imagem e a força do que se sente.  Neste sentir, o limite do conhecer humano extravia-se. Faça-se Senhor, a Palavra e o Verbo, o verso e a poesia, e o meu dizer de sentimentos. Sabedoria eterna, só Deus tem à Palavra o sentido. Eu, tão-somente, em minha pequenez, assim, tal jorro incoerente de frases, me abandono neste Mistério e, curiosamente, ouso escutá-lo...

Biunívoco

Dentro do seu olho que me olha, eu me vejo no seu olho que vê o seu olho me vendo Será que dentro dos seus olhos só nossos olhos se vêem???

Cambiante

Eu brinco de colar cotidianas realidades, retendo pedaços de céu de um azul esmaecido, enquanto espalho por dentro dos olhos, recortes de parabólicas e telhados, de casinhas coloridas e 'pés-de-pau'. Atavio uma janela imaginária, com chão verticalizado, entre dois vértices cruzados, feitos dos meus dedos, e dentro dela, componho a colagem feita do quanto tudo é real. É que eu quero reter das suas metáforas o sentido, só para guardar nas coisas vistas, alguma coisa de mim, pulsante, no agora. Toda a imagem que recolho, me representa colada no mundo desta manhã. Amanhã... é tudo tão diverso. Mesmo que todas os signos se anunciem iguais. Não me devo enganar: eles mesmos, que constelarão meus sentimentos, me revelarão outros sentidos.

Isadora, Isa, Dorinha...

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Tempo de chuva, Didinho meu irmão, em menino, encheu uma sacola de sapinhos e despejou-os dentro de casa. Foi um rebuliço. Deitada no cimento frio, a menina imaginava que colocando uma cadeira sobre outra, muitas, subindo, subindo, chegaria nas nuvens.  Lilice tinha como certo, que os ovos já saíam cozidos da galinha, e que seu olho esquerdo enxergava mal, por se tratar de estar no lado esquerdo e ela ser destra. Bruninho, sobrinho da minha cunhada Waldirene, me avisou muito sério, que a sua galinha tinha parido um ovo.  E Guigo veio me dizer surpreso, ao ver a vizinha, moça-velha, com um bebê nos braços : "Mamãe, Lu deu cria!".  Lelo, tomou uma colherada de lambedor de hortelã, para acalmar a tosse, e exigiu que se colocasse mais em um prato. Queria tomar igual a como se toma sopa. Thaminha ocupava a sala de visitas, lá em casa, onde a nossa infância reinava absoluta, e dava aulas diárias às suas bonecas, que sentadas no chão, entediadas, ...