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Bordadeira

Céu de nuvens e o azul esmaecido, imenso, sobre a minha cabeça. O mundo gira perseguindo o meu destino, e eu a tecer-me de um único fio que serpenteia, à pirueta ancestral de outros bordados. A minha sina é a de ser bordadeira, dando ponto, à extensa toalha, de fazer da vida arte. Tenho, por fim, que bordar. Pede-me o cansaço que eu seja ao universo a auspiciosa viajante, E que fuja da fatigante tarefa, como laçada de crochê, que escapou da agulha e dos dedos da artesã, renegando o bordado. Mas eu, que já nasci presa ao meu fio, bordo cabriolante, à dor e à alegria, fincando meus pontos no mundo.

Curiosidade

No silêncio desta manhã Escuto a conversa das flores ao pé do muro. Conversa de flor é sobre como abrir pétalas e florir É como se faz suave sobre si, o pouso das borboletas e o orvalho da noite. Arvorejo-me, disfarçada à escuta, para saber sobre a flora. Tagarelice de muita flor junta é sobre cor e perfume. Se há muito perfume e muita cor. Senão é sobre arredores, matinhos e insetos. Da esquina vejo um muçambê que me vê. Afoito que nem eu, penduculado, humaniza-se, querendo saber sobre mim.
Quietude. O dia começa nublado. A manhã cheira a hortelã e boldo do México e a minha muda de trepadeira de belas flores azuis, cresce vertiginosamente. Caminho pelas ruazinhas dentro dos muros da minha casa e tudo é tão verdinho e cheio de vida, e tudo também carrega tanto mistério... Olhei demoradamente para a Via Láctea, ontem à noite, e pensei sobre a imensidão do cosmo, sobre outras galáxias... Grandioso mesmo é tudo o que nos cerca. Imensa e inexplicável é a minha ideia de Deus!

Por associação

Do botão à flor, da lagarta à borboleta do bambuzal no meio da viagem, à viajante paisagem que enfileira pensamentos. Um casebre com janelas desleixadas corre pelos meus olhos, também, aquelas duas mulheres. Pensando bem, não eram duas. Eram três,  e vinham ao sol, com sombrinhas coloridas. Lembrei das minhas quatro gueixas de delicada louça, tocando seus instrumentos, e cenas do cinema japonês. Em uns cinco filmes. Eu preciso é de um sofá, de Ozu e Hore-eda

Alegria

Manhãzinha de sol nascido e, jardim com passarada sobre buganvílias, orvalho em folha verdinha, verbenas em flor, ipoméias, formiginhas no açucareiro, farelinho de pão sobre a mesa. Afeto, afago, mercê, favor. Amor. E viver um dia todinho, Solenizando essa vida.

In medium est virtus

Dia ameno. Hoje, também, sou de trato suave. Nem sol, nem chuva. Sou meio evidente. Meio sombreada, meio misteriosa, meio, meio...

Rumo

Se atordoada, eu volto pro meu canto, o de onde me origino. É sempre de lá, já quieta, que retomo a trilha e volto. Volto sim, Mas é pra sair de novo, porque, enfim, quem tem porto tem barco, remo,  viagem e recomeço