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Buraco Negro

O desejo de amor quer um canto para dois e planeja seu próprio universo. E à vontade de que passe a existir, cria na própria desordem uma ordem binária de zero e um. Navega-se sem barco, o leme inventado invertido, sobre um denso mar de palavras essa tela de letras,   em estrangeiros países de dramáticos sentimentos. As frases dialogam e são apagadas, Os traço de suas rotas evaporam. Que teclado inútil, que nem à memória dos toques seus afetos sobrevivem. Sobre os navegantes, a regra: nunca, nunca, haverão de se encontrar. Não há lugar a chegar como na dança de Maia. Ilusão que à impermanência de um pequeno planeta, um só gesto o exclui. Onde, únicos, pensam sim ou não apenas, sempre  à beira de um noves fora. Um. Que traga para o que é coisa alguma, o que bem poderia, não sendo zero, ser tudo. Eis-os, então. Navegantes, de uma mesma soma incompreensível Dois,  sozinhos em um buraco negro.

Via messenger

O pequeno menino tem eczemas pelo corpo todo e precisa de cuidado. Sua mãe me pede socorro. Maria Helena anuncia: "As orquídeas serão compradas e postas na varanda" eu imagino o quão feliz ficará o seu cantinho lá em São Paulo, A ela, queria dizer mais coisa além do que disse  e com mais entusiasmo. Custou-me articular as mínimas palavras ditas. E o amor, ah! o amor me pede mais folga. Precisa cumprir com suas obrigações. Falho em todos os pedidos. Perdoem-me. Perdoem-me, vocês, que me pedem algo. Estou meio sonolenta, ainda à porta desta terça-feira, estreando presença indefinida e duvidosa, como alguém que se aproxima de leve à beira-rio e vai molhando com cautela os pés na água fria, sem saber se é isso mesmo o que quer fazer.

Que entenda quem puder

Dentro de casa a mulher entediou-se, e aqui para nós, já não era sem tempo. Desfez-se do avental e na passagem pela varanda pendurou-o no armador da rede. Saíra da cozinha, ajeitando os cabelos com as mãos e passando a língua nos lábios ressecados. Andou até a cadeira de embalo, como dizia o povo do outro tempo, trouxe-a à calçada e sentou-se nela, cruzando as pernas com displicência. Na rua onde as gentes transitavam, viu os carros estacionados e como se o ontem e o agora fossem duas lâminas de uma mesma imagem, colocou-as uma sobre a outra para compará-las. Havia muita diferença à inconsciência generalizada para aquela visão de cidade que se tinha. Ou que alguns poucos tinham. A de hoje se olhamos com atenção é a mesmíssima, vive na inércia desde muito tempo, mas disfarça-se no acúmulo de automóveis parados e pequenas lojas em toda a extensão da avenida, dando-se à impressão de ter crescido. Qual nada. O lugar é o das mesmas conversas de todos os dias. A vidinha de um, a vidinha de...

Prece mal feita

Imagem
Rio São Francisco em Pão de Açúcar-AL (Festa de Reis 2015) Transitaram pelas águas do rio, as canoas. Velas içadas, uma paisagem em movimento. Passaram as gentes, em seus semblantes e trajes. Sob o sol quente e a visão da outra margem, há o cerco das serras e à curiosidade de descobrir o futuro por trás delas. Circunda meu zelo, a impressão de que não basta navegar nas letras, nem construir palavras, nem desdobrar frases, onde é tanta a premência de ausentar-se-me em pessoa e em ideia.  Que eu continue sendo um fantasma.  Sombra tracejada sobre a luz que incide à vela, ao norte e à navegação. Velejo, eu, embarcação miúda, sobre um rio que contraria a direção dos peixes e a lógica dos lemes. Margeio, aderno, adentro o coração no volume das águas. Retorno. Entorno de estrada com direito à romântica pontezinha pintada de branco. Murmuração de um ego em prece mal feita, ajoelha–me a alma, ante a imensidão do Verbo. E em mim, o velejar dos sentimentos indizíveis me sedu...

Clausuras

Era assim mesmo, que nem uma freira enclausurada, doida pra sair do claustro. Afobava-se por nada. Mas, tinha nada não. Não tinha e eu compreendia a insatisfação dela. O que eu desejava era fincar pé, aborrecer quem me aborrecia, de fazer pantim, como ela mesma dizia. Eu queria fazer pirraça, dizer não com vontade de dizer sim, só pra sentir como era ser ruim de verdade. Porque se eu contestava alguma coisa, uma promessa feita a mim e nunca cumprida, ela dizia: Ruim igual ao pai. Língua grande igual a dele. E ameaçava:  _ Quando morrer, o corpo vai em um caixão e a língua em um caminhão.  E eu que apreciava tanto converter palavras em imagens, ficava parada ali, recebendo aquela carga destemperada dela. Era tão despropositada, tão injusta e por isso mesmo tão hilária, que eu não perdia tempo imaginando minha língua, enorme, indo em um caminhão pro cemitério. Depois aquelas palavras se repetiam com tanta frequência, que eu perdia o interesse em ouvir. Ficava era adiantand...
Anoitece O dia já dormita. Aproveito o intervalo entre os dois tempos e crio um só para mim. Nem de luz, nem de escuridão. Festejo-me na neutralidade. Nessas horas delicadas, eu não gosto de pensar...
Um canudo feito de mamoeiro para fazer bolhas de sabão e a festa da alegria, começava no bequinho, ao lado do tanque de cimento. Ali ficavam os apetrechos à brincadeira: à esquerda da parede das três janelas e uma porta entre elas. Eram, por bem dizer, três olhos e uma saída, retangulares, que viam por dentro, a casa que nos via. As bolhas, elas efervesciam multiplicadas, e eram de uma transparência, naquele azul - que eu chamava -, àquela cor que não tinha nome, nenhum, que eu conhecesse. Aglomeravam-se, formando estruturas de cristal. Tanta ardileza, que soprada, enchia-me as mãos. Tão grande a delicadeza da água ensaboada, escorrendo em glóbulos de ar luminosos. Um friozinho molhado nas mãos e nos braços, hoje sei, trazia àquela sensação, o recurso de me fazer inteiramente feliz.