Em Satuba, a tragédia anunciada: Um anti-herói em Alagoas?


De quem partiu os boatos?



Li a pouco, que escolas em Satuba estão fechadas, e que 3 mil crianças estão sem aula. Motivo: um boato de que o que ocorreu em Realengo, zona oeste do Rio de Janeiro, aconteceria nas instituições públicas de ensino da cidade. Não é para menos. Não cansados com a espetacularização da notícia, que colabora com a banalização da vida, os meios de comunicação continuam divulgando tudo o que vão encontrando de novidades em torno da figura de Wellington Menezes de Oliveira. O uso abusivo e irresponsável da imagem do rapaz, é um desserviço, porque ajuda a construir para as pessoas - em sua maioria, para os jovens -, a transformação da sua figura doentia, em uma outra: a de um quase herói, especulado em suas ações, em seus gestos, e em sua mente aturdida. Por que dar tanta ênfase em torno da imagem de alguém, que vítima de transtorno mental, praticou um ato que traumatiza e denuncia as mazelas escondidas sobre as sombras de uma sociedade inteira?

Somos convidados a prolongar, de maneira sádica, a desgraça alheia: A mídia segue instigando o acontecimento amargo às crianças que sobreviveram, e aos pais e familiares daquelas que se foram, mexendo repetidamente, em qualquer possível processo de cicatrização das feridas sofridas por essas pessoas. Para isso ela trabalha com a fustigação da lembrança se utilizando do seu pior aspecto. As imagens que machucam a alma. Aquela que prende a memória dos que estão sofrendo nas malhas do tempo das suas dores. É a ampliação exaustiva de um sofrimento de outrem, a qual somos envolvidos para além dos sentimentos de humanidade para com eles, e para conosco mesmo, quem sabe?. Porque se chegar a vez da nossa desgraça, os outros agirão conosco da mesma forma: como expectadores. Meros expectadores, doentes por notícia espetaculares, apenas.

O pior de tudo é que nos deixamos enganar e envolver pelas notícias espetacularizadas, e acabamos nos desviando da dor e do sentimento verdadeiros. A gente chora assistindo pela TV, vendo na internet, lendo nos jornais, a tragédia alheia. Mas à maioria isso acontece no nível da emoção imediata, instigada pelas imagens, dramatizadas na voz de belos repórteres. A exemplo disso, veja-se a quantidade de pessoas que nunca chegaram próximo ao ex vice-presidente, José Alencar, e que choraram em seu velório, como se fossem amigos íntimos dele, movidos pela comoção coletiva e guiados por uma emoção vinda de uma imagem de pessoa boa, honesta, trabalhada pelos meios de comunicação? Não querendo com isso dizer o contrário a respeito dele. Como pessoa comum que sou, não tive a oportunidade de conhecê-lo. A gente se emociona. Uma emoção sem profundidade e tão imediata quanto a duração e o tipo de emoção conotada da imagem que se nos oferece e nos bombardeia.

A repetição da notícia e o abuso da informação contida de imagens e detalhes, acaba esvaziando a nossa emoção e transformando o impacto inicial em uma busca, para muitos, quase neurótica, acerca da continuação daquilo que não tem mais o que dar. É aí quando acontece a banalização do acontecimento e a evaporação daquilo que nunca foi dor, nem solidariedade para valer, àqueles que sofreram o dilema. Por outro lado, a mesma mídia coloca de pernas para o ar, qualquer possível conclusão saudável, a que possamos chegar sobre o caso. Começa a mitologizar o réu, mostrando fotos, cenas, vídeos, como se tais informações trouxessem benefícios à população. A avidez cada vez maior, pela supressão de carência, faz com que se criem esses mecanismos de busca de informação por parte das pessoas. Muitas vezes para que se possa se colocar no lugar dos que sofreram a tragédia e poderem dizer, aliviados: graças a Deus que não foi comigo!

Quanto aos boatos em Satuba, eles terão surgido de alguém que admira o ato de Wellington Menezes de Oliveira? Tais boatos nos mostram o quanto estamos vivendo numa sociedade ávida de informação. Mais das vezes, de informação doentia, onde a espetacularização da realidade, onde cada signo é cada vez mais, um objeto em si mesmo. É por isso que precisamos constantemente de espetáculos. Como podemos continuar sendo humanos?


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