Prece mal feita





Transitaram pelas águas do rio, as canoas. Velas içadas, uma paisagem em movimento. Passaram as gentes, em seus semblantes e trajes. Sob o sol quente e a visão da outra margem, há o cerco das serras e o desejo de descobrir o futuro por trás delas. Circunda meu zelo, a impressão de que não basta navegar nas letras, nem construir palavras, nem desdobrar frases, onde é tanta a premência de ausentar-se-me em pessoa e em ideia. Que eu continue sendo um fantasma. Sombra tracejada sobre a luz que incide à vela, ao norte e à navegação. Velejo, eu, embarcação miúda, sobre um rio que contraria a direção dos peixes, e a lógica dos lemes. Margeio, aderno, adentro o coração no volume das águas. Retorno. Entorno de estrada com direito à romântica pontezinha pintada de branco. Murmuração de um ego em prece mal feita, ajoelha–me a alma, ante a imensidão do Verbo. E em mim, o velejar dos sentimentos indizíveis me seduzem ao mergulho no inconsciente. Mas eu quero viver na superfície das frases feitas, da palavra sem ordenação, da letra sem personalidade, doutrinada em caligrafia. Ah, Meu Deus... Liberta-me da angústia da poesia.

Festa de Reis - 2015

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