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MarGarida

As flores fenecem cedo. Você não sabia? Só pude entender agora, depois de chorar por dentro, a sua seiva interrompida no caule, as suas pétalas, caindo no decorrer da semana. Os meus últimos signos da infância somem-se na lembrança dos fundos da casa vizinha. A lenha, o fogo, o lambe-dedos quentinho, a sua voz de vegetal e jardim, batendo arroz num pilão de madeira. Suas mãos ossudas de longos dedos morenos. Os caminhos do inverno, a lama, o quintal da casa onde íamos buscar o leite todas as manhãs. A sua voz me chamando por cima do muro. Só nós duas saberemos eternamente do que isso trata. Porque vivemos num tempo quase encantado, que parecia eterno, na sala, nos quartos, nos bibelôs, nos móveis, no rádio antigo, nas histórias de trancoso, na tosse persistente de Madrinha. Eu era pequena para entender o tempo. Vivi minha infância em seu colo. Vivi a calçada, o mundo incorruptível da Avenida Bráulio Cavalcante, onde diante da folhagem parada das árvores, apenas nós duas balançávamos nu...

Magnólia

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Naninho esteve aqui em casa. Veio pedir para a minha avó fazer uma ‘caridade’ a ele. Ou melhor; duas caridades: uma a ele e outra à Magnólia, que não vai nada bem da cabeça. “Eu fico com ela Naninho. Passo uma temporada” que o coitado precisa arar a terra dele, plantar, aproveitar a chuva. Magnólia chegou depois de uns dias, meio assustada e cheia de desconfianças: “Na minha aposentadoria ninguém mete a mão, que ainda vai aparecer quem me roube”! “Não é porque a senhora é minha tia, que eu vou descuidar. Aqui todo mundo é ladrão”. Veio de mala e cuia, trouxe mochilas de plástico, com uma papelada dos diabos dentro. Chegou fazendo e dizendo coisa que nunca havia feito, nem dito. A ‘pobrezinha’ com o juízo atrapalhado, enveredou também pelo erotismo e deu pra dizer pornografias a torto e a direito pelo meio da casa. Magnólia tem nome de flor, mas não faz jus ao nome. É uma “branquela”, magra e envergada pela coluna troncha, como se não bastasse a ela a corcunda, que carrega o peso dos se...

UNO e TRINO

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O dia amanheceu. A claridade da manhã entrou pela janela do quarto e acordou a contista. Ela espreguiçou-se, olhou em volta e com seus olhos de quem vê em tudo, uma história a ser contada, achou o dia propício para contar uma. Remexeu de si mesma, sua provisão de idéias, buscou no seu lugar de guardar palavras, aquelas devidamente pontuais para escrevê-las, porque as palavras para quem escreve, assim como as tintas para o artista, é sempre preciso juntá-las como quem junta pessoas numa convivência - com perspectiva de autêntica simbiose -, ou coisas e artefatos, um sem-número deles, que se encaixem como num grande quebra-cabeça, perfeito no final. ‘Escrever é uma atitude sagrada. Requer abstração da realidade. Pelo menos é assim para mim’. Ponderou a contista. Tal pensamento suscitou nela desejo de conferir o que pensara e, emproada, cedeu à luminosa e entusiasta sensação de ser honesta àquilo a que acabara de falar. Dispôs-se a iniciar-se no dia. Adiantando-se, caminhou até o banheiro...

Quando as novelas nos influenciam

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A televisão é hoje uma das grandes propagadoras de valores e comportamentos Não acompanho novelas por achar que se perde tempo com elas. Posicionamento meu, particular, o que não me impede de mesmo assim, sem estar diante da telinha, perceber o efeito que elas, as novelas, fazem na vida das pessoas. Hoje, mais do que a Igreja e a família, a mídia, de um modo geral, é quem dita costumes, valores e comportamentos. Até aí, nenhuma novidade. Esse discurso é caduco. O que me chama a atenção, no entanto, é a maneira como as pessoas reproduzem os "ensinamentos" inculcados pelos meios de comunicação. Tenho observado o acontecimento das "festas Indianas". Elas se tornaram frequentes entre grupos de mulheres que costumam se encontrar com regularidade. Vi há poucos dias, em álbuns do Orkut (e quem não conhece o orkut?), a quantidade de eventos dessa natureza. Isso me faz pensar sobre o assunto. Diante de fotografias, onde além das roupas típicas da ...

BURACO DE ENTULHOS

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A cama onde durmo não me serve. Levanto com todas as articulações doendo. Hoje olhei o dia pela janela. Faz um solzinho frio, e a paisagem é calma. Notei uma borboleta de um amarelo-quase-ocre, com lindas listras pretas, cumprindo fielmente a sua natureza de invertebrado. Tive um desejo enorme de ser inseto, de encher as patinhas de pólen, de voar de flor em flor, por entre as buganvílias aqui de casa. A Deus, o maior dos mistérios entre todos os outros, tenho o hábito de pedir, porque já é um hábito que a minha avó, sabida, me ensinou: Ô Margarida minha filha, a Deus a gente pede é o dom da sabedoria, assim como fez Salomão! Foi o rei mais sábio da Bíblia!. Foi mesmo, vovó?. Levei a vida toda só insistindo: Ô meu Deus, me dê sabedoria, vá... Acostumei. Todo dia, de chuva ou de sol, que nem o dia de hoje, claro, iluminado e cheio de borboletas, chateio Deus pedindo o precioso dom. Minha avó deve estar lá, pertinho Dele, vendo que eu, que me esforcei o tempo todo, desde pequena, para n...

LUCUBRAÇÕES DE VIOLETA

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Não foi sem-mais-nem-menos que Violeta recorreu aos antigos álbuns de família. Há dias ela andava procurando achar-se. É que vez por outra a gente se perde da gente mesmo. Foi atrás de um banquinho, colocou-o diante do guardarroupa - ficou muito estranha essa palavra -, subiu, e alcançou suas memórias. Coisa imagética, pontuou, dando novidade à palavra. Memória fotográfica. Melhor, memória imagética. Aprumou-se então. 'Hoje em dia é preciso reciclar até as palavras'!. Lembrou-se então de algumas delas que lhe ocorriam, e que para ela, desgraçadamente, haviam saído de uso: ligeiro, creme rinse, rodeira, serviço de som, palavras que toda vez que falava, causava estranhamento e risos nos filhos. Parecia besteira preocupar-se com essas picuinhas, mas corria-se o risco de ao desconsiderá-las, engrossar as fileiras dos que estão vivendo fora da realidade. Violeta procurava evitar termos como: 'No meu tempo'. Para ela era um "pecado" que não se devia cometer. Simples...

ENTRE A VIDA E O TEMPO

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Violeta acordou e ao olhar-se no espelho do banheiro, avistou-se no alto dos seus cinquenta anos. Tomou um susto. Tornou a olhar-se e reparou que o tempo continuava cumprindo impecavelmente o seu trajeto. Ela era prova disso: ' Estou na ante-sala de um lugar de mim que começo a conhecer agora'. Lembrou-se da infância, dos cheiros da sua casa, do mamoeiro empedernido lá no quintal, da goiabeira, do papagaio, das vozes e da segurança que sentia. Ainda fitando o espelho, pode ver-se correndo pelo corredor da sua casa, e o rosto sempre grave e de pouca conversa do seu pai, apareceu suavizado. Sobressaltou-se. Uma saudade, daquelas fininhas e sorrateiras, veio infiltrar-se nela. Violeta esfregou os olhos, saiu do banheiro e acorrentou-se as lembranças. Chorou. A vida ainda nem começara. Mas a sensação que ela tinha, era a de que o tempo caminha de um jeito, enquanto a gente caminha de outro. ' O tempo é um deus, enquanto eu sou uma simples mortal' Sentiu alguma coisa parecid...