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PELO LABIRINTO DE ODETE

Ia pelo caminho lembrando disso e daquilo. Comprei as coisas numa pressa danada. Disse a Odete que ela comeria lasanha. Disse só pra me ver livre da cara de decepção dela me dizendo: “Quando vi que não tinha lasanha, perdi a alegria da festa”. Como pode alguém deixar um encontro da família sem significado, estando rodeada de parentes e de afeto, só porque faltou lasanha? Despautério. Pura provocação. Não seria de outra forma pra ela. Então prometi, fingindo dar muito caso à reclamação: “Tá certo, minha querida; dá próxima vez que a gente se encontrar de novo, você vai comer o que deseja”. Nada está bom pra ela. Nunca. Infelicidade. Meu desejo de ser compassiva é quase desfeito nos melindres - essa coisa meio parecida com armadilha-, que vivo dando nomezinhos e usando de eufemismo para não dizer que é mau agradecimento. Odete é uma mal agradecida. Isso sim. Vive de fazer chantagem emocional com quem quer que seja que queira gostar dela, e dar demonstração disso. Tempos atrás eu me alivi...

O QUE NÃO SE PODE PESAR

Semana retrasada, eu ia dizer qualquer coisa a Aprígio, quando finalmente resolvi que o silêncio era melhor. Lembrei de alguma passagem na Bíblia que diz que o sábio não joga conversa fora. Não é que eu me ache sábia, sabe Zanza, mas é que não sei por que veio de algum lugar de dentro da minha cabeça, isso que considero como uma iluminação. Por que não? Pois bem, Hilário, aquele meu primo do qual lhe falei, foi me procurar lá em casa. Um abraço e tanto, até me beijou no rosto, duas vezes, com tanta avidez, que naquele momento senti que ele gostava pra valer de mim e pensei comigo mesma: É com ele que vou abrir meu coração. Você sabe... Essas coisinhas que a gente fica guardando esperando a pessoa certa pra contar, né Zanza? Comigo a coisa funciona assim: cada amigo tem uma particularidade. Tem daqueles que conto uma coisa, tem deles que eu conto outra. Como é que eu sei o que devo contar o que e a quem? Olhando a pessoa por dentro, mulher! Eu acho até que é um dom que eu tenho. Não gos...

SOBRE CASAS E PESSOAS

Foi aqui onde ouvi o tamborilar da chuva no telhado. Antes, uma ventania daquelas que anunciam que vai chover, espalhou poeira fininha sobre mim e sobre as coisas. Limpou as telhas, derrubou as aranhas caseiras e suas teias e sujou a casa. A casa. Essa, com porta de entrada bem alta, pintada de verde bandeira. Essa, cheia de quartos, corredor, cozinha, quintal e meninos barulhentos. Estou diante da memória que tenho dela, e assim a salvaguardo dentro de mim, pois que já não existe desse jeito. Mudaram-se as coisas e as pessoas tomaram rumos diferentes. O cheiro forte do cigarro de palha de José espalhou-se no tempo e diluiu-se dentre outros cheiros. Não tem mais quem o fume. José morreu esse ano, assim, de repente, e levou consigo aquele cheiro insuportável que enchia a cozinha. Velho enxerido e cheio de saimentos, nem pensei que fosse ter saudades dele, mas sinto. A sua intrigante presença me faz falta, porque perdi de quem sentir a raiva costumeira, viciada, alimentada por mim, eu me...

MarGarida

As flores fenecem cedo. Você não sabia? Só pude entender agora, depois de chorar por dentro, a sua seiva interrompida no caule, as suas pétalas, caindo no decorrer da semana. Os meus últimos signos da infância somem-se na lembrança dos fundos da casa vizinha. A lenha, o fogo, o lambe-dedos quentinho, a sua voz de vegetal e jardim, batendo arroz num pilão de madeira. Suas mãos ossudas de longos dedos morenos. Os caminhos do inverno, a lama, o quintal da casa onde íamos buscar o leite todas as manhãs. A sua voz me chamando por cima do muro. Só nós duas saberemos eternamente do que isso trata. Porque vivemos num tempo quase encantado, que parecia eterno, na sala, nos quartos, nos bibelôs, nos móveis, no rádio antigo, nas histórias de trancoso, na tosse persistente de Madrinha. Eu era pequena para entender o tempo. Vivi minha infância em seu colo. Vivi a calçada, o mundo incorruptível da Avenida Bráulio Cavalcante, onde diante da folhagem parada das árvores, apenas nós duas balançávamos nu...

Magnólia

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Naninho esteve aqui em casa. Veio pedir para a minha avó fazer uma ‘caridade’ a ele. Ou melhor; duas caridades: uma a ele e outra à Magnólia, que não vai nada bem da cabeça. “Eu fico com ela Naninho. Passo uma temporada” que o coitado precisa arar a terra dele, plantar, aproveitar a chuva. Magnólia chegou depois de uns dias, meio assustada e cheia de desconfianças: “Na minha aposentadoria ninguém mete a mão, que ainda vai aparecer quem me roube”! “Não é porque a senhora é minha tia, que eu vou descuidar. Aqui todo mundo é ladrão”. Veio de mala e cuia, trouxe mochilas de plástico, com uma papelada dos diabos dentro. Chegou fazendo e dizendo coisa que nunca havia feito, nem dito. A ‘pobrezinha’ com o juízo atrapalhado, enveredou também pelo erotismo e deu pra dizer pornografias a torto e a direito pelo meio da casa. Magnólia tem nome de flor, mas não faz jus ao nome. É uma “branquela”, magra e envergada pela coluna troncha, como se não bastasse a ela a corcunda, que carrega o peso dos se...

UNO e TRINO

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O dia amanheceu. A claridade da manhã entrou pela janela do quarto e acordou a contista. Ela espreguiçou-se, olhou em volta e com seus olhos de quem vê em tudo, uma história a ser contada, achou o dia propício para contar uma. Remexeu de si mesma, sua provisão de idéias, buscou no seu lugar de guardar palavras, aquelas devidamente pontuais para escrevê-las, porque as palavras para quem escreve, assim como as tintas para o artista, é sempre preciso juntá-las como quem junta pessoas numa convivência - com perspectiva de autêntica simbiose -, ou coisas e artefatos, um sem-número deles, que se encaixem como num grande quebra-cabeça, perfeito no final. ‘Escrever é uma atitude sagrada. Requer abstração da realidade. Pelo menos é assim para mim’. Ponderou a contista. Tal pensamento suscitou nela desejo de conferir o que pensara e, emproada, cedeu à luminosa e entusiasta sensação de ser honesta àquilo a que acabara de falar. Dispôs-se a iniciar-se no dia. Adiantando-se, caminhou até o banheiro...

Quando as novelas nos influenciam

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A televisão é hoje uma das grandes propagadoras de valores e comportamentos Não acompanho novelas por achar que se perde tempo com elas. Posicionamento meu, particular, o que não me impede de mesmo assim, sem estar diante da telinha, perceber o efeito que elas, as novelas, fazem na vida das pessoas. Hoje, mais do que a Igreja e a família, a mídia, de um modo geral, é quem dita costumes, valores e comportamentos. Até aí, nenhuma novidade. Esse discurso é caduco. O que me chama a atenção, no entanto, é a maneira como as pessoas reproduzem os "ensinamentos" inculcados pelos meios de comunicação. Tenho observado o acontecimento das "festas Indianas". Elas se tornaram frequentes entre grupos de mulheres que costumam se encontrar com regularidade. Vi há poucos dias, em álbuns do Orkut (e quem não conhece o orkut?), a quantidade de eventos dessa natureza. Isso me faz pensar sobre o assunto. Diante de fotografias, onde além das roupas típicas da ...