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Amor declarado

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Ester foi desta para uma melhor. Morreu como o hamster de Negão; silenciosamente, num cantinho da gaiola. Só demos fé quando as formigas começaram a rodeá-lo. Deitadinha virada pra parede deu um suspiro agoniado curto e rouco, e quando a gente foi acudi-la, ela já tinha ido embora.  Dois dias antes, eu tinha chamado o padre Inácio lá, que levou os santos óleos para benzê-la. Foi dar a Unção dos Enfermos a ela. Aquele óleo roxo eu fui ver pra que servia: era pra fortalecê-la na provação da doença e dar força pra ela enfrentar a dor e a morte, que a gente notava, àquela hora, ser da vontade de Deus. ‘Reze comigo dona Ester’ dizia o padre. O que? Ela respondia. É pra rezar o quê? Todo mundo que estava no quarto riu. O dia da morte se aproximando e ela fazendo graça. Não estranhava morrer não. Nunca estranhou.  Lembro quando o meu primo Maneco bateu as botas. Ela não derramou uma lágrima sequer, que não tinha precisão disso não, minha gente. “Só chorei quando a minha mãe morreu ...

Ocupar o Conjunto Carminha é mesmo uma resposta à população alagoana?

O problema com os envolvidos com o tráfico de drogas é maior do que se imagina Está claro que alguém ‘entregou’ Maria de Lourdes Farias de Melo, uma mulher jovem, de 26 anos, mãe de filhos dependentes dela ainda, aos traficantes de drogas do Conjunto Carminha, no Benedito Bentes. O modo cruel que caracteriza o perfil do grupo causa verdadeiro terror aos moradores do local e em quem quer que seja. Muito pior do que isso é o medo de saber, que entre a população e os traficantes, existe alguém que tem acesso aos dois lados e é um perigoso delator. A história de horror, com requinte de crueldades, começa a ser conhecida pela sociedade alagoana de forma direta. Antes, a distância entre nós e o lugar onde episódios iguais a esse e outros que presenciamos recentemente, aconteciam, era o elemento que nos mantinha temporariamente seguros. A crença de que isso só acontecia nos grandes centros, caiu por terra. Estamos vivenciando aquilo que assistíamos a pouco tempo, pela TV. O que é evidente,...

Zeneto: o telegrafista que virou cronista

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Portal Maltanet Conversei em entrevista com José Peixoto Noya, conhecido como Zeneto, que lançou no último sábado, 23, o seu primeiro livro de crônicas, intitulado: O Marechal que Virou Major. Natural de Santana do Ipanema, filho de Darras Noya, chefe dos Correios por 30 anos e que tem o seu nome dado ao Museu de Arte da cidade, e de dona Marinita Peixoto Noya, outrora diretora do histórico Grupo Escolar Padre Francisco Correia e uma das primeiras professoras estaduais, o cronista aposentou-se como funcionário público federal. Foi telegrafista do antigo Departamento dos Correios e Telégrafos, e encerrou a carreira, no antigo Departamento Nacional de Estradas e Rodagem, atual DNIT. “A “turminha” de Santana na década de sessenta em diante era muito unida, principalmente quando o motivo era falar dos outros em uma boa farra, geralmente no Cabaré de Jaraguá, a única Universidade do gênero em que se valia a pena freqüentar.” (da crônica: Boate São Jorge) Zeneto começou es...
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Família Brandão - 'ala feminina' Thaminha, Didada, Ely e Babi Brandão Elas... Núbia, minha cunhada e Babi, minha sobrinha Meus irmãos: Paulinho e Thaminha. Atrás: Dadinha, Ely, Eu e Núbia Babi, Ely, Thaminha e Didada Família Brandão

Como funciona o sistema linear do capitalismo?

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 Annie Leonard (guru ambiental) explica os mecanismos e como isso traz prejuízos para o nosso planeta

Dos mistérios brancos da névoa

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Manhã de neblina - Foto WEB A viagem aconteceu por dentro da neblina espessa. A paisagem escondida em uma brancura fosca me obrigava a acender todos os sentidos. Lembrei da cegueira branca de Saramago. Seria assim? Lembrei também de quando me sentava no batente da porta com Francisquinho. Éramos crianças. Ficávamos de adivinhar quem se aproximava. Tudo era vulto esguio no meio daquela alvura toda. Eu expirava o ar pela boca para ver a fumaça fria saindo por ela. A neblina dava tangibilidade às nossas vozes. Francisquinho me dizia sorrindo e todo cheio de inocência, que a cor da voz da gente era branca. Brumosa bruma, alva, era tudo parecido com a poesia de Cruz e Souza. Jásper chegou de mansinho, ergueu o rabo peludo e passou entre a gente se enroscando dengoso, querendo mimo. Nenhum pingo de sol e já era dia. Uma manhã de final de julho, próxima do meu aniversário. Novos vultos alongados. ‘Hoje não chove, vai fazer um solzão’. Uma voz de dentro de casa falou sozinha pelos corredor...

As escolhas determinam quem somos

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A tarde de ontem foi uma daquelas: tipicamente hibernais. A chuva e o frio chegaram juntos. A casa vestida sobriamente mergulhou-nos em sombras próprias e em um silêncio quebrado por pingos rítmicos e pesados, de quando as águas se precipitam fortes sobre os telhados, e caem no chão. O inverno parece que chegou de verdade por aqui. Esses dias teimam em me levar de volta ao passado. Ontem, porém, acomodei as lembranças num lugar bem cuidado da memória e escolhi ver filmes. Vi duas histórias que envolvem conflitos humanos, sob dois aspectos diferentes, mas que no final caracterizam as escolhas que estão sempre nos sendo ofertadas pelas circunstâncias da vida. Ao final, aquilo me fez pensar sobre que escolher algo, pressupõe estarmos diante de mais de uma oferta. E que cada uma delas aponta para caminhos diferentes, possibilidades diferentes, resultados diferentes. Muitas vezes, senão todas, escolher é arbitrar conflitos.   Decidir implica em colocarmos na balança, muito mais que...