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A PALAVRA É PARA DIZER: Garida

A PALAVRA É PARA DIZER: Garida

Garida

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Na tarde quente, o fogão de lenha metia fogo pelas ventas. A parede era negra,  as vigas eram negras,  as telhas enegrecidas. As imagens despejam-me a fuligem por dentro. À panela, douravam os lambe-dedos e frigia o vento. No quintal, a goiabeira, o pé de café e o silêncio. O pilão dormia em um canto. As folhagens oscilavam e enverdeciam a vista. Mais tarde, cadeira de balanço lá fora, A ver chegar as primeiras estrelas, A rua inteira era um pavilhão de repertórios e imensidões, e ninguém sabia que depois, amontoados, serviriam à saudade, que como uma serpente,  sibila sobre as páginas onde se cravam as lembranças. Um fantasma alto e magro assobia uma canção, me sorri, me traz no colo e me conta estórias de trancoso: Era uma vez uma Margarida, que viajou para o céu...

Figurado

Pássaro inocente, cujas asas distanciaram-me o universo e o vôo Entrou pela minha varanda e brigou com a transparência, sem entender o vidro da porta, assim como não sei ultrapassar o meu destino. Sou eu sim, a subir discretos relevos, A arriscar-me em rasantes vôos. Minhas asas feitas em casa, de velhos lençóis sobre os ombros, Alça-me até agora sobre a mesa da cozinha, sobre janelas da fachada,  voando sobre um  céu feito de calçada e cimento, sobre o tempo da memória das coisas. Dessas coisas é que me saiu do peito a ave, quebrantando a limpidez, agora, sem entender a porta. Sem o refúgio no mistério do vidro, desguarneço. Perdi-me do mundo do faz-de-conta, Perdi das asas o vôo tecido em algodão E os fragmentos pontiagudos transluzidos, cobrem o limiar da porta, entre mim e os meus medos. Para atravessá-la, h averei de dilacerar os pés.

Jucélio Souza, esse talentoso artista de Pão de Açúcar

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Jucélio Souza Quando Jucélio Virgínio Maciel de Souza veio ao mundo, um daqueles anjos dos que falaram a Drummond, disse a ele: “Vai Jucélio, vai ser músico na vida”. Estudante do último ano de Direito na Universidade Federal de Alagoas, militar do Corpo de Bombeiros, ele é um negro bonito, de olhos vivazes, um sorriso cativante, estatura mediana, extrovertido e vivendo seus 29 anos com a intensidade que persegue os artistas. Conterrâneo de Bráulio Cavalcante, nascido de Pão de Açúcar, que no dizer do falecido poeta, Marcus Vinícius* foi o lugar do pandeiro inquieto de Zé Negão, José Elias do Nascimento, seu pai. Herança musical. De pai para filho Apesar de preferir tocar sax tenor é o sax soprano o instrumento mais permanente em sua vida profissional. Vida e talento musical para Jucélio estão marcados, logicamente, por conexões com a história de vida e da música na existência do seu pai, um artista, também, de vários instrumentos – ele tocava sanfona, trombone, contrabaixo ...

Em um desses domingos...

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O espectro do que fora a árvore a mantém ainda de pé entre telhados e prédios. Tediosa em sua ressequidão, ela é só a lembrança da mobilidade, e do metabolismo que no pretérito e só nele, agora referido, houvera habitado. Exposta à insensibilidade, esquece-se do viço e da seiva e o que eram folhas, são agora distorções que suportam a indiferença do assobio dos ventos, à memória dos últimos dias, aqueles, quando os pássaros foram-se embora para nunca mais voltar.  Calaram-se de uma só vez todos os cantos, ou foram-se calando aos poucos, da vez que o respirar se ausentava da folhagem? Lembra-se, porém, o último bem-te-vi, que chegando ao telhado vizinho, enxergara desolado, o silêncio e a tristeza que emudecera seu cantar,  e soubera então que aquilo era um presságio. Vira, que a vez de petrificar-se em extrema rigidez, chegara ao vegetal. Lembra-se, também, a mulher, que da sua varanda, ao chegar para morar ali, assistira a árvore frondosa ser a mãe de seus frutos. Eu...

Dor para curar a dor, que nem essa coisa de blues...

Vinham de uma longa caminhada, quando pela primeira vez, ela observou que havia muitos  frege-moscas bem nos beiços da pista. Em um deles avistou Edite, uma idosa e excêntrica senhora e conhecida de ambos, que lhe cumprimentou com uma cara de pra-mim-tanto-faz-como-tanto-fez. Isaura  por sua vez, trazia consigo e há tempos, uma tristeza profunda disfarçada de indiferença.  Adiantou-se e mostrou, 'Olhe quem está ali, Olavo?!' e seguiu em frente. Olhou para trás e viu quando o marido foi ao encontro de Edite. 'Nunca que eu soubesse que ele tinha tanto apreço por ela. Logo Olavo, que de tão estranho, vive de evitar as pessoas', pensou. Ao que parecia um hábito seu, diário, automático, seguir pelo caminho de sempre, pela rua lógica, aquela à sua frente, que formava um ângulo reto com a que seguia, e que a levava à sua casa, Isaura o contrariou e seguiu andando na mesma direção em que vinha. Talvez porque suas pernas a levassem, talvez porque a indiferença a tivesse dist...

Do poeta Zé Paulo à sua poesia Memória da Flor

“(...) o poeta José Paulo vive em Pão de Açúcar, à beira do rio São Francisco, olhando todos os dias o curso do rio, conversando com a sua gente, sertaneja como ele, fonte de sua inspiração e razão da sua existência”.  Na década de 1980, Zé Paulo cultivava um cabelo tipo black power , escrevia poemas e a cozinha de sua casa era o local onde reunia amigos para estudar e discutir o marxismo-leninismo. Sua mãe, dona Ubaldina, era uma mulher vigorosa, atenta às coisas do mundo e possuía um talento inquestionável para dizer suas verdades, misturando humor e sarcasmo. Em um desses encontros, ela me perguntou se de onde eu vinha, existia uma coisa chamada pente, porque "o seu amigo Zé Paulo precisa de um para pentear os cabelos". Do seu pai, Seu Otacílio, um homem reservado, a frase que até hoje guardo dele, quando uma vez, na sala de estar, se referiu aos tempos modernos: "O homem que casa nos dias de hoje está praticando pra corno". Foram-se os anos e ficaram ...