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Ao Companheiro de Luta, Luisinho Costa

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O tempo passa tão depressa... Se não me engano, foi no final do ano passado, nas celebrações da formatura das crianças do ABC, que nos encontramos, eu e Luizinho, festejando nossos pequenos doutores: meu sobrinho e sua netinha. Aquela noite festiva onde trocamos tantas palavras amistosas, marcava, porém, nosso último encontro, de tantos encontros que tivemos décadas atrás, ambos, militantes do PC do B em Pão de Açúcar.  Pela manhã recebemos, eu e Waldson, a notícia da sua partida. Comove-me sentir que a sua presença sorridente, ponderada, companheira de tantas lutas, fez deslocamentos no tempo, ocupou espaços e agora se ausenta para desconstruir-se no silêncio do útero úmido da Terra-Mãe. Comove-me, sobretudo Luizinho, lembrar que em um período significativo, fizemos parte da vida uns dos outros, entrelaçando andanças, discussões políticas e história. Comove-me saber que a sua realidade se despede e nos obriga a mergulharmos no recurso da memória. Quero fa...

Sem a palavra

Às vezes a palavra some, amiudada, sem conseguir corporificar-se ou conter em si o símbolo do meu sentido. É que sentir por vezes é tão grande, e quase tão próximo do impenetrável, que o Silêncio da letra, escrita, emudece, e faz-se santuário de um repertório tardio. A palavra - e eu tenho medo -, talvez reduza o sentido e empobreça, pagã, a imagem e a força do que se sente.  Neste sentir, o limite do conhecer humano extravia-se. Faça-se Senhor, a Palavra e o Verbo, o verso e a poesia, e o meu dizer de sentimentos. Sabedoria eterna, só Deus tem à Palavra o sentido. Eu, tão-somente, em minha pequenez, assim, tal jorro incoerente de frases, me abandono neste Mistério e, curiosamente, ouso escutá-lo...

Biunívoco

Dentro do seu olho que me olha, eu me vejo no seu olho que vê o seu olho me vendo Será que dentro dos seus olhos só nossos olhos se vêem???

Cambiante

Eu brinco de colar cotidianas realidades, retendo pedaços de céu de um azul esmaecido, enquanto espalho por dentro dos olhos, recortes de parabólicas e telhados, de casinhas coloridas e 'pés-de-pau'. Atavio uma janela imaginária, com chão verticalizado, entre dois vértices cruzados, feitos dos meus dedos, e dentro dela, componho a colagem feita do quanto tudo é real. É que eu quero reter das suas metáforas o sentido, só para guardar nas coisas vistas, alguma coisa de mim, pulsante, no agora. Toda a imagem que recolho, me representa colada no mundo desta manhã. Amanhã... é tudo tão diverso. Mesmo que todas os signos se anunciem iguais. Não me devo enganar: eles mesmos, que constelarão meus sentimentos, me revelarão outros sentidos.

Isadora, Isa, Dorinha...

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Tempo de chuva, Didinho meu irmão, em menino, encheu uma sacola de sapinhos e despejou-os dentro de casa. Foi um rebuliço. Deitada no cimento frio, a menina imaginava que colocando uma cadeira sobre outra, muitas, subindo, subindo, chegaria nas nuvens.  Lilice tinha como certo, que os ovos já saíam cozidos da galinha, e que seu olho esquerdo enxergava mal, por se tratar de estar no lado esquerdo e ela ser destra. Bruninho, sobrinho da minha cunhada Waldirene, me avisou muito sério, que a sua galinha tinha parido um ovo.  E Guigo veio me dizer surpreso, ao ver a vizinha, moça-velha, com um bebê nos braços : "Mamãe, Lu deu cria!".  Lelo, tomou uma colherada de lambedor de hortelã, para acalmar a tosse, e exigiu que se colocasse mais em um prato. Queria tomar igual a como se toma sopa. Thaminha ocupava a sala de visitas, lá em casa, onde a nossa infância reinava absoluta, e dava aulas diárias às suas bonecas, que sentadas no chão, entediadas, ...

Festa do Padroeiro

É com imensa alegria que transcrevo a publicação do último sábado 01/06/2013, das páginas do caderno Saber, do Jornal Gazeta de Alagoas para o meu blog, o poema do amigo de longas datas e de excelentes memórias compartilhadas, Álvaro Ântônio, conterrâneo, filho de Pão de Açúcar. FESTA DO PADROEIRO - POEMA Por: ÁLVARO ANTÔNIO MACHADO* Pronto. João Lisboa terminou a pintura da igreja. A Matriz está pronta para a festa. Agora é a vez da Prefeitura limpar o coreto, iluminar a praça, construir pavilhões e organizar a festança. A paróquia vai convidar as autoridades e fazer a programação. Ninguém nega o apoio e cada um fará sua parte para o brilho desses dias. As escolas ensaiam os jograis, as quadrilhas, os dramas-da-roça, preparam seus alunos para competir. O nome do colégio tem que ser respeitado. Os alfaiates faturam: todo mundo quer “quebrar a tigela” na festa. Crianças serão batizadas, dezenas farão a primeira comunhão. Zefa vai noivar. E será que neste ano a Maria casa? Pra quem...

"Com licença da palavra: a vida é uma merda"

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Neném se move com a graça que uma mulher com muito mais de setenta anos se move. Lentidão, um avançar descompromissado, ondulante, pisando com cuidado, livrando calos e respeitando a dolorosa artrose. Move-se com graça. Sim. Porque é preciso enxergar conforme a idade, para ver que a leveza de antes, muda-se em lentidão. Não é uma graciosidade estética, mas uma graça sacralizada no peso dos anos e que por isso se anuncia graciosa.  “Com licença da palavra: a vida é uma merda!” ela me diz enquanto acompanho seus passos. De Neném posso esperar tudo, menos isso. Parece um desperdício à religião praticada com desvelo, e invalida o diploma recebido da Igreja Matriz do Sagrado Coração de Jesus, pela passagem dos seus cinqüenta anos de apostolado. Também pulveriza o seu rito anual, de ficar vestida de preto durante os quarenta dias da Quaresma, completando na própria carne, os sofrimentos de Nosso Senhor. E a devoção à Santa Rita de Cássia, e o terço que debulha sentada à beira...