Jucélio Souza, esse talentoso artista de Pão de Açúcar

Jucélio Souza


Quando Jucélio Virgínio Maciel de Souza veio ao mundo, um daqueles anjos dos que falaram a Drummond, disse a ele: “Vai Jucélio, vai ser músico na vida”. Estudante do último ano de Direito na Universidade Federal de Alagoas, militar do Corpo de Bombeiros, ele é um negro bonito, de olhos vivazes, um sorriso cativante, estatura mediana, extrovertido e vivendo seus 29 anos com a intensidade que persegue os artistas. Conterrâneo de Bráulio Cavalcante, nascido de Pão de Açúcar, que no dizer do falecido poeta, Marcus Vinícius* foi o lugar do pandeiro inquieto de Zé Negão, José Elias do Nascimento, seu pai.


Herança musical. De pai para filho

Apesar de preferir tocar sax tenor é o sax soprano o instrumento mais permanente em sua vida profissional. Vida e talento musical para Jucélio estão marcados, logicamente, por conexões com a história de vida e da música na existência do seu pai, um artista, também, de vários instrumentos – ele tocava sanfona, trombone, contrabaixo (tuba) e o pandeiro -, instrumento que mais destaque lhe concedeu e que se associou, inseparável à sua lembrança.

Da família dos saxofones Jucélio toca: alto, tenor, soprano e barítono. Toca ainda, clarinete, flauta e flautim. Estes são os Instrumentos com que o artista se apresenta profissionalmente. Brincando, como costuma dizer, ele toca gaita, teclado, banjo e ainda estuda violino faz um ano.
Zé Negão e o seu pandeiro

Em outros tempos e outra Pão de Açúcar acontecida entre 1932 até 1995, ano da sua morte, Zé Negão, como era popularmente conhecido, viveu a seu tempo e deixou registrado nas páginas da história da cidade e no afeto dos que o conheceram, o exemplo de vida de um homem que soube superar as adversidades. Tendo ficado cego ainda jovem, o artista sustentou condignamente a sua família, sem precisar depender dos outros para isso. 

Sobre o seu pai, Jucélio é enfático: “O que me marcou até hoje, e isso me caracteriza muito, foi ele ter me ensinado a exigir sinceridade e ser sincero o tempo todo, porque ele sofria muito com a falsidade daqueles que se aproveitavam da cegueira dele, para usá-lo como motivo de chacota, muitas das vezes que ele chorava em casa, era pelo fato de os outros zombarem muito por ele ser cego, aí ele sempre perguntava a Deus, na esperança de uma resposta: porque ele teve que viver tanto tempo cego... Meu pai morreu quando cegou apesar de parecer uma fênix todos os dias que acordava”

A determinação e a garra que conduzem Jucélio provêm daí, e o artista surgiu há 22 anos, quando o seu pai pediu que ele, uma criança de sete anos, o acompanhasse para tocar triângulo, em substituição ao colega que após ter tomado umas e outras, não poderia tocar. O local era o povoado Rua Nova, e para ele, a lembrança daquele dia permanece viva e o emociona até hoje. Como todos os que experimentam o mundo das artes, o menino sentiu a magia daquele momento e segundo ele, ver que as pessoas o olhavam enquanto tocava o instrumento, admiradas por ele ser tão pequeno ainda, tocando a noite toda, fez com que pela primeira vez, ele se sentisse importante. Após aquele dia o seu pai o matriculou na Sociedade Musical Guarani, a tradicional escola de música de Pão de Açúcar.

A música e o artista
O artista em apresentação com sua flauta

Para Jucélio são muitas as exigências que a música faz ao artista. Música exige fidelidade e dedicação exclusivas. Ele acredita que o artista que resolve viver da música precisa abdicar de momentos preciosos com seus amigos e familiares. Por isso a mudança no curso da própria vida: a faculdade, os concursos e a aprovação no serviço público, como bombeiro. Aqui em Alagoas, que contextualiza situações nada razoáveis e de pouco reconhecimento ao trabalho artístico musical, os momentos mais propícios para os ganhos financeiros com a música, é justamente quando mais se deseja estar reunido com essas pessoas. O artista observou que nas fotos de família, sempre faltava alguém. E esse alguém, era sempre ele.

A falta de incentivos, entre outras contendas, e por fim, os condicionamentos e modismos a certos gostos musicais, ainda de acordo com ele, respondem em grande parte, pelo esvaziamento na contratação de artistas profissionais nos eventos mais frequentes. Músicos-de-quatro-notas é como ele faz referência, àqueles que tocam músicas, que só precisam de quatro acordes. “As pessoas fazem festinhas em casa e não procuram um músico que se dedicou a ser profissional. Ele é mais caro, obviamente. O contratante vai buscar um menino novinho que está brincando de ser músico. O reconhecimento esperado não existe”.

O artista optou em dançar conforme a música, procurando satisfazer musicalmente a todos os que o procuram. Ele encara esta opção como uma das condições do seu profissionalismo. A realidade é que Jucélio não vive inteiramente da música. Mas, reconhecido pelo seu talento, ele continua subindo em palcos com Altemar Dutra Jr, Salgadinho, Sem Compromisso, tocando ao lado de pessoas que têm seus lugares já definidos no cenário nacional e internacional, abrindo shows, inclusive, para Alcione, Djavan, Belo, Exaltassamba e tantos outros.

“Hoje eu escolho com quem tocar”

Ter estabilidade financeira como servidor público é um dos fatores que garantem ao artista poder escolher com quem tocar. Outro fator, ainda mais importante, é o espaço que conseguiu no âmbito musical alagoano, adquirido com o seu comprovado talento. O mavioso som que sai dos instrumentos que toca, de apurada qualidade musical, o faz ganhar em alguns meses do ano, até quatro vezes mais do que recebe como bombeiro e no mínimo duas vezes mais do que no ano todo. Ele ilustra a situação de quem vive somente da música em Alagoas: “As bandas pagam um cachê de sessenta reais para o artista tocar por 3h. Essa quantia eu ganhava quando entrei no Boca de Forno há 12 anos. Viver de música, nunca mais. Mas preciso dela para viver”, pondera Jucélio.

Músico free-lancer, ele toca com todo mundo e sem preferências, seguindo apenas algumas rotinas. Todas as sextas-feiras e aos domingos toca em restaurantes conhecidos e bem freqüentados de Maceió. É neles que Jucélio coloca em prática o seu projeto SOLO*. Sua apresentação nesses restaurantes é para ele sua vitrine. Daí é que surgem as contratações para tocar em residências, para públicos mais diferenciados, que querem música mais sofisticada, como bossa, jazz, clássicos internacionais. Ele também faz parte do Projeto Nosso Samba, que acontece sempre nos primeiros e terceiros sábados do mês, em um já tradicional restaurante localizado no bairro de Jaraguá. Também toca com a Boca de Forno, Allisson Cunha, com Bruno Palagani, leia-se, mais um excepcional artista. Toca com Igbonan Rocha e outros.

E sobre a música e os novos músicos de Pão de Açúcar?

“Nossa terrinha é um gigante que sangra pelo calcanhar, morrendo musicalmente”.

Voltando para a realidade atual da música em Pão de Açúcar e à Sociedade Musical Guarani, o artista se refere a ela como sendo o seu berço musical. Ele, diz que infelizmente, apesar da cidade ser reconhecidamente um lugar de expressivos talentos musicais, vive-se um caos. Desde que de lá saiu, em 1999, as coisas só pioraram. Sem investimentos por parte de quem quer que seja a arte continua sendo menosprezada. Ele menciona a safra musical paodeaçucarense, dos artistas que somam engenho à música mundo afora, a exemplo de Billy Magno, (e quem de nós não conhece Billy?), exímio músico poli-instrumentista. Mas... o que fazer com os jovens músicos, Jucélio? “Creio que retomar as retretas, ajudar de alguma forma a esses meninos a encherem a barriga, pois com fome não há estímulo pra nada”, enfatiza ele.

Às palavras ditas delineiam esse artista, que desde pequeno sofreu a discriminação e o preconceito social por causa de sua cor. Zé Negão, seu pai, dizia que a queda que uma pessoa levasse não importava, e sim, a maneira como ela iria se levantar. Seus instrumentos musicais e, sobretudo, o ritmo de extasiar - como versejou Marcus Vinícius -, que ele infringia ao pandeiro, certamente, violava e ultrapassava todas as suas angústias. Angústias de um homem que perdeu a visão aos quatorze anos, mas que enxergava pela luz da musicalidade. “Meu pai é a história mais magnífica que Pão de Açúcar já construiu”, diz o artista. Mas, certamente, a maior proeza, a mais singular, é a dele ter tido com a música tal intimidade, que por ela foi presenteado. Foi um anjo, um dáimon da música, daqueles que tocam harpas e flautas, que disse a Jucélio: Vai menino, assim como o seu pai, vai ser músico na vida!



*Marcus Vinícius (1937-1976) - Jornalista e poeta natural de Pão de Açúcar
*Projeto SOLO – Projeto musical do artista Jucélio Souza, onde ele se faz acompanhar em suas apresentações em restaurantes, apenas com seu som e um notebook.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Sagrados, como o fogo de Prometeu

Amanhã já é ontem

O que não se pode pesar