terça-feira, 21 de maio de 2013

"Com licença da palavra: a vida é uma merda"

Neném se move com a graça que uma mulher com muito mais de setenta anos se move. Lentidão, um avançar descompromissado, ondulante, pisando com cuidado, livrando calos e respeitando a dolorosa artrose. Move-se com graça. Sim. Porque é preciso enxergar conforme a idade, para ver que a leveza de antes, muda-se em lentidão. Não é uma graciosidade estética, mas uma graça sacralizada no peso dos anos e que por isso se anuncia graciosa. 

“Com licença da palavra: a vida é uma merda!” ela me diz enquanto acompanho seus passos. De Neném posso esperar tudo, menos isso. Parece um desperdício à religião praticada com desvelo, e invalida o diploma recebido da Igreja Matriz do Sagrado Coração de Jesus, pela passagem dos seus cinqüenta anos de apostolado. Também pulveriza o seu rito anual, de ficar vestida de preto durante os quarenta dias da Quaresma, completando na própria carne, os sofrimentos de Nosso Senhor. E a devoção à Santa Rita de Cássia, e o terço que debulha sentada à beira da cama, de costas para porta do quarto. Tudo se avoluma em uma enorme contradição, que fico macerando a razão para entender. 

Foi Neném quem me ensinou tudo o que eu sei sobre a religião. Devagarzinho, como quem não queria nada, desnudou o céu dos anjos, intimidou Nossa Senhora a ser minha madrinha de consagração, me ensinou fazer o ‘pelo-sinal’ e se certificou que eu não chamaria o Santo Nome de Deus em vão. 

_ Como é falar o nome de Deus em vão, Neném? E ela, cansada, nem respondeu, entregou de volta sua vida a Ele e foi dormir pesado. 

Rosa me disse que não quer morrer porque entendeu que morrer não vai resolver nada na vida dela. Hum, hum, depois de ter passado por todas as etapas da minha vida, ouvindo a sua ladainha: ‘Meu Deus, escolha uma hora boa e me leve’, o que fazia com que todo mundo se compadecesse dela e protestasse. Era só pra chamar a atenção? Eu julgava que aquilo se enquadrava em chamar por Deus sem necessidade, ela querendo morrer sem precisão, sem ligar de deixar a casa cheia de menino, que ela mesma enchia. Quem iria criá-los? 

A noite de anteontem, chuvosa, pedia cobertor e cinema em casa. Gildo apareceu do nada, risonho, aboletou-se na sala e me contou mentiras vultosas sobre si mesmo, desempregado. Palavrório zoadento, truncado, sem muita elaboração. Cada novo episódio embaraçava o anterior. Vinham-me imaginações mutiladas para as cenas e os cenários, à fisionomia de sua mulher enraivecida e com a geladeira cheia de yogurtes, o mulherio se enxerindo para ele, bonitão, dentro de sua farda de vigilante dos Correios, de uma cidadezinha menor do que a nossa. Pensei até o casal de vizinhos ricos e o homem perguntando a ele: ‘_ Gildo, você tem inveja de mim? _ Tenho não. Só tenho quando você faz churrasco e não me chama’. Que criatura tão tola. Não posso nem pedir a Deus para Gildo ir embora, que é um pedido em vão e muita falta de caridade minha. Logo eu, que não canso de pedir a Ele que me dê paciência e grandeza de coração.

Foto: Ana Clara Martins
Na manhã do outro dia, Angelina chegou para me roubar a conversa e contá-la como se fosse dela. Tudo o que me acontece, acontece a ela também. Tudo o que eu vi, ela também viu. Dinho é quem está certo, quando diz que Angelina não tem história, e vive de aproveitar da história dos outros. 
Para quem vive assim, a vida será uma merda? De Neném, só com o tempo, entendi: Sua declaração é um sofisma. Merda mesmo é o estrago que muita gente faz da existência, a partir de uma lógica ou da falta de uma, que contradiz o próprio sentido de viver. Ela deve ter chegado a essa conclusão vendo a vida besta dos outros a seu redor. Muita mediocridade. Muita. E é por isso, também, que Rosa não quer mais morrer. É para encontrar um significado para a vida dela. Senão, do que é que adianta viver essa majestosa aventura?

3 comentários:

  1. Ótimo texto, como sempre, Goretti.
    E suas linhas nos levando a acompanhá-las nas palavras e nas imagens da mente...
    E ainda tem foto minha! hehe
    Bjs de uma leitora assídua.

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  2. Você viu, Clarinha? Tive o cuidado de honrar a autora da foto!!!! KKKKKK Obrigada pelo elogio e venha aqui sempre, viu? Beijão

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  3. Não precisa ser profeta ou ter premonição para se aprender esta filosofia de vida!
    Viver, nascer e morrer! Eis a questão da vida!

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