Postagens

Em política favor com favor se paga

Quem leva vantagem nessa troca? Essa é uma das experiências mais desconcertantes: Uma cidade pequena faz com que as pessoas sejam aproximadas. Muitas vezes os casamentos entre conterrâneos fazem com que de alguma forma todos sejam parentes, próximos ou distantes. As famílias acabam se entrelaçando. A adolescência é uma fase em que se estreita laços entre amigos, contraparentes, conterrâneos e contemporâneos. É o tempo em que a identificação com ideologias sociais e políticas se manifesta. O desejo de justiça, igualdade, fraternidade, aproxima aqueles que apuram a sensibilidade, questionando os acontecimentos da vida. É também a ocasião em que a gente reorganiza, orientados por essas identificações, nossas relações pessoais, selecionando-as. Amigos de infância e adolescência, conterrâneos, contemporâneos, ou seguem conosco ideais comuns, ou se afastam de nós e nós deles. Com os que defendem como nós, nossas bandeiras, a amizade parece centrar esforços em aprofundar raízes, encontrar s...

Mais cultura para os estudantes

O papel da escola não é só o de ensinar a ler e escrever Os trabalhos expostos por 120 artistas, no Centro de Convenções continuam levando ao local, um público cada vez mais diversificado. A presença de estudantes da rede pública de ensino, tem feito do ambiente do Salão de Arte da Marinha, um espaço movimentado. A curiosidade é o elemento principal desses jovens, que transitam pelo lugar. O objetivo é fazer com que eles apreciem as obras, aprendam a identificar o trabalho dos artistas e passem a valorizar a cultura alagoana. É o que pontua Fredy Correia, escultor e curador do evento. Ele mesmo acompanhou uma dessas caravanas de estudantes, mostrando e explicando, um por um, os trabalhos e as características de cada artista. Muito boa a iniciativa dessas escolas. Afinal, não é possível valorizar aquilo que não se conhece. Muito menos, ter orgulho da terra onde se nasce e ou se vive, se não há interesse, nem responsabilidade por parte dos educadores, nem dos órgãos do Governo, res...

Sobre a façanha de ser criança na infância

O que está sendo perdido pelo mundo infantil? Na noite da última terça-feira (1º/02), presenciamos, eu e outras dezenas de pessoas, que no momento estávamos em um daqueles restaurantes da Amélia Rosa, em Jatiúca, uma cena no mínimo intrigante. Um homem perto dos seus 40 anos entrou na avenida pela contramão. Bêbado, desorientado, quase se choca com um ônibus urbano. Foi um susto para todo mundo. A confusão não acabou aí. É que o senhor transportava em seu veículo, uma adolescente e duas quase-meninas. Assustadas, as duas tiveram a reação que muita criança tem e se expuseram: uma delas saltou do carro ainda em movimento, que por sorte, àquelas alturas, já estava bem lento. A outra desceu em seguida. Pelo aspecto de ambas, não era difícil para ninguém imaginar o que realmente acontecia, tinha acontecido ou estava para acontecer. O homem, ao ser abordado pelo que acreditei serem policiais à paisana, que estavam sentados em uma mesa próxima à minha, apresentou a adolescente como mãe das...

Show para alagoano nenhum botar defeito

“Não há quem não morra de amores pelo meu lugar” O artista alagoano Eliezer Setton se apresentou ontem à noite no Teatro Gustavo Leite, como parte da programação de abertura do 26º Salão de Arte da Marinha, para um público significativo composto por representantes do corpo da Marinha, patrocinadores, convidados e artistas. Com um repertório musical bem azul, branco e vermelho, cores da bandeira das Alagoas, o cantor e compositor soube conduzir a platéia entusiasmada que o acompanhou em dezenas de canções pitorescas, dos folguedos populares alagoanos. Por vezes, de sua autoria, outras, colhidas e extraídas com critério, uma de suas marcas pessoais, que demonstra a conduta de pesquisador de Setton, quando se trata de trazer para seus trabalhos, o cerne da cultura popular alagoana. Entre uma música e outra, o artista conversava com o público. Uma conversa descontraída, inteligente e cheia de humor, preenchida de informações e curiosidades, sobre cada interpretação que viria em s...

Sem precisar da lógica para entender afetos

O sol de hoje tá fraquinho. Aparece e desaparece. Olhei pela janela logo cedo, e me lembrei de Ciça, que nem sequer me avisou que ia gazear a faxina. Pois é, gazeou logo ontem quando eu achei de deixar uns quatro pratos sujos pra ela lavar. Me dei mal. Não gosto de lavar pratos. Uma vez Raulina me contou uma estória sobre ter ouvido alguém dizer por trás dela: 'lavando prato sempre'. Era uma voz de provocação saída do nada, sem dono. Ela também não gostava desse ofício chato, e eu reclamo sempre, que não aparece ninguém para elogiar um prato que a gente lava bem lavado. Não aparece. Ciça me deixou na mão, desligou o celular durante o dia todo de anteontem e de ontem, que era pra não ser incomodada. Eita, que mulherzinha cheia de astúcia, aquela. Outro dia peguei a danada mentindo descaradamente. Tava trabalhando aqui em casa e dizendo a alguém pelo telefone que estava no médico. Botei meus sentidos de molho e entendi que ela mente pra mim também. Por que teria que ser diferente...

A Ilusão da Eterna Juventude

Quando o medo de envelhecer se converte em fuga da realidade Ontem à noite assisti a um excelente filme de Woody Allen: Você vai conhecer o homem dos seus sonhos . Neste ele apresenta, entre outros conflitos que estão no centro e na periferia da nossa existência, uma situação que a gente já está até cansada de ver na vida real: Maridos e mulheres de meia-idade, envolvidos com problemas de relacionamento, que espelham a decadência das relações de afeto, de convivência, contaminados pelos novos valores da sociedade moderna. Entre tantas questões, o filme nos leva a penetrar no medo do envelhecimento, que a cada dia angustia a maioria das pessoas, de ambos os sexos. Quando tudo aponta para o moderno, no sentido de ‘novo’, é natural que as pessoas que envelhecem, generalizando, tenham verdadeiro pavor disso. Afinal, a imagem do velho está associada, hoje, à destituição do seu valor pessoal, social e produtivo. Ser velho é sinal de ser um peso para os outros. Nada há, além disso: a juventud...

Arte Primitiva Moderna em Santana do Ipanema

Um ensaio crítico sobre o trabalho de dois artistas sertanejos Sobre outras coisas que vi na feirinha da Economia Solidária é uma pena que eu não esteja conseguindo ilustrar o Ensaio Geral com fotografias, desde muito tempo. (Sempre que tento colocar alguma, acontece um problema). Hoje, gostaria de mostrar pelo menos dois dos quadros que vi expostos. São trabalhos de dois artistas: ambos sertanejos, com estilos e olhares bem distintos, sobre a realidade. Um dos artistas revela sua constante apreensão do cotidiano, em cenas que acontecem sobre cenários que estão sempre situados nas periferias, coisa bem típica das nossas cidades do interior. Suas cores são fortes, às vezes borradas, chapadas, são pintadas em telas, sobre desenhos livres, sem perspectiva aérea ou linear, sinais característicos da arte naif . Nelas, o artista apresenta o submundo marginal, denso e muitas vezes triste. Mulheres em prostituição, quase despidas, exibem seios flácidos, pele enrugada e acompanham homens não me...