Postagens

O cheiro da vida

A paisagem passa ligeiro. Aridez de quase deserto - é como estar vendo por dentro de Isaura -, o seu deserto tão bem escondido, entre a alma e as suas vísceras. (Pudera ver por dentro das outras pessoas, como tão bem percebo Isaura: as suas teias de aranha, seus velames, suas folhas queimadas, a árvore seca que aponta galhos aflitos e afiados, contra um céu que dita um único tom de azul, para o que a vista oferece).  A desolada visão, ao contrário do que deveria motivar tristezas, emite uma ponta de alegria que reverbera lá dentro e como uma onda de emoção, vem para fora em forma de um solitário sorrisinho disfarçado.  O carro corre pela estrada. Um homem que viaja desconsolado declara ao motorista que “mulher só vai é com tabica na bunda”. Isaura e outra mulher que se sentara no mesmo banco, se entreolham e disfarçam o riso, ambas, cobrindo a boca com uma das mãos. Por que teriam sorrido? Isaura sabe o porquê de se rir. É que a invadiu um estranho gosto de vitória, por ...

Perdido

Sou a inteireza de onde te arrebentas em fragmentos. Por isso a mim consinto trafegar as desagregações dos seus passos errantes. Perdido estás, e ao teu extravio e a ti, eu te maldigo. Maldigo-te por ignorares a tua sombra que ti devasta, e que indignada, perverte e confunde tua fome e tua sede, que o condena à inapetência e o abandona, mendigo, à mais cruel autofagia. Tu és vácuo, e eu bendigo o teu vazio,  único reduto e sentido que de ti resta  e que me alimenta viva e constante. Tornei-me saprófaga e nutro minhas raízes dos teus restos, e me alicerço, incorruptível, no labirinto que ti consome e que o faz perder-se. Conheço-te em todos os teus atalhos, porque ando sobre os teus muros, e sei de todas as vezes que erras o caminho Rápido. Percorra-te em todos os lugares de ti Se ti achares, me acharás...

Meia-idade

E ntardeço acumulando primaveras e flores,  com a modéstia senhoril de uma jardineira, que entendeu das cíclicas estações os enredos: como o encharcar de begônias o excesso de zelo, como ver na brincadeira dos ponteiros do relógio, os números do tempo sobre os jardins. Um gato preto roça o rabo por entre as minhas pernas e mia Maria Emília que engelha murchando como um maracujá, quer despejar em minha casa as novidades da rua e encher meus ouvidos de pecaminosos vexames. Queria fazer bolhas de sabão,  com as artérias do mamoeiro acolá, para me livrar de maledicências e afugentar mesquinhezas.  À narrativa do instante perturbo o que fui em menina. Movo, com o dedo indicador, pedaços de infância que trafegam na poeira de um facho de luz,  e entram em diagonal pelas fendas da porta. Para me espelhar como gente grande na sala de jantar, Deixo-me cravar pela seta de fogo, viro sombra,   e  me meto, impreterível,  no rumo de pequenas formigas...

A PALAVRA É PARA DIZER: Garida

A PALAVRA É PARA DIZER: Garida

Garida

Imagem
Na tarde quente, o fogão de lenha metia fogo pelas ventas. A parede era negra,  as vigas eram negras,  as telhas enegrecidas. As imagens despejam-me a fuligem por dentro. À panela, douravam os lambe-dedos e frigia o vento. No quintal, a goiabeira, o pé de café e o silêncio. O pilão dormia em um canto. As folhagens oscilavam e enverdeciam a vista. Mais tarde, cadeira de balanço lá fora, A ver chegar as primeiras estrelas, A rua inteira era um pavilhão de repertórios e imensidões, e ninguém sabia que depois, amontoados, serviriam à saudade, que como uma serpente,  sibila sobre as páginas onde se cravam as lembranças. Um fantasma alto e magro assobia uma canção, me sorri, me traz no colo e me conta estórias de trancoso: Era uma vez uma Margarida, que viajou para o céu...

Figurado

Pássaro inocente, cujas asas distanciaram-me o universo e o vôo Entrou pela minha varanda e brigou com a transparência, sem entender o vidro da porta, assim como não sei ultrapassar o meu destino. Sou eu sim, a subir discretos relevos, A arriscar-me em rasantes vôos. Minhas asas feitas em casa, de velhos lençóis sobre os ombros, Alça-me até agora sobre a mesa da cozinha, sobre janelas da fachada,  voando sobre um  céu feito de calçada e cimento, sobre o tempo da memória das coisas. Dessas coisas é que me saiu do peito a ave, quebrantando a limpidez, agora, sem entender a porta. Sem o refúgio no mistério do vidro, desguarneço. Perdi-me do mundo do faz-de-conta, Perdi das asas o vôo tecido em algodão E os fragmentos pontiagudos transluzidos, cobrem o limiar da porta, entre mim e os meus medos. Para atravessá-la, h averei de dilacerar os pés.

Jucélio Souza, esse talentoso artista de Pão de Açúcar

Imagem
Jucélio Souza Quando Jucélio Virgínio Maciel de Souza veio ao mundo, um daqueles anjos dos que falaram a Drummond, disse a ele: “Vai Jucélio, vai ser músico na vida”. Estudante do último ano de Direito na Universidade Federal de Alagoas, militar do Corpo de Bombeiros, ele é um negro bonito, de olhos vivazes, um sorriso cativante, estatura mediana, extrovertido e vivendo seus 29 anos com a intensidade que persegue os artistas. Conterrâneo de Bráulio Cavalcante, nascido de Pão de Açúcar, que no dizer do falecido poeta, Marcus Vinícius* foi o lugar do pandeiro inquieto de Zé Negão, José Elias do Nascimento, seu pai. Herança musical. De pai para filho Apesar de preferir tocar sax tenor é o sax soprano o instrumento mais permanente em sua vida profissional. Vida e talento musical para Jucélio estão marcados, logicamente, por conexões com a história de vida e da música na existência do seu pai, um artista, também, de vários instrumentos – ele tocava sanfona, trombone, contrabaixo ...