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"Com licença da palavra: a vida é uma merda"

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Neném se move com a graça que uma mulher com muito mais de setenta anos se move. Lentidão, um avançar descompromissado, ondulante, pisando com cuidado, livrando calos e respeitando a dolorosa artrose. Move-se com graça. Sim. Porque é preciso enxergar conforme a idade, para ver que a leveza de antes, muda-se em lentidão. Não é uma graciosidade estética, mas uma graça sacralizada no peso dos anos e que por isso se anuncia graciosa.  “Com licença da palavra: a vida é uma merda!” ela me diz enquanto acompanho seus passos. De Neném posso esperar tudo, menos isso. Parece um desperdício à religião praticada com desvelo, e invalida o diploma recebido da Igreja Matriz do Sagrado Coração de Jesus, pela passagem dos seus cinqüenta anos de apostolado. Também pulveriza o seu rito anual, de ficar vestida de preto durante os quarenta dias da Quaresma, completando na própria carne, os sofrimentos de Nosso Senhor. E a devoção à Santa Rita de Cássia, e o terço que debulha sentada à beira...

A poesia que eu conto...

Retornar à casa da minha infância, passar uns dias, ainda que breves, com a minha mãe, significa me encher de profundidades. Sempre que volto lá, vou ao quintal. A velha goiabeira que nos viu crescer, ali está. Dia desses, resolvi que subiria nela. Subi. Interessante como a gente consegue guardar a geografia da árvore.  Tudo é tão automático que eu poderia subir de olhos fechados, não fosse ter notado a ausência de alguns galhos e ter perdido a leveza e a agilidade do corpo, o que dificultou um tanto o meu intento. Mas eu o fiz. Acho que já tem uns cinco anos, que a menina que eu fui, levou-me, suponho que pela última vez, a ver o Velho Chico por sobre os telhados, com os olhos da mulher que me tornei. No fundo do quintal está o local onde antes haviam duas pequenas dependências. Meu irmão e eu reconstruímos a velha cozinha e o último cômodo da casa, o murinho que separava o quintal do comprido corredor, donde duas janelas e uma porta o emolduravam, espiando a lateral esq...

Mais respeito aos artistas violeiros!!!

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Voltando à última sexta-feira, quando da ocorrência do Seminário Alagoas: Realidade e Perspectiva, realizado pela UVEAL (União dos Vereadores de Alagoas) e AMA (Associação dos Municípios Alagoanos) em Santana do Ipanema/AL, faço questão de registrar o meu protesto pelo desrespeito aos artistas, violeiros, Josival Viana e Gilberto Alves, símbolos da nossa cultura sertaneja/nordestina, que em vão tentaram se apresentar e não conseguiram. A organização do evento a meu ver foi falha, ao marcar para o final do seminário, as suas apresentações. Repentistas, de categoria, eles ainda deram início à sua mensagem, mas as pessoas já saíam do local. Essas falhas mostram duas coisas no mínimo: ou a não importância à nossa cultura regional. Era a ocasião onde se deveria priorizar os artistas, aproveitando o contexto para reforçar nossa identidade de sertanejos. Ocasião para se prestigiar o Repente - essa tradição folcórica do nosso país, tão bem adequada e tão forte entre nós nordesti...

Quando chove

Sempre que chove, como chove agora, eu, que prefiro os dias ensolarados, mergulho na umidade das lembranças. Minha casa velha, as goteiras, as novas modalidades de enxergar a rua, os sapos saindo dos esgotos e outros, atrevidos, que entravam nos quartos, a queda da energia elétrica, velas e candeeiros. Exílio: amigos e brincadeiras se distanciavam na chuva. Eu ficava como se estivesse presa, por trás dos grossos pingos d'água, emoldurando imagens turvas, transeuntes, trafegantes, debaixo de sombrinhas.  Inverno para mim significava uma forçada introversão. Ver a casa, ouvir seus sons, sentir seus cheiros... Distinguir coisas e representá-las distintas de si mesmas. Repetir-me, cotidiana, nos mesmos cenários, sem poder escapar às orações, em torno da mesa, à invocação da ladainha de N.Sra, com os seus títulos a me saírem pela boca. Oh! Mãe de Misericórdia, Mãe da Divina Graça, puríssima, castíssima, Espelho de Justiça e Sede de Sabedoria, causa da nossa alegria... Úmi...

Sob o olhar do infinito

Dias esses pedregosos. Antes, sentada no primeiro degrau da escada que dá para outros cômodos da casa, apreciara as noites do céu. Imaginava que, o universo aquela vastidão, a pudesse tragar numa viagem pelo desconhecido. Vagar por entre os astros, em carne e osso, não. Não a si mesma, feita do tecido humano, mas vagar na força das perguntas, sobre o que significa o universo, o que significa ver aqueles pontos luminosos que lhe causam arrepios, e perguntar sobre as constelações, e pressentir ser capaz de entender tudo o que seus ancestrais souberam sobre as estrelas. Dias esses de incertezas, e a curiosidade, sempre, estabelecida, sendo a causa de reverências, só de pensar que diante da Via Láctea, tudo seu, toda a sua alegria, toda a sua dor, suas pelejas e conquistas, seus questionamentos, poderiam ser resumidos em tolas abstrações e desintegrar como sofismas. Haveria ela, então, de ser um nada. Um nada a observar que as distâncias celestes e as luzes astrais, tinham tanta gran...

O cheiro da vida

A paisagem passa ligeiro. Aridez de quase deserto - é como estar vendo por dentro de Isaura -, o seu deserto tão bem escondido, entre a alma e as suas vísceras. (Pudera ver por dentro das outras pessoas, como tão bem percebo Isaura: as suas teias de aranha, seus velames, suas folhas queimadas, a árvore seca que aponta galhos aflitos e afiados, contra um céu que dita um único tom de azul, para o que a vista oferece).  A desolada visão, ao contrário do que deveria motivar tristezas, emite uma ponta de alegria que reverbera lá dentro e como uma onda de emoção, vem para fora em forma de um solitário sorrisinho disfarçado.  O carro corre pela estrada. Um homem que viaja desconsolado declara ao motorista que “mulher só vai é com tabica na bunda”. Isaura e outra mulher que se sentara no mesmo banco, se entreolham e disfarçam o riso, ambas, cobrindo a boca com uma das mãos. Por que teriam sorrido? Isaura sabe o porquê de se rir. É que a invadiu um estranho gosto de vitória, por ...

Perdido

Sou a inteireza de onde te arrebentas em fragmentos. Por isso a mim consinto trafegar as desagregações dos seus passos errantes. Perdido estás, e ao teu extravio e a ti, eu te maldigo. Maldigo-te por ignorares a tua sombra que ti devasta, e que indignada, perverte e confunde tua fome e tua sede, que o condena à inapetência e o abandona, mendigo, à mais cruel autofagia. Tu és vácuo, e eu bendigo o teu vazio,  único reduto e sentido que de ti resta  e que me alimenta viva e constante. Tornei-me saprófaga e nutro minhas raízes dos teus restos, e me alicerço, incorruptível, no labirinto que ti consome e que o faz perder-se. Conheço-te em todos os teus atalhos, porque ando sobre os teus muros, e sei de todas as vezes que erras o caminho Rápido. Percorra-te em todos os lugares de ti Se ti achares, me acharás...