Odete contava que no dia do nascimento de Violeta, nascera também a primeira flor do lírio eucarístico de Meninha. Teria sido aquilo coincidência ou sincronicidade? De certeza, anos depois, havia um caderno de capa dura, cor vinho, que apresentou-se a ela quando mexia em quinquilharias. Também, eram reais aqueles formigões albinos, que antes, amontoados no canto das gavetas velhas, alvoroçaram-se quando ela as abriu e, confusos, saíam em todas as direções, avançando sobre os livros, como um batalhão de soldados desertores. Estes, que fechados e no escuro, a não se sabe por quantos anos, mantiveram presas as palavras e sobre as palavras, os escritos que ninguém lia. No caderno, um relicário onde estavam descritas as emoções de importantes datas, onde Odete escrevera, não pouco emocionada, sobre Violeta. Aquele dia em que viera ao mundo e suas primeiras impressões. Era rósea, com pés e mãos perfeitas, sem pau-de-venta e que quando a viu chorar, pode ver que as lágrimas cruzavam-se sem ...
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Perséfone
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É assim. Quando o tempo perde a intensa luz sobre as coisas, quando os reflexos que pontuam o brilho diamantado vão sumindo da superfície de todos os lugares, alguma coisa destranca meu baú de palavras. Até então meus sentimentos, muitos, tantos, perdem a via de interlocução. Todo sentido é feito alma à alma. O dizer metafórico, o concluir, o por para fora é sagradamente impossível. É tão profundo e sacro que pronunciá-los, os sentimentos, é como profanar o silêncio entre o intocável e a materialidade. Mesmo assim longe de serem expressos, não perambulam. Guardam-se. Antes, eu tinha medo da escassez da escrita. Do papel em branco, da caneta descansando entediada sobre a mesa. E se a mim o sentir a alma das coisas tivesse sido negado? Besteira. Basta-me o tempo e o seu anúncio da constância do sol morno, os primeiros pingos d’água desenhando transparências na transparência dos vidros da janela, o ritual sonoro desse movimento, como um mantra ao coração, e sem equívoco, esca...
De estimação
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Começou tentando tirá-lo com vassouradas para fora de casa. Ele, teimoso, arrumava um jeito de voltar. Foram tantas as tentativas sem sucesso, que achou por bem chamá-lo por um nome e adotá-lo, o que a princípio o fez para não dar-se por vencida, já que não via mais o que fazer ante a persistência do intruso. Zezinho. À contar a sua primeira aparição na porta da cozinha, era digamos, uma coisinha mal forjada e de pequeno porte. Cresceu às vistas dela subindo os degraus do beco todas as tardes e virou sapo de estimação. Tinha feito por merecer. Impôs-se corajoso à presença da dona da casa, brigou pela ocupação nos cantinhos das varandas e nas sombras úmidas do jardim. Estabelecido, reconhecidamente nomeado, Zezinho assumiu seu serviço. Como grande comedor de insetos, recolheu mosquitos com língua viscosa, batendo as lentas pálpebras sobre os caroçudos olhos. Livre, ia e vinha sempre à tardinha de todos os dias, acomodar-se na escadaria. Numa dessas vezes não se apresent...
Às três da tarde
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Além, do que além não sei dizer, nem como, nem o que é. Mas a sua existência perturba-me. Transito entre dilemas e violetas sonoridades. Entre a pracinha e a igreja de Santa Rita. Entre o Farol e as lagoas Mundaú e Manguaba. Igual como pelejo com a palavra “cafumango” que entrou na minha cabeça e não quer sair, E com a tarde, rascunhando em mim, pequenos versos, dispersos e inquietantes. (Como bichos-de-pé, coçam-me à vontade do amor. Agora, e último). Inflama, infecta minha alma, perde-me! Meu fio de voltar preso à cintura, é referência mitológica à beleza do verso. É pura vaidade egóica, disfarçada em escrita bangalafumenga: Essa palavra que encontrei procurando outra. Em poética chinfrim, adulterada, incapaz de enganar minhas tolices. Eu sou uma joão-ninguém, dona de singelas pobrezas. Meu coração tem os bolsos furados. Escapam-me por eles, os tesouros que talvez sejam. Ou que estejam para sê-los. É como um doido o meu cor...
Madrepérola para adornar saudades
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Nossa Senhora do Rosário O tecido do vestido para a minha Primeira Comunhão, o terço de pérolas, a vela e o livrinho de orações - o missal -, vieram do Rio de Janeiro. Minha mãe andava de um canto a outro dentro de casa fazendo anúncio, que ela nunca foi de fazer média fora dela ‘o livrinho tem a capa de madrepérola’. Foi a primeira vez que ouvi o nome “madrepérola”. Fiquei curiosa e encantada só de ver a satisfação dela, encher-se por convencida vaidade dizendo aquilo. Novidade. Eu adorava uma. E aquela que introduzia no meu vocabulário tal palavra, era como coisa do outro mundo. Aquilo era muito bem vindo. Era coisa fina. A palavra sempre me manteve junto a si. Tia Palmyra Tia Palmira comprou tudo por lá. Teria sido na Ilha do Governador? E enviou pelo Correio. Era um presente. Pacote registrado. Uma demora pra chegar. Naquele período que antecedeu o acontecimento, os assuntos iam e vinham e findavam alongados acompanhando-nos à costumeira prosa na calçada de casa e ade...
Sagrados, como o fogo de Prometeu
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O lírio eucarístico veio da casa da minha infância, assim como vieram estórias que se tornaram história e que guardo até hoje. Minha avó materna tinha o dom, aquela coisa mágica, de não deixar nada morrer, de trazer o passado para o presente. Convivia-se com a maravilhosa presença dos que moravam distante, dos que haviam partido desta para outra melhor e daqueles, digamos, "bem antepassados". Todos eram alimentados por passagens contadas por ela, minuciosamente, onde antigos diálogos eram revividos – os que presenciara e outros, que sabia de ouvir dizer pela sua mãe -, sobre tipos físicos, as idiossincrasias, as opiniões de cada um, as atitudes e reações diante dos fatos da vida, suas maneiras e gestos. A recorrência neste caso é uma dádiva, quase e por vezes mesmo poética e fantasiosa, que torna heróis e heroínas nossos familiares. Traziam-nos, pois, no dia a dia e para estar conosco nas comemorações da Semana Santa, nas celebrações do mês Mariano, nas festividade...
Blog do Sávio Almeida: O sertão das bandas do Ipanema
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