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Eu e Isadora

Há poucos dias do nascimento de Isadora, senti que estava próxima a atravessar, de forma literal e não apenas simbólica, mais um limiar da minha própria história. Essa jornada épica, um tanto homérica, que somos chamados a fazer nas diversas fases da vida. Foi assim quando o pai dela entrou para a faculdade: ansiedade e medo e um misto de alegria e apreensão, que às vezes era também uma quase-tristeza, se apoderaram de mim.  Entendi que meus rituais de passagem acontecem e são pontuados, perpendiculares, às fases da vida dos meus familiares. A alegria de assistir as proezas, conquistas e crescimento dos meus filhos, situaram em mim, na minha pessoa, a realidade de sair de um aposento para outro. De ocupar um lugar novo, re-significado,  primeiro, dentro de mim, depois, no seio da minha família e frente ao mundo. Sair de onde se está acostumado é como sair de uma casa onde se morou muito tempo. E para a casa que estamos acostumados, temos nossos cantinhos, os lugares-...

Como São Tomé

Um dia de chuva e frio e a notícia do suicídio de um conhecido conterrâneo, torna o tempo melancólico. Articulo pensamentos e impressões sobre o fato, enquanto os pingos d'água tamborilam no jardim. Em volta, o tempo escureceu rapidamente, e eu pareço mergulhar em um oceano vasto, desconhecido e misterioso.  O das indagações, para as quais, talvez, nunca tenhamos respostas. É como querer contar estrelas que estampam o céu cintilante. As noites de chuva negam que elas existam. Em dias comuns de estio, os luzeiros lá em cima nos enganam porque nos vendem luminosas ilusões.  Tantas já morreram, mas continuam acesas. São fantasmas delas mesmas. Luzes que já se apagaram. Ver o que não mais existe é mentira ou mistério? Se eu vejo, eu creio. Que nem São Tomé, eu creio, porque seu brilho encandeia minhas retinas. É nessas horas, que eu desejo continuar desconhecendo geofísica, astronáutica e astrodinâmica.  Escolho deliberadamente continuar pensando, como se não so...

Arte para aliviar a dor

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Viva o Trio Nordestino!! Para o sertanejo autêntico, desses acostumados a se vangloriarem das coisas do sertão, basta mesmo um triângulo, um zabumba e um bom cantor que saiba tirar notas de uma sanfona e que tenha a goela temperada, para que ele, satisfeito, arrepie os pelos e a alma. Refiro-me ao famoso trio nordestino, tão bem reproduzido pelos escultores populares, em suas peças de barro, que se apresenta quando chamados aos lugares, durante os festejos juninos. A impressão que se tem, é a de que todos os trios são um só, fazendo a alegria de todos e na mesma hora. É a onipresença sertaneja que modela os artistas populares, em um mesmo formato de rosto e uma mesma missão – a de perpetuar as nossas matutas singelezas – a de espalhar canções, a evocar saudades das Marias Fulôs, tantas, e em todos os Estados nordestinos, que a seca por haver amarelado o marmeleiro, determina, por fim, a desesperança do seu amado e atrapalha o amor, condenando os amantes à separação. ...

Bom dia, Ozu!

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 O cinema japonês: sobre a mediocridade da vida A vida é simples, não fosse tanta coisa que a gente vai agregando, possuindo e se acercando para viver. Basta ver a quantidade de apetrechos que se tem em uma casa. Parte daquelas coisas está ali enchendo espaços, virando entulho, atrapalhando, e tão pouco ou nenhuma vez sendo utilizadas. Por que se compra tanta coisa? Por que essa procura insaciável por coisas que estimulam em nós, prazeres e sensações fugazes, que logo se esgotam e nos deixa atrás de mais coisas? Yasujiro Ozu Vida e Viver. Entre uma coisa e outra há bastante diferença. Respirar, correr, dormir corresponde às certificações de se estar vivo, mas viver supõe a utilização desses recursos básicos. De preferência, da melhor forma possível. Um dia a gente sai da vida, mas a vida permanece. É o milagre que se repete em todas as espécies que povoam a Natureza, esse útero onde o continuum acontece. Cena do filme Bom Dia Há uma linha invisível, entre a ...

Hibernal

Dia de chuva. O tempo nublou de repente e as gotas d'água cairam pesadas... Da cozinha vi que a tarde sombria havia distanciado a paisagem. Hibernal é o meu desejo de deitar sob cobertas quentinhas, entrar em proposital letargia, adormecer-me. Porém, outros desejos me sacodem, como miúdas vontades que se aglutinam e estampam um inverno, que evoco da lembrança de outras chuvas.  Movo antigos símbolos, remexo-os, trago-os à tona. Deixo que fiquem guardados os pijamas de flanelas feitos em casa, as galochas e o barulho dos passos nas poças lamacentas, da criança que em mim, atendia o chamado da mãe. Ela, que já não sou eu, mas, a pequena amadora atriz, eternizada no lugar que me lembra, e que repete encenações, só para alegrar-me do que fui.  Estou certa de que fui embora. Tenho me feito em outras. Minha mão é que retorna, às vezes, infantil. Tateando memórias, sentindo a gravíssima e afetada textura do cobertor de lã, espinhento...  Essas coisas eram, foram-...

Um protesto contra o fechamento da Rádio Comunitária Paraíso, em Pão de Açúcar

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Bem no meio da vida...

Cheguei ao meio da vida... De repente afloram partes minhas até então reprimidas, meu ego se abala ante verdades e valores que já quase não se sustentam... Passar da persona para o despertar da alma. Situação limiar... Mas é preciso enterrar os mortos (juventude? Frustrações? Sonhos desfeitos ou inalcançáveis?) No meio da vida, na crise da meia-idade, como queiram, é preciso aceitar as separações que oprimem o ego, reverenciar o luto e partir para a reintegração... Minha alma me espera e, de braços dados, vou mergulhar com ela nessa outra metade...