Postagens

Tinha vindo de um lugar qualquer, como quando em sonho, se aparece no cenário sem preâmbulo algum. Inaugurava-se, pois, não obstante ter-se pensado neutra, vazia de palavras, estando com os pensamentos desarrumados e turvos. Ali estava e haveria de dar sinal de presença. Bocejou, voltou-se calmamente para o lado esquerdo da sala, viu as fotos antigas na parede, cuja tinta pedia pintura nova. Duas ou três demãos. Fora disto havia a amostra do sol escaldante e o seu recorte feito pelo enquadramento da janela, a sombra da copa da árvore no chão de terra dura, o calor abafado e a sisudez de um campo exausto e sem flores. Seu olhar luziu, reluziu e estrelou-se pitagórico sobre às três da tarde. Àquela hora Mariana deveria estar na cozinha brincando com meia dúzia de bonecas. Kátia Lilian retornou inteirinha, com o seu cheiro à lembrança do vestido de cassa cor-de-rosa, sapatinhos brancos de plástico e o camiseiro com cortina nas portas. E ela ali, tão ricamente vestida e tão pobre das mão...

O Gato

Imagem
A cama sobre a qual deitara tinha um cheiro de naftalina e resquícios de alfazema. Tinha também, apurando o olfato, fragrância de l eite de colônia em alguma parte da colcha, onde inalava-se uma constelação simbólica de afetos. Dormia-se um sono breve e tardio, fora de hora. Um cochilo daqueles que se nos roubam os olhos pesados. Havia fitado por alguns minutos, quatro elegantes gueixas, de porcelana branca em trajes típicos, sobre uma pequena prateleira, cujo fundo suave, tinha flores vermelhas e pequenas rosas em decupagem . Preparavam-se as gueixas para tocar. Chegou mesmo a ouvi-las afinando seus instrumentos. Mergulho profundo. Acordou com uma das mãos dormente e meio aérea, como quem em viagem, abre os olhos sem saber onde está. E quem sabe mesmo onde se está em certas horas? A cama  sobre a qual sonhara exalava esquisitice. Voltara do reino dos sonhos. De um não-sei-quê e de um nunca ter estado em um lugar de onde se sente imensa saudade. Aonde iria depois daquele estranho...
Odete contava que no dia do nascimento de Violeta, nascera também a primeira flor do lírio eucarístico de Meninha. Teria sido aquilo coincidência ou sincronicidade? De certeza, anos depois, havia um caderno de capa dura, cor vinho, que apresentou-se a ela quando mexia em quinquilharias. Também, eram reais aqueles formigões albinos, que antes, amontoados no canto das gavetas velhas, alvoroçaram-se quando ela as abriu e, confusos, saíam em todas as direções, avançando sobre os livros, como um batalhão de soldados desertores. Estes, que fechados e no escuro, a não se sabe por quantos anos, mantiveram presas as palavras e sobre as palavras, os escritos que ninguém lia. No caderno, um relicário onde estavam descritas as emoções de importantes datas, onde Odete escrevera, não pouco emocionada, sobre Violeta. Aquele dia em que viera ao mundo e suas primeiras impressões. Era rósea, com pés e mãos perfeitas, sem pau-de-venta e que quando a viu chorar, pode ver que as lágrimas cruzavam-se sem ...

Perséfone

Imagem
É assim. Quando o tempo perde a intensa luz sobre as coisas, quando os reflexos que pontuam o brilho diamantado vão sumindo da superfície de todos os lugares, alguma coisa destranca meu baú de palavras. Até então meus sentimentos, muitos, tantos, perdem a via de interlocução. Todo sentido é feito alma à alma. O dizer metafórico, o concluir, o por para fora é sagradamente impossível. É tão profundo e sacro que pronunciá-los, os sentimentos, é como profanar o silêncio entre o intocável e a materialidade. Mesmo assim longe de serem expressos, não perambulam. Guardam-se.  Antes, eu tinha medo da escassez da escrita. Do papel em branco, da caneta descansando entediada sobre a mesa. E se a mim o sentir a alma das coisas tivesse sido negado? Besteira. Basta-me o tempo e o seu anúncio da constância do sol morno, os primeiros pingos d’água desenhando transparências na transparência dos vidros da janela, o ritual sonoro desse movimento, como um mantra ao coração, e sem equívoco, esca...

De estimação

Imagem
Começou tentando tirá-lo com vassouradas para fora de casa. Ele, teimoso, arrumava um jeito de voltar. Foram tantas as tentativas sem sucesso, que achou por bem chamá-lo por um nome e adotá-lo, o que a princípio o fez para não dar-se por vencida, já que não via mais o que fazer ante a persistência do intruso.  Zezinho.  À contar a sua primeira aparição na porta da cozinha, era digamos, uma coisinha mal forjada e de pequeno porte. Cresceu às vistas dela subindo os degraus do beco todas as tardes e virou sapo de estimação. Tinha feito por merecer. Impôs-se corajoso à presença da dona da casa, brigou pela ocupação nos cantinhos das varandas e nas sombras úmidas do jardim. Estabelecido, reconhecidamente nomeado, Zezinho assumiu seu serviço. Como grande comedor de insetos, recolheu mosquitos com língua viscosa, batendo as lentas pálpebras sobre os caroçudos olhos. Livre, ia e vinha sempre à tardinha de todos os dias, acomodar-se na escadaria. Numa dessas vezes não se apresent...

Às três da tarde

Imagem
Além, do que além não sei dizer, nem como, nem o que é. Mas a sua existência perturba-me. Transito entre dilemas  e violetas sonoridades. Entre a pracinha e a igreja de Santa Rita. Entre o Farol e as lagoas Mundaú e Manguaba. Igual como pelejo com a palavra “cafumango”  que entrou na minha cabeça e não quer sair, E com a tarde, rascunhando em mim, pequenos versos, dispersos e inquietantes. (Como bichos-de-pé, coçam-me à vontade do amor. Agora, e último). Inflama, infecta minha alma, perde-me! Meu fio de voltar preso à cintura, é referência mitológica à beleza do verso. É pura vaidade egóica,  disfarçada  em escrita bangalafumenga: Essa palavra que encontrei procurando outra. Em poética chinfrim, adulterada, incapaz de enganar minhas tolices. Eu sou uma joão-ninguém,  dona de singelas pobrezas. Meu coração tem os bolsos furados. Escapam-me por eles, os tesouros que talvez sejam. Ou que estejam para sê-los. É como um doido o meu cor...

Madrepérola para adornar saudades

Imagem
Nossa Senhora do Rosário O tecido do vestido para a minha Primeira Comunhão, o terço de pérolas, a vela e o livrinho de orações - o missal -, vieram do Rio de Janeiro. Minha mãe andava de um canto a outro dentro de casa fazendo anúncio, que ela nunca foi de fazer média fora dela ‘o livrinho tem a capa de madrepérola’. Foi a primeira vez que ouvi o nome “madrepérola”. Fiquei curiosa e encantada só de ver a satisfação dela, encher-se por convencida vaidade dizendo aquilo. Novidade. Eu adorava uma. E aquela que introduzia no meu vocabulário tal palavra, era como coisa do outro mundo. Aquilo era muito bem vindo. Era coisa fina. A palavra sempre me manteve junto a si. Tia Palmyra Tia Palmira comprou tudo por lá. Teria sido na Ilha do Governador? E enviou pelo Correio. Era um presente. Pacote registrado. Uma demora pra chegar. Naquele período que antecedeu o acontecimento, os assuntos iam e vinham e findavam alongados acompanhando-nos à costumeira prosa na calçada de casa e ade...