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O que poderia ter sido

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Alzira me contou como o havia conhecido e lembrava bem como foi. Era um homem atraente. Avistara-o de longe, conversando animado em uma roda de amigos.  Naquela confluência de ruas no bairro de Jaraguá, nas imediações do Bar da Zefinha, acontecia o lançamento de um livro. Tinham ido para o mesmo evento. A memória a enganava?  Não. Os olhares se cruzaram. Lembrava bem que tendo passado pertinho dele e estando a alguns passos adiante, ouvi-o perguntar a alguém ‘quem é essa?’. Faz muito tempo. Muitos anos. Nem posso dizer que o conheci, Violeta. Eu o vi. Conhecia só de ouvir falar. Um homem tão festejado, não era para menos.
Quando penso naquele dia, a minha vida desdobra até não poder mais. Fico imaginando que outro futuro teria saído daquela noite. Uma intercorrência que poderia ter mudado o meu percurso no mundo, ou então, descarte-se tudo, a ver que tudo não passa de hipotética ilusão. Vem daquilo de a pessoa achar que a vida que tem ainda é pouco. Um excesso de absurdas e hilárias co…

Blog do Sávio Almeida: Rio São Francisco: lembranças dos lados de Pão de Açúcar

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Blog do Sávio Almeida: Rio São Francisco: lembranças dos lados de Pão de Açúcar

À ordem daquele dia

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Saiu apressada do trabalho. Em pouco tempo estava na Rua do Sol. Adiantou -se até a Igreja do Rosário dos Pretos e entrando na travessa perpendicular a ela, caminhou apressada até o ponto de ônibus. Aquele dia seria o último a encerrar mais um ciclo de vida. Pensava nisso, quando de si mesma uma voz interior alertou-a para a urgência de medir a vida como um trajeto de avante à ré. Um absurdo quando somava as imagens do já vivido à profusão do tempo, meio que destoante do espaço onde tudo acontecera em sua vida até então. Como coubera ao tempo tanta ilusão e como o tempo tinha espaço para fazer tanto estrago na sua aparência? Estava ali, uma mulher, envelhecendo.
Era como se os dois juntos fragmentassem, cada qual a seu modo, a sua história, cortando-a como a uma longa fita cinematográfica, para posterior montagem, em uma edição meio maluca. Tinha vez que se sentia atriz dirigindo a si própria, uma performance de dar gosto, e à maioria das vezes absolutamente entregue às surpresas, às f…

De conversa em conversa

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Tempo de inverno. A mocinha no meio da rua sendo surpreendida pelos primeiros chuviscos, cobre os cabelos com o casaco, que é para não prejudicar o efeito da escovinha. Deus que me livre de achar isso uma besteira. Pra menina, ver o lisinho do cabelo desmanchar, seria um fim de mundo e a gente - eu me refiro a mim e a Josa -, entende dessas coisas. Mas Irene considera que tudo é uma besteira e perda de tempo.
Quando a ouço dizer que vaidade, não essa da menina, mas aquela exagerada, que escraviza a pessoa, não é boa coisa, me sinto é muito aliviada. Se for por causa dessa intemperança, graças a Deus, nem Josa, nem eu, haveremos de nos demorarmos no purgatório. Iremos ser hóspedes do Paraíso e bem ligeirinho. Nós duas. Sei não como é isso, mas a nossa ideia de como ele deve ser, se parece. Um campo verde a perder-se de vista, com jardins enormes, cujas flores eu já as vi em uma porção de sonhos que tenho tido na vida. Não dá nem pra descrever de tão diferentes que são. Enquanto Josa rega…

Quinta grandeza

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Estava dentro do carro fazendo uma viagem inesperada. Assim é que é bom, quando a gente não acerta nada e tudo dá certo. A estrada era de barro e muito esburacada. O caminho tinha paisagem de securas, porém exótica dada à vegetação típica do sertão. Do lado direito a agressiva e mesmo assim, bela flora. Do lado oposto, o rio seguindo seu curso. Experimentava e até que enfim, o sentido mais real do que queria dizer a palavra geografia. 

Acertando-se às lembranças, viu-se na escola primária, o caderno cheio de anotações, e depois o penoso exercício de decorar o significado da palavra e suas extensões. Determinismo geográfico, os quatro pontos cardeais, as quatro estações do ano, os tipos de clima, os limites da pequena cidade, o número de seus habitantes. Flora e fauna. Os movimentos da Terra, seu eixo e a força da gravidade. Os astros, luminosos e iluminados.
Em um daqueles dias em sala de aula, quando ao sol fora atribuído à ordem de quinta grandeza, e revelou-se ser ele uma estrela inc…

Juntando os cacos

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Quando parei pra pensar naquela história, compreendi que tudo não passava de ilusão. A senhora acha isso mesmo, dona Violeta?  Perguntou Raulina, que entrou pela casa de portas abertas, sem nenhuma cerimônia. Nem sabia do que se tratava, mas daquele modo introduzia-se na palestra, um modo de falar daquele povinho mais antigo, para se referir à conversa. Tudo é palestra.
Era bem verdade. Violeta estava sozinha e falara alto. Um costume que tinha, além de outro, pior, de ficar mexendo os lábios enquanto os outros falavam. Aquilo era ansiedade que fazia dela, a quem prestasse atenção, uma sofrível reprodutora muda da fala alheia. Pantomima. Era isso. Sobrava-lhe as repreensões de Aprígio. Sem contar que também dormia com a boca aberta, fosse onde fosse. É assim mesmo. Sou humana ou não sou? Quem quiser que sorria de mim. Ligo não. De jeito nenhum. Violeta usava de sinceridade. A de quem conhecia de si própria a persona, e tendo-a à mão, era consciente da maneira lógica de servir-se dela. 

Por falar em amizade, o senhor fique à vontade

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Tinha nada que ter dito o que disse. Mas falou. Depois ficou desconcertada, fazendo as obrigações pela metade. Concluí-las mesmo, não concluía nenhuma. Foi o embaraço de ter-se revelado tão carente, a quem até agora não se deixara conhecer de forma alguma, que fizera Violeta ficar desse jeito. Mas homem, como é que fui mendigar a amizade de seu Antônio? Que cara de pau a minha. Bem que minha mãe dizia ‘tenha sentimento, menina!’ Não sei falar com uma pessoa todo santo dia, sem fazer algum tipo de amizade com ela não, gente. Outra coisinha é que, quando estou alegre, digo. E quando alguma coisa me incomoda eu falo. Também sou de perdoar logo e lido com as espinhas de garganta, comendo um punhado de farinha seca e tomando um copo com água depois. Minha raiva é besta, passa fácil. Meu coração dá um jeito de se consertar ligeiro. Só quando a ofensa é grande demais, aí sim, eu fico remoendo. Mas dessa vez... que desgraça. Eu tinha que aperrear o homem ‘Seu Antônio, o senhor é tão frio comig…