quarta-feira, 19 de abril de 2017

Buraco Negro

O desejo de amor quer um canto para dois e planeja seu próprio universo.
E à vontade de que passe a existir,
cria na própria desordem uma ordem binária de zero e um.
Navega-se sem barco, o leme inventado invertido,
sobre um denso mar de palavras
essa tela de letras, 
em estrangeiros países
de dramáticos sentimentos.
As frases dialogam e são apagadas,
Os traço de suas rotas evaporam.
Que teclado inútil, que nem à memória dos toques seus afetos sobrevivem.

Sobre os navegantes, a regra:
nunca, nunca, haverão de se encontrar.
Não há lugar a chegar como na dança de Maia.
Ilusão que à impermanência de um pequeno planeta, um só gesto o exclui.
Onde, únicos, pensam sim ou não apenas, sempre à beira de um noves fora.
Um. Que traga para o que é coisa alguma,
o que bem poderia, não sendo zero, ser tudo.

Eis-os, então.
Navegantes, de uma mesma soma incompreensível
Dois, 
sozinhos em um buraco negro.

terça-feira, 18 de abril de 2017

Via messenger

O pequeno menino tem eczemas pelo corpo todo e precisa de cuidado.
Sua mãe me pede socorro.
Maria Helena anuncia:
"As orquídeas serão compradas e postas na varanda"
eu imagino o quão feliz ficará o seu cantinho lá em São Paulo,
A ela, queria dizer mais coisa além do que disse 
e com mais entusiasmo.
Custou-me articular as mínimas palavras ditas.
E o amor, ah! o amor me pede mais folga.
Precisa cumprir com suas obrigações.
Falho em todos os pedidos.
Perdoem-me.
Perdoem-me, vocês, que me pedem algo.
Estou meio sonolenta,
ainda à porta desta terça-feira,
estreando presença indefinida e duvidosa,
como alguém que se aproxima de leve
à beira-rio e vai molhando com cautela os pés na água fria,
sem saber se é isso mesmo o que quer fazer.


domingo, 16 de abril de 2017

Que entenda quem puder

Dentro de casa a mulher entediou-se, e aqui para nós, já não era sem tempo. Desfez-se do avental e na passagem pela varanda pendurou-o no armador da rede. Saíra da cozinha, ajeitando os cabelos com as mãos e passando a língua nos lábios ressecados. Andou até a cadeira de embalo, como dizia o povo do outro tempo, trouxe-a à calçada e sentou-se nela, cruzando as pernas com displicência. Na rua onde as gentes transitavam, viu os carros estacionados e como se o ontem e o agora fossem duas lâminas de uma mesma imagem, colocou-as uma sobre a outra para compará-las. Havia muita diferença à inconsciência generalizada para aquela visão de cidade que se tinha. Ou que alguns poucos tinham. A de hoje se olhamos com atenção é a mesmíssima, vive na inércia desde muito tempo, mas disfarça-se no acúmulo de automóveis parados e pequenas lojas em toda a extensão da avenida, dando-se à impressão de ter crescido. Qual nada. O lugar é o das mesmas conversas de todos os dias. A vidinha de um, a vidinha de outro, novidades alheias que a depender do assunto, movimentam os grandes vácuos de existência, dentro de quem dorme por dentro. Que entenda quem puder. 

Idalina pensava assim, quando um velho sapo saiu de um dos canos do esgoto e atravessou o calçamento. Olhava-o, a princípio por tê-lo visto. Depois, por falta de distração e daqui a pouco, o observará em seu percurso, movida pela curiosidade. Ele subiu devagar o meio-fio da praça e foi esconder-se em posição estratégica, esperando insetos que rodavam em torno da luz do poste. Deu por vista o cantinho escolhido e o batráquio vagaroso fazendo sua cama, alojando-se cuidadoso à espreita das presas. Agora era só esperar. Moveu o olhar para outro ponto perdido. Àquela hora imaginou como seria ser profundamente amada. 

Como será? 

Então pensou o sentimento como uma linha estável indo em direção ao infinito. Um subir sem saltos nem arroubos. Sereno, morno e constante. Seguro e previsível como a ação do sapo, que atravessara o calçamento e depois voltará de onde veio satisfeito e forte. Pareceria coisa repetitiva e sem graça. Nem fogo tinha. Nem paixão deveria ter de tão sereno que era. Mas não. Não era. E o sabiam os insetos, diversos, inebriados pela luz, sendo engolidos como brasas ardentes. É o fogo divino de Prometeu sempre aceso. Ali, para além do tempo das coisas fixas, do espaço determinado, acima das idades todas da vida. É a língua do sapo, viscosa, enorme e certeira, toda atividade, a arrastar tudo ao redor para dentro de si.










segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Prece mal feita




Transitaram pelas águas do rio, as canoas. Velas içadas, uma paisagem em movimento. Passaram as gentes, em seus semblantes e trajes. Sob o sol quente e a visão da outra margem, há o cerco das serras e o desejo de descobrir o futuro por trás delas. Circunda meu zelo, a impressão de que não basta navegar nas letras, nem construir palavras, nem desdobrar frases, onde é tanta a premência de ausentar-se-me em pessoa e em ideia. Que eu continue sendo um fantasma. Sombra tracejada sobre a luz que incide à vela, ao norte e à navegação. Velejo, eu, embarcação miúda, sobre um rio que contraria a direção dos peixes, e a lógica dos lemes. Margeio, aderno, adentro o coração no volume das águas. Retorno. Entorno de estrada com direito à romântica pontezinha pintada de branco. Murmuração de um ego em prece mal feita, ajoelha–me a alma, ante ante aa imensidão do Verbo. E em mim, o velejar dos sentimentos indizíveis me seduzem ao mergulho no inconsciente. Mas eu quero viver na superfície das frases feitas, da palavra sem ordenação, da letra sem personalidade, doutrinada em caligrafia. Ah, Meu Deus... Liberta-me da angústia da poesia.

Festa de Reis - 2015

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Clausuras

Era assim mesmo, que nem uma freira enclausurada, doida pra sair do claustro. Afobava-se por nada. Mas, tinha nada não. Não tinha e eu compreendia a insatisfação dela. O que eu desejava era fincar pé, aborrecer quem me aborrecia, de fazer pantim, como ela mesma dizia. Eu queria fazer pirraça, dizer não com vontade de dizer sim, só pra sentir como era ser ruim de verdade. Porque se eu contestava alguma coisa, uma promessa feita a mim e nunca cumprida, ela dizia: Ruim igual ao pai. Língua grande igual a dele. E ameaçava: 
_ Quando morrer, o corpo vai em um caixão e a língua em um caminhão. 
E eu que apreciava tanto converter palavras em imagens, ficava parada ali, recebendo aquela carga destemperada dela. Era tão despropositada, tão injusta e por isso mesmo tão hilária, que eu não perdia tempo imaginando minha língua, enorme, indo em um caminhão pro cemitério. Depois aquelas palavras se repetiam com tanta frequência, que eu perdia o interesse em ouvir. Ficava era adiantando mentalmente o restante da frase dela. Aquilo me dava um cansaço. Então eu colocava outros pensamentos no meio. Pensava nas freiras enclausuradas, mas obedientes, silenciosas, em oração. Será que rezavam o tempo inteiro? Tinha verdadeira curiosidade e inveja do estado contemplativo delas. Estar em Deus. Encontrar-se à imensidão. Deus é tão grande e diverso à nossa imagem e semelhança. E pensar que eu só paro pra ver estrelas, formigas, o horizonte. Perco-me contando as telhas da casa vizinha, ouvindo o cão latir, a folha seca desprender-se do galho e ir caindo, caindo. Vendo pétalas desabrocharem e injustiças e enganos acontecerem o tempo todo. O mundo das evidências não constela muita nobreza. Estou distante da coisa divina, longe da oração contemplativa e perto de mim mesma. Minha humanidade é rústica e, por isso, sou dada a distrações.

segunda-feira, 17 de março de 2014

Anoitece
O dia já dormita.
Aproveito o intervalo entre os dois tempos
e crio um só para mim.
Nem de luz, nem de escuridão.
Festejo-me na neutralidade.
Nessas horas delicadas,
eu não gosto de pensar...
Um canudo feito de mamoeiro para fazer bolhas de sabão e a festa da alegria, começava no bequinho, ao lado do tanque de cimento. Ali ficavam os apetrechos à brincadeira: à esquerda da parede das três janelas e uma porta entre elas. Eram, por bem dizer, três olhos e uma saída, retangulares, que viam por dentro, a casa que nos via.
As bolhas, elas efervesciam multiplicadas, e eram de uma transparência, naquele azul - que eu chamava -, àquela cor que não tinha nome, nenhum, que eu conhecesse. Aglomeravam-se, formando estruturas de cristal. Tanta ardileza, que soprada, enchia-me as mãos. Tão grande a delicadeza da água ensaboada, escorrendo em glóbulos de ar luminosos. Um friozinho molhado nas mãos e nos braços, hoje sei, trazia àquela sensação, o recurso de me fazer inteiramente feliz.

quarta-feira, 12 de março de 2014

Março

Minha trepadeira espicha, serpenteando, parindo folhinhas,
Meu pezinho de manacá inaugurou quase meia dúzia de folhas verdinhas,
Ontem fez-se uma chuvinha fina, constante, ao meio da tarde.
Minha irmã logo fará anos.
Tenho uma dúvida quase desinstalada,
uma certeza quase ajustada,
Ontem, também, sonhei um fosso em cone, profundo,
De onde se podia ver um retângulo de águas límpidas.
Ao redor, em cima, pedras e desertos.
Quem sou eu a perguntar dos meus sonhos o significado?

Respondo-me:
Sou eu a sonhadora e só a mim pertencem as decifrações.
Eu poderia me decifrar se tivesse mais tempo ou paciência.
Em março, atrevo-me somente a me buscar...

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Bordadeira

Céu de nuvens e o azul esmaecido,
imenso, sobre a minha cabeça.
O mundo gira perseguindo o meu destino,
e eu a tecer-me de um único fio que serpenteia,
à pirueta ancestral de outros bordados.
A minha sina é a de ser bordadeira,
dando ponto, à extensa toalha, de fazer da vida arte.
Tenho, por fim, que bordar.
Pede-me o cansaço que eu seja ao universo
a auspiciosa viajante,
E que fuja da fatigante tarefa,
como laçada de crochê, que escapou da agulha
e dos dedos da artesã, renegando o bordado.
Mas eu, que já nasci presa ao meu fio,
bordo cabriolante, à dor e à alegria,
fincando meus pontos no mundo.

Curiosidade

No silêncio desta manhã
Escuto a conversa das flores ao pé do muro.
Conversa de flor é sobre como abrir pétalas e florir
É como se faz suave sobre si, o pouso das borboletas
e o orvalho da noite.
Arvorejo-me, disfarçada à escuta, para saber sobre a flora.
Tagarelice de muita flor junta é sobre cor e perfume.
Se há muito perfume e muita cor.
Senão é sobre arredores, matinhos e insetos.
Da esquina vejo um muçambê que me vê.
Afoito que nem eu, penduculado, humaniza-se,

querendo saber sobre mim.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Quietude. O dia começa nublado. A manhã cheira a hortelã e boldo do México e a minha muda de trepadeira de belas flores azuis, cresce vertiginosamente. Caminho pelas ruazinhas dentro dos muros da minha casa e tudo é tão verdinho e cheio de vida, e tudo também carrega tanto mistério... Olhei demoradamente para a Via Láctea, ontem à noite, e pensei sobre a imensidão do cosmo, sobre outras galáxias... Grandioso mesmo é tudo o que nos cerca. Imensa e inexplicável é a minha ideia de Deus!

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Por associação



Do botão à flor,
da lagarta à borboleta
do bambuzal no meio da viagem,
à viajante paisagem que enfileira pensamentos.
Um casebre com janelas desleixadas corre pelos meus olhos,
também, aquelas duas mulheres.
Pensando bem, não eram duas.
Eram três, 
e vinham ao sol, com sombrinhas coloridas.
Lembrei das minhas quatro gueixas de delicada louça,
tocando seus instrumentos, e cenas do cinema japonês.
Em uns cinco filmes.
Eu preciso é de um sofá, de Ozu e Hore-eda

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Alegria

Manhãzinha de sol nascido e,
jardim com passarada sobre buganvílias,
orvalho em folha verdinha,
verbenas em flor, ipoméias,
formiginhas no açucareiro,
farelinho de pão sobre a mesa.
Afeto, afago, mercê, favor.
Amor.
E viver um dia todinho,
Solenizando essa vida.