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De estimação

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Começou tentando tirá-lo com vassouradas para fora de casa. Ele, teimoso, arrumava um jeito de voltar. Foram tantas as tentativas sem sucesso, que achou por bem chamá-lo por um nome e adotá-lo, o que a princípio o fez para não dar-se por vencida, já que não via mais o que fazer ante a persistência do intruso. Zezinho. À contar a sua primeira aparição na porta da cozinha, era digamos, uma coisinha mal forjada e de pequeno porte. Cresceu às vistas dela subindo os degraus do beco todas as tardes e virou sapo de estimação. Tinha feito por merecer. Impôs-se corajoso à presença da dona da casa, brigou pela ocupação nos cantinhos das varandas e nas sombras úmidas do jardim.
Estabelecido, reconhecidamente nomeado, Zezinho assumiu seu serviço. Como grande comedor de insetos, recolheu mosquitos com língua viscosa, batendo as lentas pálpebras sobre os caroçudos olhos. Livre, ia e vinha sempre à tardinha de todos os dias, acomodar-se na escadaria. Numa dessas vezes não se apresentou. Depois noutra…

Às três da tarde

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Além, do que além não sei dizer,
nem como, nem o que é.
Mas a sua existência perturba-me.
Transito entre dilemas 
e violetas sonoridades.
Entre a pracinha e a igreja de Santa Rita.
Entre o Farol e as lagoas Mundaú e Manguaba.

Igual como pelejo com a palavra “cafumango” 
que entrou na minha cabeça e não quer sair,
E com a tarde, rascunhando em mim,
pequenos versos, dispersos e inquietantes.

(Como bichos-de-pé,coçam-me à vontade do amor.
Agora, e último).

Inflama, infecta minha alma, perde-me!
Meu fio de voltar preso à cintura,
é referência mitológica à beleza do verso.
É pura vaidade egóica, 
disfarçada em escrita bangalafumenga:
Essa palavra que encontrei
procurando outra.

Em poética chinfrim, adulterada,
incapaz de enganar minhas tolices.
Eu sou uma joão-ninguém, 
dona de singelas pobrezas.
Meu coração tem os bolsos furados.

Escapam-me por eles, os tesouros que talvez sejam.
Ou que estejam para sê-los.
É como um doido o meu coração.
Sentado no calçamento, na Rua do Comércio, 
mendiga antíteses e antídotos.

(Que v…

Madrepérola para adornar saudades

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O tecido do vestido para a minha Primeira Comunhão, o terço de pérolas, a vela e o livrinho de orações - o missal -, vieram do Rio de Janeiro. Minha mãe andava de um canto a outro dentro de casa fazendo anúncio, que ela nunca foi de fazer média fora dela ‘o livrinho tem a capa de madrepérola’. Foi a primeira vez que ouvi o nome “madrepérola”. Fiquei curiosa e encantada só de ver a satisfação dela, encher-se por convencida vaidade dizendo aquilo. Novidade. Eu adorava uma. E aquela que introduzia no meu vocabulário tal palavra, era como coisa do outro mundo. Aquilo era muito bem vindo. Era coisa fina. A palavra sempre me manteve junto a si.
Tia Palmira comprou tudo por lá. Teria sido na Ilha do Governador? E enviou pelo Correio. Era um presente. Pacote registrado. Uma demora pra chegar. Naquele período que antecedeu o acontecimento, os assuntos iam e vinham e findavam alongados acompanhando-nos à costumeira prosa na calçada de casa e adentrando à hora do jantar. Comumente, comungava-se p…

Sagrados, como o fogo de Prometeu

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O lírio eucarístico veio da casa da minha infância, assim como vieram estórias que se tornaram história e que guardo até hoje. Minha avó materna tinha o dom, aquela coisa mágica, de não deixar nada morrer, de trazer o passado para o presente. Convivia-se com a maravilhosa presença dos que moravam distante, dos que haviam partido desta para outra melhor e daqueles, digamos, "bem antepassados". Todos eram alimentados por passagens contadas por ela, minuciosamente, onde antigos diálogos eram revividos – os que presenciara e outros, que sabia de ouvir dizer pela sua mãe -, sobre tipos físicos, as idiossincrasias, as opiniões de cada um, as atitudes e reações diante dos fatos da vida, suas maneiras e gestos. A recorrência neste caso é uma dádiva, quase e por vezes mesmo poética e fantasiosa, que torna heróis e heroínas nossos familiares. 
Traziam-nos, pois, no dia a dia e para estar conosco nas comemorações da Semana Santa, nas celebrações do mês Mariano, nas festividades da Igrej…

Blog do Sávio Almeida: O sertão das bandas do Ipanema

Blog do Sávio Almeida: Rio São Francisco: caminhos de Pão de Açúcar

Poesia

Vizinhos

Minha mãe e eu
percorremos casa por casa,
trazendo seus mortos às portas.
A rua é velha e a mesma.
Os que morreram estão distraídos
e conversam, atuando vida.
Das três moiras, nós duas,
fiamos e tecemos à ilusão,
findos destinos tardios.
Contando-os às dezenas.

Deitadas em nossas camas,
Eu e minha mãe
vemos juntas, as lúgubres fileiras
Enchendo as calçadas.
Ei-los, os quais evocamos,
Negando os fios que Átropos cortou.