quarta-feira, 14 de março de 2012

Para cicatrizar lembranças


Sol se pondo atrás da serra e Amélia pensando na vida. Procura ajustar vantagens, definir conceitos, se imaginar uma vencedora de todas as batalhas. Todas não, que assim também é demais. De algumas. Mas, de preferência, daquelas bem vultosas. Aquele tipo de batalha conquistada que perdura pra vida toda como exemplo à gente mesmo, de que se é forte o bastante. No mínimo, a autoestima alcança níveis tão altos, que todo o resto passa batido. Às vezes lembrar que foi possível saltar enormes fogueiras, convém à pessoa. Para Amélia, há anos na estrada, convém tudo. Cada pequena lembrança de haver sacudido a poeira das tristezas e desilusões, de haver cicatrizado tombos, passou a ser um entretenimento destinado aos finais da tarde para o início da noite. Aqui está, pois, bem sentada no sofá da sala de estar, apreciando as horas escurecendo o dia e assim ficará até ver as sombras descerem sobre os móveis. Não acende nenhuma luz da casa. É um propósito, como parte de um ritual, esperar que tudo escureça. Daí ela vai sair tateando até chegar aos interruptores.
Amélia é pontual, metódica e cuidadosa em retornar àquelas dores passadas, às que mais lhe doeram. Flagelação? Nem pensar! É aquilo mesmo de confrontar-se com memórias para ver se pode se comportar como se não tivessem acontecido com ela ou como se não tivesse sido ela a protagonista de ingratidões e desonestidades. Talvez porque comprove que está livre do peso das mágoas, talvez porque queira medir-se a si mesma: a antiga Amélia chorosa, a esta nova Amélia que aprendeu a se conhecer e a interpretar sutilezas embutidas nas passagens dolorosas de sua vida. Tem coisa melhor do que remexer pra lá e pra cá em emoções e descobri-las inertes?
Vez por outra, no entanto, quando pensa que não, é sacudida por reações inesperadas. O coração palpita, umedece os olhos e as lágrimas aparecem abundantes. Coisas que ainda não se podem abrir nem confrontar, de sorte que ela se julga no controle e que vaticina de si pra si: “O que não se é capaz de enfrentar, não se enfrenta!” Guarda as lembranças de volta, rapidamente, para que elas não evoquem outras e lhes invadam, puxem-na, e que puxem mais outras, e que ao final, ela sabe, volvam em sentido contrário e a traguem para um lugar sombrio e difícil de retornar.
Mas por que diabos isso acontece sempre que a tarde declina? Demora nada e tudo passa do dia pra noite. “Isso é tão sugestivo à reflexão”, Amélia comentou com a vizinha, numa conversinha de pé de muro. Pois é... É como fechar para balanço, remendar, remediar, consertar as fissuras do coração. Ir arrumando direitinho, as camadas de vida no fundo das gavetas de dentro da gente. Quem pode se livrar de lembranças? Mas com o tempo a gente sente alívio de ver que muitas desbotaram. Aquelas, bem pontiagudas, estão como agulhas rombudas, que a gente usa pra fazer peças de artesanato em estopa. É que nem coisa de alquimista procurando fórmulas para transformar lixo em ouro. É bem isso que Amélia é: alquimista. Segue aos pouquinhos penetrando velhas dores. Caprichosa no método, medindo limite, medindo a própria dor quase atemporal, se põe a arrancar as cascas de suas antigas feridas, usando como bálsamo, doses homeopáticas de dores menores sobre dores maiores, para cauterizar sofrimentos.
Retorna-se levantando para tatear interruptores, acender luzes, retirar-se com vida dos escombros evocados e remover-se da penumbra que escurece a sua presença sobre o sofá da sala. Sacode-se, patenteia-se, implode catástrofes e respira devagar, o odor das sombras que evaporaram. As lembranças de Amélia são que nem tensão de linha entre os dedos, mediando pontos na agulha, que ela cose, vitoriosa, bordando nelas extensas cicatrizes. São lembranças vantajosamente ajustadas em sua memória, que não se esquece de lembrá-la de velhas dores, ainda que elas, vencidas, já não saibam doer.

Insistência infantil


sábado, 10 de março de 2012

A cultura alagoana perde Dona Clarice, a mestra rendeira

Na foto, da esquerda para a direita, Dona Clarice
Na última quinta-feira, a mestra artesã, que tinha 79 anos, se submeteu a uma cirurgia de vesícula, no Hospital Chama, em Arapiraca, tendo passado bem. Apresentando complicações na manhã de hoje, veio a falecer. Dona Clarice deixa enlutadas suas três filhas, sua cidade e a cultura das Alagoas. Deixa-nos uma mulher que era um dos Patrimônios vivos da Terra dos Marechais. Seu sepultamento aconteceu em São Sebastião, sua terra natal, às16h30.
 
*Texto escrito em 2009 e publicado no Ensaio Geral/CadaMinuto

Há muito mais de dez anos, talvez, uns vinte e poucos, conheço dona Clarice, a mestra artesã da renda de bilro, lá de Salomé, que de uns tempos para cá tornou-se São Sebastião, cidade localizada no micro-clima do agreste alagoano. Tanto ela, como Gustavo Leite, foram-me apresentados pelo meu irmão, ambos em ocasiões distintas, entretanto, num desses encontros familiares, em torno da sua mesa da cozinha. 

Conheci-as sem cerimônias nem honrarias e sem os prefixos que acompanham e nomeiam as pessoas, mas que vêm a torná-las e a tais instantes, momentos luminosos. Diga-se de passagem, conhecer pessoas na cozinha de uma casa, dispensa quaisquer formalidades.

Dona Clarice e eu trocamos um aperto de mão e um abraço apertado. Pessoas como ela, costumam demonstrar plenamente a satisfação de conhecerem as outras e essas coisas se traduzem, também, em nenhuma reserva de contato físico, aproximado, afetuoso e forte. 

No entanto, abraçar dona Clarice é como trazer para o abraço uma taça de cristal. Mulher franzina, de baixa estatura, esconde no corpo frágil, a maestria das mãos e o talento que lhe ocupa com o ato de fazer, o debulhar das proezas da sua imaginação. Ela cristaliza o momento das linhas que se entrelaçam, na criação de rendas espetaculares, largas, estreitas, delicadas, de diversos motivos.

O belo artesanato é elaborado a partir de rústicos instrumentos. Bilros e linhas sobre uma almofada, e à frente dela, a mestra Clarice Severiano dos Santos, que joga as pequenas peças de madeira, para um canto e para outro, as peças que dançam um esquisito balé, no espaço vertiginoso das suas mãos. 

Um balé de dedos ágeis, como aranhas tecendo arte, para registrar no tempo a presença de uma mulher simples, que tem a natureza de uma daquelas Parcas, deusas gregas, que tecem o fio do destino humano.

Dona Clarice preconiza com suas rendas, a nossa intrínseca necessidade de criar e recriar o belo, como conexão àquilo que lembra a nós mesmos o que somos e do que somos capazes. E somos, ainda, capazes de resistir às intenções da massificação cultural que elimina a originalidade da criação individual, como expressão do eu sou.

quinta-feira, 8 de março de 2012

De olho na mulher

Festejar a entrada da mulher no mercado de trabalho e a sua evolução econômica, que determina maior liberdade, inclusive a sua liberdade sexual, é assunto em praticamente todos os veículos de informação de hoje. Pois é. Um dia especial no calendário para homenagear a mulher, suas conquistas e seus feitos. Mas, se debruçar sobre outras vertentes, associadas à propagada ascensão feminina, é tarefa que vale a pena.

Parar e refletir sobre a condição da mulher na sociedade atual, requer certa coragem para assumir que logo ao lado das nossas conquistas, está o seu oposto, e que ele é um preço alto que somos chamadas a pagar, quer queiramos ou não. 

Uma amiga jornalista do jornal Primeira Edição (http://primeiraedicao.com.br/noticia/2012/03/08/mercado-de-trabalho-x-familia-a-mulher-precisa-mesmo-definir-uma-so-posicao) quer saber minha opinião, sobre: Mercado de trabalho e família versus Mulher, e se eu acho que diante da evolução econômica e histórica da sociedade a mulher precisa definir onde ficar (carreira ou família). 

Em suma, há possibilidade de conciliação dentro da realidade em que vivemos?

Difícil opinar, se a gente não tiver certa compreensão dos contextos, da influência direta do Sr. Mercado, como a mola mestra do mundo moderno, e sua influência na construção de nossos conceitos e escolhas, e sobre o que realmente é importante para nós mulheres. 

Afinal, é cada vez mais complicado procedermos fazendo escolhas. Praticamente, somos guiados por mecanismos que escolhem quase tudo por nós.

Lutamos tanto tempo por igualdade de direitos dentro da sociedade, que nos esquecemos de definir em que se baseiam tais direitos. Direito à liberdade sexual, direito de sair do universo caseiro, com ocupações caseiras, direito a ocupar espaços antes destinados apenas ao homem? 

Quais os nossos princípios éticos e morais definidos para escolhermos como proceder diante de tanta liberdade? Que tipo de liberdade tinham ou têm os homens, que as mulheres queriam para si? Em que se baseia esta noção de liberdade e igualdade?

Acredito que pegamos como pressupostos, noções estereotipadas da liberdade questionável do masculino, e as sugamos como referência à nossa vida. E foi aí que deixamos de acrescentar à nova conquista da liberdade adquirida, um colorido novo, reflexivo e condizente às questões femininas. 

Saímos da condição de submissão e entramos em outras instâncias que reproduzem a mesma submissão disfarçada pela propaganda de tempos novos à mulher e camuflada pelo que a liberdade econômica nos proporcionou. 

Deixamos de rever a nossa condição, a nossa importância como mantenedoras, educadoras, filtradoras de humores, companheiras, como atividades menores, dando ênfase ao trabalho minucioso da mulher, como parte da estrutura social.

Deixamos de questionar o nosso lugar na dinâmica social, na família, na criação dos filhos. Apesar de vermos as mudanças, as novas condutas familiares, onde homens e mulheres têm a mesma obrigação perante a criação e educação dos filhos, algo de muito atemorizador tem aparecido dessas experiências. 

O que não está dando certo, afinal? Enquanto saímos, homens e mulheres para engrossar as fileiras de ‘operários’ do mercado, no modelo econômico atual, com o objetivo de melhorarmos o nível e as condições de vida da família, estamos contribuindo para a sua decadência.

E do que precisamos de verdade, para termos uma vida confortável? Sermos os consumistas que nos transformamos?
Vejo muitas jovens senhoras, que estão ‘escolhendo’ se posicionar no mercado com uma avidez de fazer pena. 

A realização de experiências voltadas para a sua interiorização, a experimentação de prazeres mais profundos, como a experiência de ser mãe, por exemplo, fica relegada a terceiro plano. 

Muitas extrapolam o limite dos anseios e querem cada vez mais. Mais títulos, mais sempre mais, sem pararem para se perguntar se essa necessidade é sua ou se está respondendo à proposta de realização do mercado. 

E tal proposta, sabemos, aposta no consumo como referência de sucesso. Se você pode consumir, você é feliz. Mas é só isso? A vida se resume apenas na satisfação de prazeres externos e pulverizados facilmente, para atender a outros?

São agregações à imagem e não à mulher, que é sempre mais fragmentada. Espírito e corpo, distintamente separados. Acredito que ninguém pode se sentir realizado parcialmente, a menos que se recuse experiências prazerosas no campo da realização pessoal, desde que se defina que tais realizações não são importantes. 

E quanto mais inconscientes estivermos das nossas próprias e particulares necessidades, mais iremos sofrer porque a nossa balança entre os mundos interno e externo, estarão desequilibradas. Há um preço a pagar por isso e nós temos que pagá-lo.

Basta ver a violência, o estupro, a morte, que tem aumentado entre as mulheres, vítimas dos companheiros, a fragmentação da historicidade da mulher no denegrir da imagem feminina, no abuso da propaganda e da publicidade que a veicula como um corpo-moeda-de-troca, com prazo de validade para uso. 

Tudo isso configura o desrespeito à importância da mulher como co-partícipe na construção da história da humanidade. E demonstra que o que se entende como liberdade e igualdade entre os sexos, está longe de ser algo concretizado em toda amplitude. Não é. Tem estrada para se percorrer ainda. Muita estrada.

E o que é pior é que pouquíssimas mulheres enxergam isso.