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Poesia

Vizinhos

Minha mãe e eu
percorremos casa por casa,
trazendo seus mortos às portas.
A rua é velha e a mesma.
Os que morreram estão distraídos
e conversam, atuando vida.
Das três moiras, nós duas,
fiamos e tecemos à ilusão,
findos destinos tardios.
Contando-os às dezenas.

Deitadas em nossas camas,
Eu e minha mãe
vemos juntas, as lúgubres fileiras
Enchendo as calçadas.
Ei-los, os quais evocamos,
Negando os fios que Átropos cortou.

Blog do Sávio Almeida: O sertão das bandas do Ipanema

Mais uma matéria oriunda do sertão alagoano, publicada pelo Campus/O DIA. Desta feita quem a assina é a escritora santanense Lúcia Nobre.

Vale conferir!



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Blog do Sávio Almeida: O sertão das bandas do Ipanema

O que poderia ter sido

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Alzira me contou como o havia conhecido e lembrava bem como foi. Era um homem atraente. Avistara-o de longe, conversando animado em uma roda de amigos.  Naquela confluência de ruas no bairro de Jaraguá, nas imediações do Bar da Zefinha, acontecia o lançamento de um livro. Tinham ido para o mesmo evento. A memória a enganava?  Não. Os olhares se cruzaram. Lembrava bem que tendo passado pertinho dele e estando a alguns passos adiante, ouvi-o perguntar a alguém ‘quem é essa?’. Faz muito tempo. Muitos anos. Nem posso dizer que o conheci, Violeta. Eu o vi. Conhecia só de ouvir falar. Um homem tão festejado, não era para menos.
Quando penso naquele dia, a minha vida desdobra até não poder mais. Fico imaginando que outro futuro teria saído daquela noite. Uma intercorrência que poderia ter mudado o meu percurso no mundo, ou então, descarte-se tudo, a ver que tudo não passa de hipotética ilusão. Vem daquilo de a pessoa achar que a vida que tem ainda é pouco. Um excesso de absurdas e hilárias co…

Blog do Sávio Almeida: Rio São Francisco: lembranças dos lados de Pão de Açúcar

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Blog do Sávio Almeida: Rio São Francisco: lembranças dos lados de Pão de Açúcar

À ordem daquele dia

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Saiu apressada do trabalho. Em pouco tempo estava na Rua do Sol. Adiantou -se até a Igreja do Rosário dos Pretos e entrando na travessa perpendicular a ela, caminhou apressada até o ponto de ônibus. Aquele dia seria o último a encerrar mais um ciclo de vida. Pensava nisso, quando de si mesma uma voz interior alertou-a para a urgência de medir a vida como um trajeto de avante à ré. Um absurdo quando somava as imagens do já vivido à profusão do tempo, meio que destoante do espaço onde tudo acontecera em sua vida até então. Como coubera ao tempo tanta ilusão e como o tempo tinha espaço para fazer tanto estrago na sua aparência? Estava ali, uma mulher, envelhecendo.
Era como se os dois juntos fragmentassem, cada qual a seu modo, a sua história, cortando-a como a uma longa fita cinematográfica, para posterior montagem, em uma edição meio maluca. Tinha vez que se sentia atriz dirigindo a si própria, uma performance de dar gosto, e à maioria das vezes absolutamente entregue às surpresas, às f…

De conversa em conversa

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Tempo de inverno. A mocinha no meio da rua sendo surpreendida pelos primeiros chuviscos, cobre os cabelos com o casaco, que é para não prejudicar o efeito da escovinha. Deus que me livre de achar isso uma besteira. Pra menina, ver o lisinho do cabelo desmanchar, seria um fim de mundo e a gente - eu me refiro a mim e a Josa -, entende dessas coisas. Mas Irene considera que tudo é uma besteira e perda de tempo.
Quando a ouço dizer que vaidade, não essa da menina, mas aquela exagerada, que escraviza a pessoa, não é boa coisa, me sinto é muito aliviada. Se for por causa dessa intemperança, graças a Deus, nem Josa, nem eu, haveremos de nos demorarmos no purgatório. Iremos ser hóspedes do Paraíso e bem ligeirinho. Nós duas. Sei não como é isso, mas a nossa ideia de como ele deve ser, se parece. Um campo verde a perder-se de vista, com jardins enormes, cujas flores eu já as vi em uma porção de sonhos que tenho tido na vida. Não dá nem pra descrever de tão diferentes que são. Enquanto Josa rega…