segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

PELO LABIRINTO DE ODETE

Ia pelo caminho lembrando disso e daquilo. Comprei as coisas numa pressa danada. Disse a Odete que ela comeria lasanha. Disse só pra me ver livre da cara de decepção dela me dizendo: “Quando vi que não tinha lasanha, perdi a alegria da festa”. Como pode alguém deixar um encontro da família sem significado, estando rodeada de parentes e de afeto, só porque faltou lasanha? Despautério. Pura provocação. Não seria de outra forma pra ela. Então prometi, fingindo dar muito caso à reclamação: “Tá certo, minha querida; dá próxima vez que a gente se encontrar de novo, você vai comer o que deseja”. Nada está bom pra ela. Nunca. Infelicidade. Meu desejo de ser compassiva é quase desfeito nos melindres - essa coisa meio parecida com armadilha-, que vivo dando nomezinhos e usando de eufemismo para não dizer que é mau agradecimento. Odete é uma mal agradecida. Isso sim. Vive de fazer chantagem emocional com quem quer que seja que queira gostar dela, e dar demonstração disso. Tempos atrás eu me aliviava das aflições que ela me impunha, indo me restabelecer num cantinho do quintal, pedindo bem compadecida a Nossa Senhora do Livramento, que me desse paciência. Minha resistência, eu ia buscá-la, nas lições do catecismo, para barrar desejos ruins que passavam pela minha cabeça. Agora não. Às vezes me acho dona de uma maldade sem limites. Outras vezes me acho boa demais. Não gosto de sentir nem uma coisa nem outra. Prefiro estar entre ser má e ser boa. Dá uma sensação de equilíbrio e quando eu lembro das palavras de Arquimedes dizendo: “Dá-me um ponto de apoio e eu levantarei o mundo”, interpreto isso como: andar pelo meio é o ideal. Alegra-me saber que a filosofia chega a mim e funciona como parâmetro pra muita situação. Uma vez me peguei numa iluminada manhã, em Belo Horizonte, recitando Olavo Bilac, deslumbrada que fiquei com a natureza. Antônio e Gui olharam pra mim como se eu fosse uma louca, sem entenderem nada. Pois é... A natureza ali, era mesmo, um seio de mãe a transbordar carinhos. Não fiz caso nenhum do espanto deles. Vali-me em vaticinar bem por alto: “olha gente, isso é Olavo Bilac. É interdiscursividade!”. Saí andando na frente dos dois, descendo uma ladeira arborizada, respirando profundamente o ar e a poética da manhã, transbordante, e transbordando um orgulhinho bem pseudo-intelectual, àquela maneira de ‘entenda quem puder o que eu estou falando, porque se vocês não notaram ainda, escuto o que falam os pensadores e os poetas mortos’. Quer dizer, leio, viajo pela imortalidade. Às vezes me faço de superior: Querem sair dos meus labirintosos pensamentos? Estou falando alemão? Pois eu não sou nenhuma Ariadne não. Meu novelo de lã só serve pra fazer o meu tricôzinho. Cada um que vá atrás de entender as coisas, de ler, por exemplo, mitologia grega, pra saber quem é Ariadne. Odete, só Odete é que quase me tira do sério. Para ela nem meus orgulhos pessoais, nem minhas dores, funcionam. Sequer existem. Sendo o centro do universo, ela é que nem um solzão. Daqueles bem grandes, faiscando de incandescência, que tomam a abóboda celeste toda. Seus problemas são maiores que os dos outros. Aliás, são os únicos que merecem ser sofridos. Meu Deus! Sinto pena de Odete, e como isso me faz mal. Pena daquela mania de ser vítima. Daquela cara de quem perdeu o último ônibus ou esqueceu a mala dentro dele. Não adianta eu dizer pra ela que aqui não é o paraíso e que todo mundo sofre, se decepciona, se contraria. Nada faz efeito. Também tenho raiva. Raiva de olhar pra ela com aqueles olhos de pálpebras caídas pela metade, e raiva dela ficar me olhando, imperturbável. Calada, ali, macerando dor e me matando na unha como se mata piolho. Amália metida a saber das coisas e a dar conselhos, foi me pedir desculpas por ter me dito uma vez, de forma bem insidiosa, que Odete precisava da presença dos parentes. Desculpou-se só porque me viu duas semanas seguidas, na casa dela. Amália não se enxerga. Abusei daquela pretensão: “Ô Amália, mas você acredita mesmo, que eu estou aqui fazendo companhia a Odete, por sua causa, é?” Dei uma rasteira nela, se achando superior, boazinha, caridosa e toda cristã. De primeira linha. Crente que tinha movido o meu coração. E aí sim, me senti muito bem obrigada. Detesto essas palmatórias do mundo. Pior ainda é que detesto a idéia de que Amália tenha mexido em minha humanidade faltosa e por isso, eu tenha reagido da maneira como reagi. Ela me viu fazendo o que disse que era preciso fazer. Meu coração que transborda de carinhos diante da natureza exuberante, nem sempre transborda misericordioso às dores alheias.. Mas quem manda que pessoas, iguais a Amália, torçam os narizes e se metam onde não foram chamadas? O amor pelos outros exige esforço. Amália não sabe disso ou faz de conta? Conheço Odete. Incorrigível. Petrificada em seus rancores, não aceita se afastar um centímetro sequer do que tem como verdades. Aferra-se até aos próprios sofrimentos, repete-os e abusa deles sempre que pode. Se não viver sofrendo, não presta. Reedita ingratidões. Martiriza-se religiosamente, para receber o céu como descanso. Dois minutos perto dela e a gente, se não tiver cuidado, mergulha na tristeza. Sou metida a explicar psicologicamente as reações das pessoas. Sou que nem Amália. Só que faço julgamentos menos primários, disfarçados de observações. Alicerço-me, em leitura de cabeceira, me refiro a Jung, às vezes a Freud. Abuso de citações que leio nos livros. Vai ver também que é isso que me faz ter tanta raiva dela: ser obrigada a me confrontar com aquilo que tenho em mim. Mesmo assim, não evito Amália. Quando ela chega, boto cadeira confortável pra ela sentar e sento junto. Entre ela e Odete. Preciso reconhecer e aceitar, que em mim mora essa Amália sombria, acusatória. Coisas minhas, indesejáveis, revelam-se nela. Escondo-me de algumas tantas partes de mim, porque ainda teimo em viver achando que diante dos outros, devo usar a máscara de boa. Mas ela aponta minhas falhas. Sou ‘pouquinha’. Sozinha comigo mesma, reconheço que sou também má, mas só assumo essa condição em segredo. Tenho raiva quando vem alguém, assim como Amália, e julga minhas desumanidades. Prefiro justificar covardias, tendo pena e raiva de Odete que só olha pra si própria. Estou à entrada do seu labirinto. Nessa situação, meu coração, deveria postar-se, ser um ponto de apoio igual à noção de equilíbrio de Arquimedes. Deveria ser um seio de mãe a transbordar carinhos verdadeiros para ela, tais quais os parnasianos carinhos de Olavo Bilac à natureza. Mas nada funciona assim. Nem que eu quisesse. Odete não liga a mínima à filosofia nem à poesia; meus bálsamos preferidos para curar as feridas da alma. Tateio na densidade do seu tortuoso lugar. Procuro por ela, vagando em sua própria construção, cheia de corredores de amargura. Queria ver Amália, aqui, numa situação dessas, pelejando, invés de ficar me dizendo indiretas sem me olhar nos olhos: “Olhe Odete, seus parentes podem sim, virem lhe fazer companhia. Não vêm porque não querem. Você sabe né?!”. O que me enfraquece é me saber humana. É conhecer como é perigoso estar com Odete, sem se contaminar das tristezas dela, e acordar as pessoais, adormecidas. Mas minha fraqueza também é minha força, porque como digo, conheço Odete e suas confusões interiores, trazidas à tona de maneira a nos tornar vulneráveis. Presas fáceis. Vou em frente. Vou fazer a lasanha. Quero vê-la sorrir sem graça e não dar valor nenhum à minha disposição em fazê-la menos desolada. É minha obrigação de parente próxima. Próxima até demais. Quero ver como sofro a ingratidão dela, sem me ressentir nem deixar escapar: “Ô Odete, você bem que podia ser menos mal agradecida, né?” Não digo um ai. Não digo. Ponho-me à prova. Aqui, vou usar o mesmo expediente de Amália, que num minuto se elege mediadora dos problemas dos outros. Vou fingir ter ares de quem está por cima. (Alma reparadora das aflições alheias, a de Amália!). Essa disposição de corrigir os desacertos inscientes, também é minha. É onde encontro apoio em prosseguir. Tenho pretensões de ir mais além, de me ampliar em generosidade decente, à custa de ultrapassar meus limites. Não pra me sentir boa, mas pra me sentir forte. Essas misericórdias de falação, não exigem de quem as dizem, maiores esforços. A mão na massa, mesmo, fica pra quem recebe as admoestações. Hei de aprender com a insatisfação de Odete, sobre como encarar as obscuridades que não construí e lidar com elas. Minha humanidade incompleta pede complementação. O sofrimento dela precisa da falácia de protesto de Amália. As duas são casa e botão. O tempo todo. Não fazem outra coisa: uma sofre e a outra se compadece. Complementam-se. Há alguns meses, resolvi deliberadamente carregar cruzes. Trago um fio de lã, atado à cintura. Resolvo-me a adentrar no destino de Odete, conhecendo as ciladas astuciosas da sua alma doente. Ela vive um, que acredita ser o dela. Enquanto pelejo em seu calvário, abandono cruzes pelo caminho. Não sou vítima de maldições nem destinos. Delibero os caminhos que me levam pela vida. Transito por eles, à luz da consciência. Carrego os pesos que devo carregar e deixo-os cair nas ocasiões devidas. Só suportarei aflições necessárias. Quando estou ardendo nelas, sei que descansarei depois. Uma coisa não existe sem o seu oposto. No ponto de intersecção de uma e outra, haverá, decerto, a reconciliação entre bondade e maldade. Uma mandorla. Uma nova condição pessoal, redentora, surgida desse paradoxo. Odete e Amália, inertes, me dão o fio e me tecem ao mesmo tempo. São às avessas, misericordiosas comigo. As duas são Ariadne. E eu, em suas mãos, vou me desenrolando aos pouquinhos, unindo pontos, até chegar a mim. Tecida e outra. Na outra extremidade, onde termina o novelo.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

O QUE NÃO SE PODE PESAR

Semana retrasada, eu ia dizer qualquer coisa a Aprígio, quando finalmente resolvi que o silêncio era melhor. Lembrei de alguma passagem na Bíblia que diz que o sábio não joga conversa fora. Não é que eu me ache sábia, sabe Zanza, mas é que não sei por que veio de algum lugar de dentro da minha cabeça, isso que considero como uma iluminação. Por que não? Pois bem, Hilário, aquele meu primo do qual lhe falei, foi me procurar lá em casa. Um abraço e tanto, até me beijou no rosto, duas vezes, com tanta avidez, que naquele momento senti que ele gostava pra valer de mim e pensei comigo mesma: É com ele que vou abrir meu coração. Você sabe... Essas coisinhas que a gente fica guardando esperando a pessoa certa pra contar, né Zanza? Comigo a coisa funciona assim: cada amigo tem uma particularidade. Tem daqueles que conto uma coisa, tem deles que eu conto outra. Como é que eu sei o que devo contar o que e a quem? Olhando a pessoa por dentro, mulher! Eu acho até que é um dom que eu tenho. Não gosto de contar minhas coisas a gente que dá opinião. Gosto de contar coisa a quem me escuta sereno. Se olhar com cara de pena pra mim, pior ainda. Quando a coisa é besta, pode opinar que eu nem ligo. Vendo assim, estou percebendo que conto coisa pesada a pouquíssimas pessoas. E conto somente pra me ouvir falando. Eu conto as coisas é a mim mesma. Vou falando e me escutando ao mesmo tempo, e aí já vou encontrando a resposta, quando tem, ou me acalmando, encontrando um jeito com aquele problema. Levei Zanza até a porta de casa e voltei para onde estava Aprígio. Olhei pra ele, ali, na sala de estar, distraído, com uma revista na mão. Não sei se lendo, não sei se fingindo que lia. Quis ter raiva, mas resolvi que não saio do sério. Não há pra quê. Nesses vai-e-vens de uma vida toda, sei quando o silêncio é resposta, sei quando calar é alívio. Ando dispensando ruminações. Não me levam a nada e Aprígio é mestre em cortar assuntos pela metade, impondo o seu método de evitação. Diz duas ou três palavras, com aquela voz impostada, só pra mostrar poder e me deixa falando sozinha. Antes eu achava aquilo um baita jogo sujo. Engolia a seco e depois explodia em tanta lágrima que eu nem sabia de onde vinha tanta. ‘Eu quero ser feliz, eu quero ser feliz’ repetia pra mim mesma, como quem pronuncia uma sentença que tem porque tem de ser cumprida à risca. Foi quando dei pra sonhar encontrando tesouros em lugares pedregosos, que comecei a perguntar a mim mesma o que a minha alma queria dizer. Tantos anos chorando, tanta lágrima pelos mesmos entreveros! Um sofrimento estagnado, repetitivo, sem nascer nada de novo dele. Sofrimento tem que gerar alguma coisa, tem que servir, senão é infrutífero. É dor inútil. Não vale. Lembrei de Zanza, que veio aqui em casa querendo que eu a ajudasse a encontrar resposta a uma dúvida sua ‘Ô Mercedes, se Antônio fosse vivo, comigo agora doente, será que ele estava me fazendo companhia?’ Essa resposta eu não tenho Zanza. É difícil prever qualquer coisa, quanto mais, quando a previsão é para um alcoólatra. Que acha? Concorda comigo? Ela riu. ‘Quem sabe, né? Zanza encheu os olhos de lágrimas para aliviar a própria solidão tão cheia de vazios e ausências. Mora num mundão de casa. Sozinha. Mudei de assunto e contei sobre a teimosia de Aprígio, que se acha o sabichão, mas que às vezes me aparece no meio do nosso quarto, desolado, com cara de quem se enganou em casar comigo. Casou com uma mulher que não faz dele um homem feliz. Hilário tinha me dito, ‘Mercedes, como mulher casada, você fez tudo certinho, mas o imponderável nos escapa’. São as tais das circunstâncias indefiníveis que exercem influência sobre a vida da gente. Meus silêncios, antes intuitivos - descobri na conversa com ele -, são o meu respeito àquilo que não é possível ponderar. Tem quem queira ter resposta para tudo. Ainda há pouco tempo atrás eu também queria. Encho os pulmões de ar e falo alto: imponderável, imponderável, uma dúzia de vezes. A palavra é cheia de sonoridade. É eloqüente. Faz-me rir! Esbarro nela, que veio e se fixou em minha memória, já tem quatro dias. Devo fazer com ela alquimia, até efetuar da lingüística à evolução da palavra, todo o peso e significância. Devo com isso dar sentido a sofrimentos estéreis e modificá-los. Vou da alma da palavra à ventura do meu coração, abrindo um caminho sem fazer desvios. Isso mesmo. Olho pra Aprígio, distraído de novo, fumando o seu cigarro de depois do almoço. Sobre que coisas esse homem pensa? Tem dias que cavo abismos e atiro palavras em todas as direções, só para atingi-lo, como uma doida atirando pedras a esmo. Há sempre misteriosos lugares dentro da gente, onde não cabe mais ninguém. Disso eu sei. Não há como andar toda a extensão e profundidade de uma pessoa. Nem mesmo da gente. Às vezes a noção de felicidade de Aprígio combina com a minha. Outras vezes, não. Mas isso não me assusta mais. Meu sentimento por ele tem que ser descompromissado, senão vou ficar a vida inteira na cantilena desastrada de “eu quero ser feliz” É muito peso pra ele carregar por mim, eu querer que o coitado promova o meu retorno ao paraíso, coisa impossível. Devo a experiência da vida e da alegria, a mim mesma. Domingo passado, às sete da noite, àquela minha conversa baixinha, em tom de quem revela segredos, Hilário escutou com paciência. E foi quando me apresentou a frase onde o imponderável apareceu, para preencher os meus lugares sem respostas. Diante disso me achei mais confortável. Avultei-me. Cresceu um sentimento bom dentro de mim. O que chamei de iluminação antes, encontrara solidez. Revelou-se como um presságio. Depois ele me explicou sobre como enterrou quatro ovos de cágados e esperou pelas trovoadas para que os animaizinhos viessem à superfície. Adiante, a torta holandesa, ‘que você tem que me dar a receita, Hilário’. Tem creme de leite, chocolate meio-amargo, biscoitos, recheio aerado. Adentramos a madrugada, inaugurada às duas da manhã, quando olhei o relógio. Esses pequenos detalhes me dão a noção de que tenho a posse de mim e do que sou. Quarta-feira. Apaguei a luz do quarto, Zanza deve estar sozinha no dela, contando as telhas, acordada, desejando que Antônio tão trabalhoso que foi, estivesse com ela. Aqui em casa, Aprígio se ajeita pra lá e pra cá na cama com o nariz obstruído e uma insônia daquelas. Tenta dormir. Estou em silêncio, quieta, ponderando o que é possível ponderar. Após os conflitos e a perda do que eu era antes, descubro-me mergulhada em tesouros. Sou rica. De profundidade e substância. Liberto Aprígio do peso das minhas projeções. Agora sim é que vou começar a amá-lo.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

SOBRE CASAS E PESSOAS

Foi aqui onde ouvi o tamborilar da chuva no telhado. Antes, uma ventania daquelas que anunciam que vai chover, espalhou poeira fininha sobre mim e sobre as coisas. Limpou as telhas, derrubou as aranhas caseiras e suas teias e sujou a casa. A casa. Essa, com porta de entrada bem alta, pintada de verde bandeira. Essa, cheia de quartos, corredor, cozinha, quintal e meninos barulhentos. Estou diante da memória que tenho dela, e assim a salvaguardo dentro de mim, pois que já não existe desse jeito. Mudaram-se as coisas e as pessoas tomaram rumos diferentes. O cheiro forte do cigarro de palha de José espalhou-se no tempo e diluiu-se dentre outros cheiros. Não tem mais quem o fume. José morreu esse ano, assim, de repente, e levou consigo aquele cheiro insuportável que enchia a cozinha. Velho enxerido e cheio de saimentos, nem pensei que fosse ter saudades dele, mas sinto. A sua intrigante presença me faz falta, porque perdi de quem sentir a raiva costumeira, viciada, alimentada por mim, eu mesma, dando comida a distúrbio emocional em dias marcados, todas as segundas-feiras. Josefa também sumiu. Foi morar na capital, e longe das amarras e das regras de cidade pequena, revelou-se. De sonsa que era, debandou. Caiu na buraqueira, como dizia José, cheio de suspeitos olhares, todos por sinal, perniciosos. Velho sem-vergonha aquele. Andou por aqui outro dia, vestida num short curtíssimo, faiscando de lubricidade. Dando o que falar ao povo. Lilice não gostou ‘tá parecendo mulher vulgar. Entrou na padaria comigo, eu constrangidíssima. Fazendo vergonha à família toda’ O que pensa Josefa sobre o que é ser eternamente jovem? Depois dos quarenta, expressar juventude não tem que necessariamente ser exposição do corpo, tem? Taí, não tem! Ela mesma respondeu e eu acenei positivamente com a cabeça. Aí, eu só de provocação, 'Não tem, mas no entendimento dela, tem. E daí?' 'E daí o quê? Isso é lá jeito de gente direita?!' Essa casa é outra. Instala-se sobre a lembrança da antiga. Naquela de outrora, Celeste caminhava ligeira sobre o piso vermelho de cimento, sempre impaciente, ansiosa e angustiada, dando ordens, usando de uma sinceridade cruel, punitiva e de exigências humanamente impossíveis, ao dizer o que pensava sobre os outros moradores e suas atitudes. Auto-suficiente, dispensava companhias. Nessa casa de agora, com piso de cerâmica, é levada por Zulmira. É preciso que alguém ande por ela, os lugares que deseja ir. Perpetua em si mesma, sofrimentos desnecessários, com medo de perder companhias. Priva-se, mesmo sendo capaz, de dirigir a própria casa. Precisa estar com gente por perto, senão não caminha. O tempo parece ter revirado a estabilidade das coisas e dos lugares-comuns. Alterou nossas certezas. A vida mudou o curso e os próprios significados a que nos apegamos carecem de revisão, de nova alma. De fé. Pois é - nós as mulheres -, eu, Lilice, Josefa, Zulmira e Celeste, como deveremos entender a passagem do tempo? Como aceitar de forma sensata e sábia que tudo muda? Como tirar-lhe proveito? Para a alma, qual o valor da juventude? Depois dos quarenta anos, e mesmo antes dele, como continuar sendo jovem? O corpo é o único local onde a juventude tem que ser eterna? A mulher não tem uma história enquanto ser social a ser contada e respeitada? Coitada de Josefa, tão deslocada dela mesma, tentando retornar à juventude dentro de um shortinho, com medo de encarar a realidade e por isso mesmo, perdendo a chance de estar fortalecida, feliz do seu lugar de mulher, pois então!. Se deixar render à ideologia da estética do corpo, dentro da perspectiva de mercadoria? Será que essa mulher pensa? Sabe pensar ou pensam equivocadamente por ela? Um bando de mulheres iguais a passarinhos desavisados em direção à rede? Por sobre nós, o céu ainda é azul e cheio de nuvens, nesse tempo de verão. Além de nós, as árvores envelhecem na agonia lenta das artroses que retorcem seus galhos. Nós deixamos a nossa antiga casa segura, para trás ou ela se transformou para nos causar o estranhamento necessário, expulsando-nos em favor do crescimento de nós mesmas? Acomoda-se agora um silêncio dentro da gente que espalha um silêncio fora de nós. Agudíssimo. Às vezes doloroso. Reflexivo. Quebro o vazio de palavras e arrisco expor o meu: Hoje estou triste. Uma saudade de mim mesma, parece. Até de José, aquele chato. Os dias de segunda-feira, sem cheiro de cigarro de palha... Mais uma pessoa das que eu conhecia se vai. Nem se despediu. Mais um morto para minha memória. O safado era tão cheio de gracinhas, que pra ter morrido da forma como morreu, só pra chatear, é uma quase-certeza que tenho. Ao meu silêncio revelado, Celeste riu, riu e riu até ficar vermelha. Contaminou-nos. Fomos acostumadas à alegria do riso, mesmo quando o silêncio nos atinge. Quebramos o do lado de fora, para que ele desestabilize o do lado de dentro. É razoável estar-se igual em ambas realidades. A gente se equilibra, se firma, se ancora nesses momentos. Estamos na calçada, à porta da casa que nos ocupa, e ela, mais do que fora, mais do que parece ser a construção, é dentro da gente o signo da temporalidade da vida. Viver é estar mudando de casa. Tanto da morada física, quanto da psicológica. Às vezes, e não raro, mudamos de casa, dentro da própria casa. Saímos dela sem sairmos dela. Dá para entender isso? Nosso paradigma é de repente, e para o nosso espanto, a imagem primordial daquele lugar, onde começamos entender o abrigo e o lar. Duas faces da mesma moeda. Carregamos e somos carregados por ela durante todo o tempo que nos acolhe, e que a nossa lembrança a abriga, dentro de suas paredes, suas salas, quartos, seu quintal, um teto, sua calçada. Mesmo quando a sua arquitetura muda, a minha casa sou eu. Diversa em mim. Tão surpresa dos acontecimentos, multifacetada e dinâmica, quanto a própria vida.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

MarGarida

As flores fenecem cedo. Você não sabia? Só pude entender agora, depois de chorar por dentro, a sua seiva interrompida no caule, as suas pétalas, caindo no decorrer da semana. Os meus últimos signos da infância somem-se na lembrança dos fundos da casa vizinha. A lenha, o fogo, o lambe-dedos quentinho, a sua voz de vegetal e jardim, batendo arroz num pilão de madeira. Suas mãos ossudas de longos dedos morenos. Os caminhos do inverno, a lama, o quintal da casa onde íamos buscar o leite todas as manhãs. A sua voz me chamando por cima do muro. Só nós duas saberemos eternamente do que isso trata. Porque vivemos num tempo quase encantado, que parecia eterno, na sala, nos quartos, nos bibelôs, nos móveis, no rádio antigo, nas histórias de trancoso, na tosse persistente de Madrinha. Eu era pequena para entender o tempo. Vivi minha infância em seu colo. Vivi a calçada, o mundo incorruptível da Avenida Bráulio Cavalcante, onde diante da folhagem parada das árvores, apenas nós duas balançávamos numa cadeira, fazendo vento e lirismo. Tecendo vida. Vivi, por você, o ciúme que as crianças têm das outras: meu objeto de exclusividade amorosa. Seu colo era para ser meu. As histórias que você contava, eram para serem só minhas. E uma vez, aquela de morrer - se cantasse uma música -, me fez chorar antecipadamente a sua. ‘Brincadeira minha, menina, chore mais não!’ Dizia isso tão feliz da minha afeição... Garida, Você, em meu coração festeja essas lembranças que me doem agora, em meio a folhas, borboletas, grilos e formigas. Meu jardim sente a sua falta. Sentirei a sua ausência, como a de uma flor efêmera, de raríssima beleza e aroma. Quisera poder recolher suas pétalas, recolocá-las, recompor quem você é. Minha saudade não se pode medir nem pesar, nem as palavras sequer sabem dizer. Uso a minha dor, somente, e agradeço a vida, pelo seu colo, seu carinho, pela semente que foi plantada em mim e fez brotar a flor, minha Margarida, a mais bonita que já conheci e amei.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Magnólia

Naninho esteve aqui em casa. Veio pedir para a minha avó fazer uma ‘caridade’ a ele. Ou melhor; duas caridades: uma a ele e outra à Magnólia, que não vai nada bem da cabeça. “Eu fico com ela Naninho. Passo uma temporada” que o coitado precisa arar a terra dele, plantar, aproveitar a chuva.
Magnólia chegou depois de uns dias, meio assustada e cheia de desconfianças: “Na minha aposentadoria ninguém mete a mão, que ainda vai aparecer quem me roube”! “Não é porque a senhora é minha tia, que eu vou descuidar. Aqui todo mundo é ladrão”.
Veio de mala e cuia, trouxe mochilas de plástico, com uma papelada dos diabos dentro. Chegou fazendo e dizendo coisa que nunca havia feito, nem dito. A ‘pobrezinha’ com o juízo atrapalhado, enveredou também pelo erotismo e deu pra dizer pornografias a torto e a direito pelo meio da casa. Magnólia tem nome de flor, mas não faz jus ao nome. É uma “branquela”, magra e envergada pela coluna troncha, como se não bastasse a ela a corcunda, que carrega o peso dos seus mais de sessenta anos. Se tivesse nascido bicho, com certeza seria um cágado. É gente. Família. Parece com os povos de lá da Mongólia. Olhos empapuçados e miúdos, cabeleira negra, oleosa, na altura dos ombros curvos, presa atrás das orelhas por grampos. Gente feia é o que não falta aqui em casa. Estou acostumada. Até eu mesma que quis me achar bonitinha, fui conferir com a minha avó e ela sinceríssima: não minha filha, você é muito simpática, alegre, mas bonita, bonita, não é não. Acreditei. Ela me quer bem, não duvido. Não tinha pra quê não falar o que pensa sobre mim. Acostumei em ser simpática. Passei a dar valor à simpatia, ser agradável, que ela mesma depois suavizou que não existe ninguém de todo feio e que ser alegre é um dom de Deus que me ama. Disso eu sei também. Acredito nisso, que tenho o exemplo de Naninho, que nem viu a feiúra que vejo em minha prima Magnólia, nem Magnólia viu feiúra nele. Tão branco, do cabelo vermelho, sardento e queimado do sol. Casaram-se. É verdade que já estavam mais pra lá do que pra cá, mas casaram. Deram-se às mil maravilhas. Não fosse a fraqueza de juízo que atingiu Magnólia precocemente, o que fez com que Naninho precisasse ficar separado dela, de férias. Coitado. Saiu daqui com os olhos molhados e a mulher dizendo, “vá Naninho, vá Naninho, cuidar das coisas da gente”. O povo de casa, que ri e chora por qualquer besteira, se comoveu. Ficamos tristes. Cuidei em esquecer do rosto de aflição de Naninho parecendo um desgraçado, a quem os reveses da vida vieram causar desordens e roubar-lhe a felicidade. Conheço a mim mesma. Se ficar lembrando, fico sofrendo. Ele saiu e a casa ficou sem homem. Minha irmã precisava de um, para colocar duas portas sanfonadas nos quartos e foi acudir-se com Maria do Livramento, que faltou um pouquinho de nada pra ser homem. Tem caixa de ferramentas e tudo. Tem até furadeira e entende de brocas. Abriu todos os buracos necessários, que a minha irmã ia indicando: “aqui, Livramento, e mais esse aqui, mais embaixo. Aqui tá bom, Livramento!” E ela toda satisfeita, tirando faísca da ferramenta. Imagino Maria do Livramento de posse de uma metralhadora. Meu Deus! Se precisar, faz miséria! Aquele mulherão, com quase quarenta anos, malfeita, dentro dum short curtíssimo, sobrando banha pra todo lado, fazendo serviço que homem costuma fazer. Não bastasse ter marido e um filho. Admiro. Mulher que mexe com furadeira, sente muito menos falta de homem dentro de casa. E se tiver um emprego bom, menos ainda, Rosa, amiga da casa, é que vive dizendo, e minha avó concordando toda vez, quando ela diz. Magnólia quis porque quis dormir no mesmo quarto que a minha avó dorme. Pendurou no guarda-roupa - a gente ajudando - uma dúzia e meia de vestidos, todos do mesmo modelo, variando somente de cor e de estampa e um cinto fininho, que costuma usar como induto, logo abaixo dos seios, já que sendo encurvada, a cintura fica escondida. Quando cisma, acende a luz do quarto no meio da noite e mexe nas mochilas, para ver se foi roubada, querendo dar falta nas coisas, pra fazer confusão, acusando antecipadamente todo mundo, de ‘cambada’ de ladrão. “Quem não tiver paciência que procure ter. Não vou deixar de fazer uma caridade a Magnólia, ela agora, precisando” Isso não é comigo. Tenho paciência. O que me intriga é entender o porquê, e não é de agora, as suas roupas terem sempre o mesmo modelo. “Nem todo mundo é como você, que vive se abusando de tudo!” Maria do Livramento me disse, que enquanto eu for assim, não devo casar. “É um conselho que lhe dou”. Fiquei com essa coisa na cabeça, martelando, martelando, até descobri que não tenho nada de errado. Canso das coisas, porque esgoto as expectativas sobre elas. Depois de entender até onde chegam, não tenho mais para onde ir. Desanimo. Procuro outras. Naninho reapareceu na segunda-feira. Veio alinhado, de chapéu na cabeça e esperançoso. Quis conversar uma conversa certinha de marido e mulher, com Magnólia. Não pôde! “Naninho, esse povo sabido quer tomar as minhas coisas! E tem mais Naninho, o Presidente da República, cismou com a minha cara e quer porque quer fazer sexo comigo, Naninho! Todo tipo de sexo! Já me chamou pra fazer isso, e isso e mais isso”. Acabou resvalando nas palavras, dizendo com certo gosto, buceta, priquito, cu, bem pronunciados, sem nenhum propósito evidente e fora de hora. O marido ruborizou. Ficou por uns instantes, procurando no fundo dos olhos dela, ver se encontrava a outra, pudica, ou resquícios dela. Balançou a cabeça e deve ter experimentado mais uma confirmação de estranha solidão, porque pareceu respirar todo o ar da sala, para encher-se. Magnólia estava ali e não era Magnólia e é ainda Magnólia; pelos olhos miúdos, inchados, pela brancura da pele, a corcunda e o vestido com cinto, para uma cintura fora de lugar. Eu mesma procuro por ela, aquela outra, quase assexuada, discreta nas maneiras, mas fazendo pergunta, onde estuda, que idade tem, já namora, já é moça? Naninho foi embora triste. Piongo. Magnólia sem culpa alguma, só depois é que deu pela falta dele e andou pela casa procurando, “Naninho, Ô Naninho, porque é que você nunca me disse que pra fazer sexo eu tinha que abrir as pernas? Eu de perna fechada esse tempo todo, Naninho? Ainda acha pouco e desaparece, deixa a casa sem homem. Não tem quem pregue um prego na parede!” A realidade às vezes me amedronta. Às vezes me faz rir. A desordem come os miolos de Magnólia e deixa parte da ordem da vida de Naninho, revirada. Tem coisas que me derrubam. Bom mesmo é pensar do melhor jeito, ver as coisas com leveza, senão a minha alegria periga. Guardo alívios, como quem guarda ferramentas. Quando preciso, vou buscá-los. Perfuro a realidade, derrubo paredes, teto, abro mão dessa casa. Agora... tudo é jardim e Magnólia é somente uma flor.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

UNO e TRINO

O dia amanheceu. A claridade da manhã entrou pela janela do quarto e acordou a contista. Ela espreguiçou-se, olhou em volta e com seus olhos de quem vê em tudo, uma história a ser contada, achou o dia propício para contar uma. Remexeu de si mesma, sua provisão de idéias, buscou no seu lugar de guardar palavras, aquelas devidamente pontuais para escrevê-las, porque as palavras para quem escreve, assim como as tintas para o artista, é sempre preciso juntá-las como quem junta pessoas numa convivência - com perspectiva de autêntica simbiose -, ou coisas e artefatos, um sem-número deles, que se encaixem como num grande quebra-cabeça, perfeito no final.
‘Escrever é uma atitude sagrada. Requer abstração da realidade. Pelo menos é assim para mim’. Ponderou a contista. Tal pensamento suscitou nela desejo de conferir o que pensara e, emproada, cedeu à luminosa e entusiasta sensação de ser honesta àquilo a que acabara de falar. Dispôs-se a iniciar-se no dia. Adiantando-se, caminhou até o banheiro e deparou-se consigo mesma refletida no espelho. Suas inquietações, sendo matinalmente repetidas, voltaram. Medos. Medos, que começavam pequenos e cresciam aos poucos, a angustiavam a cada amanhecer. A vida, a velhice, pois estando ela às portas da meia-idade, temia estranhar-se. ‘Meu Deus, como me aceitarei cheia de pregas!?’ A morte. Medo de deixar as coisas pela metade. Mas que coisas? ‘Quero ver meus filhos casarem, meus netos nascerem, quero isso, quero aquilo’ Em pouco tempo ela se encorajava a compreender o que compreendia todas as manhãs e tornava a esquecer no dia seguinte. Queria o que todo mundo quer. Queria ser eterna. Nunca morrer. Não ter que terminar. Em seus solilóquios sofria a dura realidade dos efeitos do tempo sobre os mortais. Afastou o pensamento que a levava para o mesmo buraco existencial de sempre e moveu-se para longe da frustração que sentia às coisas indeterminadas, porque são do jeito que são e acabou-se, e após estabelecer-se no cotidiano, arrumou-se dentro das horas do dia, e pontificou ‘ainda essa manhã, escreverei um conto, sobre uma conversa que tive com seu Petrúcio, duas semanas atrás. Moisés e a baleia’. Dirigiu-se para o seu cantinho de escrever, invocando a presença do Espírito Santo, ‘e que o Senhor me conceda a sabedoria para a costura dessas minhas palavras às idéias, e a clareza dos seus signos’ Sentou-se em frente à mesa, numa atitude religiosamente compenetrada, e esperou que as primeiras palavras lhe viessem à mente, seguidas das primeiras frases. Descreveria seu Petrúcio. Começaria a contar sua história dando-lhe ênfase de visão. “Seu Petrúcio, taxista, um homem de muita estrada caminhada na vida, ou melhor, de muito pneu rodado, de bigode, alvoroçado, religioso e com uma péssima dicção...” Escreveu uma, duas frases, para em seguida desfazê-las, para depois refazê-las e, desfazê-las de novo. Descontente com o pouco caso que Espírito de Deus fizera à sua oração e desapontada consigo mesma, mergulhou em outros pensamentos. Lembrou-se de seus últimos contos escritos, das personagens femininas, e dentre elas, Violeta. Que rosto teria a sua Violeta? Perguntou-se. Seria o seu? Violeta, porém, pela natureza de personagem que possuía, mantinha-se fantasiosa. Era um dos caprichos da imaginação da contista. Era incomum. Era feliz sem interrupções. Continuamente feliz. Talvez porque viesse a corrigir todos os danos, tropeços, misérias e desencantos que ela não conseguira corrigir, aliás, o tempo não permitira que ela os corrigisse. Suspirou em desalentada agonia, ‘ô maturidade tardia’... ‘por que só agora é que sei mais sobre as coisas? Agora que não posso voltar atrás e fazer tudo direitinho?’ Remoeu, remoeu suas interrogações, entortou a boca para o canto direito, mordeu o lábio inferior à desventura e à ironia da vida, e assim fazendo,distanciou-se do que havia se proposto horas atrás, deixando-se atormentar pelas suas próprias sombras. Angustiada, pareceu diluir-se, na opacidade das névoas das suas costumeiras e amargas inquietações. Entretanto, num devaneio - que só os contos propiciam - Violeta, tendo sido evocada, foi-se arrancando do seu lugar, nas entranhas da sua criadora, agora tão vulnerável, saindo de onde se houvera aderido, e sem perda de tempo, precipitou-se, alcançando caminhos interiores por dentro da outra. Abrindo-lhe as portas, atingiu-lhe a alma, reconhecendo-se. Sentindo-se pessoa, projetou-se múltipla e vivaz, com a natureza elástica e de muitas facetas. E sendo feliz, de nascença, não teria outro procedimento senão esse; continuar a sê-lo contando uma história. Decidiu, ‘nada de Moisés, nada de baleia, vou contar o que me der na telha’. Cheia de si mesma escreveu. Sou Violeta porque a contista gosta de flor. Sou quase simples, não fossem os pensamentos que me atormentam vez por outra. Tenho cismas com certos aspectos da Ciência, e gosto de Deus, porque sendo quem sou o discurso que me é posto lhe devota afeto. Suponho que vem também desse afeto, o meu gostar de gente e de galinhas. Gosto de galinhas. Uma vez Pedrinho chegou bem pertinho de mim, com aquela carinha de quem tem novidade pra contar, e disse todo satisfeito ‘você sabia que a minha galinha pariu um ovo?’ Todo mundo riu. E aí me ocorreu que eu nunca havia pensado em galinhas e ovos, sobre esse ponto de vista! O verbo, parir, sendo usado para classificar a forma como uma criança entendeu o que havia acontecido. A galinha fez ‘nascer’ um ovo. Pedrinho deu nobreza à galinha, como ser vivo, e a mim, me trouxe uma forma de olhar diferente para as coisas, para os seres que não podem dar sentidos a si mesmos. Olho uma coisa, um objeto e penso no que aquilo pode estar sentindo e sinto-o à minha maneira. Quer dizer, empresto alma às coisas para conhecer melhor a minha. Pode ser coisa de gente doida, mas comigo é assim. Nesse momento estou invocando a sabedoria divina, ‘ai, ai meu deus! Quero escrever o meu conto!’ Me aventuro na metalingüística, e agorinha mesmo, na licença poética, para começar a frase com o ‘me’. Para mim, contar uma história é como precisar fazer algo parecido com falsete, é acomodar a voz dentro de um tom, quando não se tem o tom certo para certa voz. Mas como ia dizendo, gosto de galinhas e tento contar uma história sobre elas e eu. Nomeio-as, e com isso passo a querer ainda mais bem a elas. Observo-as, elétricas, zoadentas e indiferentes, mas, sobremaneira, felizes. Tenho mania de ver nelas a fisionomia, o andar e as maneiras de pessoas conhecidas. Essa aqui, parece com fulana, essa com sicrana. Essa parece com a contista, essa comigo. Isso me desperta afetos indeterminados, verborragias, e quebradiças intenções psicoterapêuticas, que no final fracassam em risos sem motivo. Tento justificar simpatia ou não, pelas pessoas, e aprecio transformar tudo em signo indicial, para poder estendê-lo, associá-lo, ir às suas últimas consequências. As imagens povoam os meus singulares vazios. Vez por outra tenho uma vontade danada de ser galinha, cacarejar, bater asas, remexer o chão atrás de minhocas e ‘parir’ ovos. Só para saber com mais propriedade como é ser galinha. O dia todo ciscando!. Essa vidinha simplíssima de ave mexe comigo. Parece tão feliz ser galinha!. Ô que tanta galinha feliz!. Somos, eu e elas, dispostas à alegria inconseqüente, de não saber o porquê do que se é, e gostar de sê-lo assim mesmo. Do coração da palavra que me subscreve como Violeta, cada coisinha em mim é meio poética e dramaticamente alegre. No momento em que escrevo, alguma coisa me alfineta ‘ Violeta, o tempo está passando, conte logo a sua história’! E não é isso que estou fazendo? Mas que história deve ser contada, e de que forma, senão essa? Se não é assim que se conta uma, me perdoem... Falta-me propriedade! Dom de contar coisas com maestria, afinidade com a arte de juntar as palavras e causar efeito, suscitar emoção, de maneira que dê vontade a quem lê, de voltar a ler de novo as mesmas frases, só pra provocar os pelinhos da alma e tê-los arrepiados. Como eu deveria iniciar esse conto? Pensou a contista. Desde quando eu era menina, já me perseguiam essas tais questões filosóficas sobre a vida. Dentro do táxi, de volta para casa, ambos, tempo e vida correm em mim através da paisagem. Enquanto penso sobre como conciliá-los, seu Petrúcio me pergunta se conheço a passagem bíblica que conta o ‘caso da teimosia de Moisés a Deus’ e que por isso Moisés foi engolido por uma baleia. Isso é bom para começar. Suponho. Abandonei às pressas as minhas próprias inquietações e me pus a escutar o taxista, ‘que Deus mandou Moisés ir pregar num canto e Moisés foi pregar em outro, que o ‘navio’ ia afundar, e ele disse que, peraí minha gente, vou pular da embarcação que a culpa é minha, e que Deus, diferente de Jesus - que passa a mão na cabeça do pecador -, é quem é vingativo. Deus, minha senhora, é assim: Desobedeceu, ele passa o camarada na cepa. Quem, seu Petrúcio? Deus, minha patroa, Deus, que ia afundar o navio. Aí a baleia engoliu Moisés’. E foi, seu Petrúcio? E a senhora não sabia, não era? Não. Pois tá lá no antigo testamento. Leia. Com Moisés eu não sabia não. Sabia que isso tinha acontecido com Jonas, mas não disse. Pra quê dizer? A história estava contada e tanto fazia ser Jonas ou Moisés, já que em mim tinha causado um efeito esfuziante, de quem recebe de graça uma revelação, porque esclarecedora demais. A clarividência do taxista, homem alto, cheinho de voz, de fé e de bigode, com uma péssima dicção, chegou a ele através de um conto, muito bem mal contado, se é assim que é possível dizer. Ele me contou sem ter que pedir inspiração a ninguém. Já eu tenho que pedir. Seu Petrúcio me impressionou e, além disso, separou para mim, bem distintamente, Deus, de Jesus, e como consequência, ambos, do Espírito Santo. Onde começa e termina cada um deles misturados num só; uno e trino, sendo o último, aquele que a minha avó anunciava, dentre os três, a pessoa mais fina e melindrosa, porque santíssimo, ‘quem blasfema contra o Espírito Santo, não tem salvação’ Ave Maria. A sua voz ficou gravada em meus ouvidos até hoje! Bach estava certo, minha gente, Jesus é mesmo a alegria dos homens. Quem passa a mão na cabeça dos pobres pecadores é quem de fato perdoa. É quem conhece o sagrado e o profano e sai costurando as coisas pelo meio. Jesus é o caminho do meio. A sabedoria divina vem de onde menos se espera seu Petrúcio! A contista tinha, enfim, retornado das sombras. Tendo terminado seu conto, percebeu que Violeta, cheia de alma, havia-se envolvido na tentativa filosofal de explicar-se, entre ovos e galinhas. Cuidadosamente, encerrou-a. Guardou-a nos mistérios da sua alma e tendo se refugiado na solidão da sua pessoa, guardou-se também, onde se guardam bem guardadas, as reservas do si mesmo. Foram-se as duas, e foram-se as galinhas, as reflexões e as idéias surgidas das impressões cotidianas de cada uma. Tenho a impressão que Violeta é a provisão redentora de sentimentos existenciais que asilam a contista na simbiose de ambas, já que para mim, ela nasce da mesma simplicidade, com a qual uma criança anuncia um ovo parido e torna mãe uma galinha. Que coisa! Eu que o diga agora ‘quem vai fazer algo sou eu. Vou escrever o que me der na telha’. Diante da mesa, acabo de abrir, agorinha mesmo, o meu lugar de guardar sentimentos e juntá-los em palavras para escrever histórias. Arranco-me das diversas peles que me revestem. Crio coragem. Remexo meus afetos. Reconheço em mim as personagens e as aprovo, e dando sentido a cada uma, disponho-me a escrever o meu conto. Era uma vez, a contista, Violeta e eu...

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Quando as novelas nos influenciam

A televisão é hoje uma das grandes propagadoras de valores e comportamentos Não acompanho novelas por achar que se perde tempo com elas. Posicionamento meu, particular, o que não me impede de mesmo assim, sem estar diante da telinha, perceber o efeito que elas, as novelas, fazem na vida das pessoas. Hoje, mais do que a Igreja e a família, a mídia, de um modo geral, é quem dita costumes, valores e comportamentos. Até aí, nenhuma novidade. Esse discurso é caduco. O que me chama a atenção, no entanto, é a maneira como as pessoas reproduzem os "ensinamentos" inculcados pelos meios de comunicação. Tenho observado o acontecimento das "festas Indianas". Elas se tornaram frequentes entre grupos de mulheres que costumam se encontrar com regularidade. Vi há poucos dias, em álbuns do Orkut (e quem não conhece o orkut?), a quantidade de eventos dessa natureza. Isso me faz pensar sobre o assunto. Diante de fotografias, onde além das roupas típicas da Índia, há verdadeiros altares para Ganesha, Shiva e outras tantas divindades asiáticas, até então desconhecidas do grande público de telespectadores, vejo o exemplo do quanto é forte a influência da televisão sobre a sociedade consumidora desse tipo de "produto" que é oferecido. Eis aí uma amostra do senso comum agindo sobre o inconsciente coletivo. Que o digam os psicólogos! Se formos analisar as evidências, veremos que aquilo que as novelas apresentam, seja o que for - o que é para mim assustador -, as pessoas assimilam sem pestanejar. É óbvio que existem exceções, como há em toda regra. Questiono a influência da televisão à maioria. Àqueles que sentam diante da TV e recebem suas mensagens como se fossem lições para a vida. Alguém pode se colocar no lado oposto ao meu e perguntar: Mas a novela trouxe cultura às pessoas. Muita gente ficou sabendo dos costumes do povo indiano, não foi? Então eu pergunto: Você acha mesmo? Ou será que estamos confundindo informação com conhecimento? Tudo que aparece nas novelas é tratado como coisa de consumo e descartável. As pessoas se utilizam dos jargões, apresentados da própria novela, e os incorporam à linguagem coloquial, como divertimento. Desde que a Globo estreou uma novela que entre outras coisas, trata sobre indianos, que escuto a expressão: Are baba. O que significa are baba? Certamente pouquíssimas pessoas sabem, mas dizem. Tudo é apresentado ao público e vira modismo, e como modismo, tem prazo para ser esquecido. Cadê o conhecimento? As coisas ficam no nível da informação, e assim que a novela acabar o interesse cotidiano comum, será descartado. Em verdade, a cultura ocidental e a asiática, nesse contexto, não se mistura. A troca é mínima e volátil. O aprendizado da realidade do outro é vago. A realidade do outro país é caricaturada e o receptor se “diverte” com os costumes, as palavras e os comportamentos do povo indiano, ao invés de aprender a respeitar as diferenças e aprofundar a curiosidade pela história de um país e do seu povo. A distância entre a cultura indiana e a nossa é tão grande, que o máximo que as pessoas fazem - instigadas pela mensagem sutil do consumo -, é reproduzir a Índia que a televisão mostra, em festas. É preciso imitar as novelas. Viver o que as novelas estão vivendo. Fica complicado sair por aí vestidos com trajes indianos. Seria ridículo para nós, ocidentais, suponho que se pense assim. Mas como fica a necessidade de reprodução da lição recebida? Sem pensar absorvemos o que as mídias querem que pensemos. As festas indianas são, a meu ver, uma grande prova dessa influência. Não foi à toa que Jesus, o polêmico Jesus bíblico, disse: “Conhecereis a Verdade e a Verdade vos libertará”.