quinta-feira, 15 de março de 2012
quarta-feira, 14 de março de 2012
Para cicatrizar lembranças
Sol
se pondo atrás da serra e Amélia pensando na vida. Procura ajustar vantagens,
definir conceitos, se imaginar uma vencedora de todas as batalhas. Todas não,
que assim também é demais. De algumas. Mas, de preferência, daquelas bem
vultosas. Aquele tipo de batalha conquistada que perdura pra vida toda como
exemplo à gente mesmo, de que se é forte o bastante. No mínimo, a autoestima
alcança níveis tão altos, que todo o resto passa batido. Às vezes lembrar que
foi possível saltar enormes fogueiras, convém à pessoa. Para Amélia, há anos na
estrada, convém tudo. Cada pequena lembrança de haver sacudido a poeira das
tristezas e desilusões, de haver cicatrizado tombos, passou a ser um entretenimento
destinado aos finais da tarde para o início da noite. Aqui está, pois, bem
sentada no sofá da sala de estar, apreciando as horas escurecendo o dia e assim
ficará até ver as sombras descerem sobre os móveis. Não acende nenhuma luz da
casa. É um propósito, como parte de um ritual, esperar que tudo escureça. Daí
ela vai sair tateando até chegar aos interruptores.
Amélia
é pontual, metódica e cuidadosa em retornar àquelas dores passadas, às que mais
lhe doeram. Flagelação? Nem pensar! É aquilo mesmo de confrontar-se com
memórias para ver se pode se comportar como se não tivessem acontecido com ela
ou como se não tivesse sido ela a protagonista de ingratidões e desonestidades.
Talvez porque comprove que está livre do peso das mágoas, talvez porque queira
medir-se a si mesma: a antiga Amélia chorosa, a esta nova Amélia que aprendeu a
se conhecer e a interpretar sutilezas embutidas nas passagens dolorosas de sua
vida. Tem coisa melhor do que remexer pra lá e pra cá em emoções e descobri-las
inertes?
Vez
por outra, no entanto, quando pensa que não, é sacudida por reações inesperadas.
O coração palpita, umedece os olhos e as lágrimas aparecem abundantes. Coisas
que ainda não se podem abrir nem confrontar, de sorte que ela se julga no
controle e que vaticina de si pra si: “O que não se é capaz de enfrentar, não se
enfrenta!” Guarda as lembranças de volta, rapidamente, para que elas não
evoquem outras e lhes invadam, puxem-na, e que puxem mais outras, e que ao
final, ela sabe, volvam em sentido contrário e a traguem para um lugar sombrio
e difícil de retornar.
Mas
por que diabos isso acontece sempre que a tarde declina? Demora nada e tudo passa
do dia pra noite. “Isso é tão sugestivo à reflexão”, Amélia comentou com a
vizinha, numa conversinha de pé de muro. Pois é... É como fechar para balanço,
remendar, remediar, consertar as fissuras do coração. Ir arrumando direitinho, as
camadas de vida no fundo das gavetas de dentro da gente. Quem pode se livrar de
lembranças? Mas com o tempo a gente sente alívio de ver que muitas desbotaram.
Aquelas, bem pontiagudas, estão como agulhas rombudas, que a gente usa pra
fazer peças de artesanato em estopa. É que nem coisa de alquimista procurando
fórmulas para transformar lixo em ouro. É bem isso que Amélia é: alquimista. Segue
aos pouquinhos penetrando velhas dores. Caprichosa no método, medindo limite,
medindo a própria dor quase atemporal, se põe a arrancar as cascas de suas
antigas feridas, usando como bálsamo, doses homeopáticas de dores menores sobre
dores maiores, para cauterizar sofrimentos.
Retorna-se
levantando para tatear interruptores, acender luzes, retirar-se com vida dos
escombros evocados e remover-se da penumbra que escurece a sua presença sobre o
sofá da sala. Sacode-se, patenteia-se, implode catástrofes e respira devagar, o
odor das sombras que evaporaram. As lembranças de Amélia são que nem tensão de linha
entre os dedos, mediando pontos na agulha, que ela cose, vitoriosa, bordando
nelas extensas cicatrizes. São lembranças vantajosamente ajustadas em sua
memória, que não se esquece de lembrá-la de velhas dores, ainda que elas,
vencidas, já não saibam doer.
segunda-feira, 12 de março de 2012
sábado, 10 de março de 2012
A cultura alagoana perde Dona Clarice, a mestra rendeira
| Na foto, da esquerda para a direita, Dona Clarice |
Na última quinta-feira, a mestra artesã, que tinha 79 anos, se submeteu a uma cirurgia de
vesícula, no Hospital Chama, em Arapiraca, tendo passado bem.
Apresentando complicações na manhã de hoje, veio a falecer. Dona Clarice
deixa enlutadas suas três filhas,
sua cidade e a cultura das Alagoas. Deixa-nos uma mulher que era um dos
Patrimônios vivos da Terra dos Marechais. Seu sepultamento aconteceu em
São Sebastião, sua terra natal, às16h30.
*Texto escrito em 2009 e publicado no Ensaio Geral/CadaMinuto
Há muito mais de dez anos, talvez, uns vinte e poucos, conheço dona Clarice, a
mestra artesã da renda de bilro, lá de Salomé, que de uns tempos para
cá tornou-se São Sebastião, cidade localizada no micro-clima
do agreste alagoano. Tanto ela, como Gustavo Leite, foram-me
apresentados pelo meu irmão, ambos em ocasiões distintas, entretanto,
num desses encontros familiares, em torno da sua mesa da cozinha.
Conheci-as sem cerimônias nem honrarias e sem os prefixos que acompanham
e nomeiam as pessoas, mas que vêm a torná-las e a tais instantes,
momentos luminosos. Diga-se de passagem, conhecer pessoas na cozinha de
uma casa, dispensa quaisquer formalidades.
Dona Clarice e eu trocamos um aperto de mão e um abraço apertado.
Pessoas como ela, costumam demonstrar plenamente a satisfação de
conhecerem as outras e essas coisas se traduzem, também, em nenhuma
reserva de contato físico, aproximado, afetuoso e forte.
No entanto, abraçar dona Clarice é como trazer para o abraço uma taça de cristal. Mulher franzina, de baixa estatura, esconde no corpo frágil, a maestria das mãos e o talento que lhe ocupa com o ato de fazer, o debulhar das proezas da sua imaginação. Ela cristaliza o momento das linhas que se entrelaçam, na criação de rendas espetaculares, largas, estreitas, delicadas, de diversos motivos.
No entanto, abraçar dona Clarice é como trazer para o abraço uma taça de cristal. Mulher franzina, de baixa estatura, esconde no corpo frágil, a maestria das mãos e o talento que lhe ocupa com o ato de fazer, o debulhar das proezas da sua imaginação. Ela cristaliza o momento das linhas que se entrelaçam, na criação de rendas espetaculares, largas, estreitas, delicadas, de diversos motivos.
O belo artesanato é elaborado a partir de rústicos instrumentos. Bilros
e linhas sobre uma almofada, e à frente dela, a mestra Clarice
Severiano dos Santos, que joga as pequenas peças de madeira, para um
canto e para outro, as peças que dançam um esquisito balé, no espaço
vertiginoso das suas mãos.
Um balé de dedos ágeis, como aranhas tecendo arte, para registrar no tempo a presença de uma mulher simples, que tem a natureza de uma daquelas Parcas, deusas gregas, que tecem o fio do destino humano.
Um balé de dedos ágeis, como aranhas tecendo arte, para registrar no tempo a presença de uma mulher simples, que tem a natureza de uma daquelas Parcas, deusas gregas, que tecem o fio do destino humano.
Dona Clarice preconiza com suas rendas, a nossa intrínseca necessidade
de criar e recriar o belo, como conexão àquilo que lembra a nós mesmos o
que somos e do que somos capazes. E somos, ainda, capazes de resistir
às intenções da massificação cultural que elimina a originalidade da criação individual, como expressão do eu sou.
quinta-feira, 8 de março de 2012
De olho na mulher
Festejar a entrada da mulher no mercado de trabalho e a sua evolução
econômica, que determina maior liberdade, inclusive a sua liberdade
sexual, é assunto em praticamente todos os veículos de informação de
hoje. Pois é. Um dia especial no calendário para homenagear a mulher,
suas conquistas e seus feitos. Mas, se debruçar sobre outras vertentes,
associadas à propagada ascensão feminina, é tarefa que vale a pena.
Parar e refletir sobre a condição da mulher na sociedade atual, requer
certa coragem para assumir que logo ao lado das nossas conquistas, está o
seu oposto, e que ele é um preço alto que somos chamadas a pagar, quer
queiramos ou não.
Uma amiga jornalista do jornal Primeira Edição (http://primeiraedicao.com.br/noticia/2012/03/08/mercado-de-trabalho-x-familia-a-mulher-precisa-mesmo-definir-uma-so-posicao) quer saber minha opinião, sobre: Mercado de trabalho e família versus Mulher, e se eu acho que diante da evolução econômica e histórica da sociedade a mulher precisa definir onde ficar (carreira ou família).
Em suma, há possibilidade de conciliação dentro da realidade em que vivemos?
Uma amiga jornalista do jornal Primeira Edição (http://primeiraedicao.com.br/noticia/2012/03/08/mercado-de-trabalho-x-familia-a-mulher-precisa-mesmo-definir-uma-so-posicao) quer saber minha opinião, sobre: Mercado de trabalho e família versus Mulher, e se eu acho que diante da evolução econômica e histórica da sociedade a mulher precisa definir onde ficar (carreira ou família).
Em suma, há possibilidade de conciliação dentro da realidade em que vivemos?
Difícil opinar, se a gente não tiver certa compreensão dos contextos,
da influência direta do Sr. Mercado, como a mola mestra do mundo
moderno, e sua influência na construção de nossos conceitos e escolhas, e
sobre o que realmente é importante para nós mulheres.
Afinal, é cada vez mais complicado procedermos fazendo escolhas. Praticamente, somos guiados por mecanismos que escolhem quase tudo por nós.
Afinal, é cada vez mais complicado procedermos fazendo escolhas. Praticamente, somos guiados por mecanismos que escolhem quase tudo por nós.
Lutamos tanto tempo por igualdade de direitos dentro da sociedade, que
nos esquecemos de definir em que se baseiam tais direitos. Direito à
liberdade sexual, direito de sair do universo caseiro, com ocupações
caseiras, direito a ocupar espaços antes destinados apenas ao homem?
Quais os nossos princípios éticos e morais definidos para escolhermos como proceder diante de tanta liberdade? Que tipo de liberdade tinham ou têm os homens, que as mulheres queriam para si? Em que se baseia esta noção de liberdade e igualdade?
Quais os nossos princípios éticos e morais definidos para escolhermos como proceder diante de tanta liberdade? Que tipo de liberdade tinham ou têm os homens, que as mulheres queriam para si? Em que se baseia esta noção de liberdade e igualdade?
Acredito que pegamos como pressupostos, noções estereotipadas da
liberdade questionável do masculino, e as sugamos como referência à
nossa vida. E foi aí que deixamos de acrescentar à nova conquista da
liberdade adquirida, um colorido novo, reflexivo e condizente às
questões femininas.
Saímos da condição de submissão e entramos em outras instâncias que reproduzem a mesma submissão disfarçada pela propaganda de tempos novos à mulher e camuflada pelo que a liberdade econômica nos proporcionou.
Deixamos de rever a nossa condição, a nossa importância como mantenedoras, educadoras, filtradoras de humores, companheiras, como atividades menores, dando ênfase ao trabalho minucioso da mulher, como parte da estrutura social.
Deixamos de questionar o nosso lugar na dinâmica social, na família, na
criação dos filhos. Apesar de vermos as mudanças, as novas condutas
familiares, onde homens e mulheres têm a mesma obrigação perante a
criação e educação dos filhos, algo de muito atemorizador tem aparecido
dessas experiências.
O que não está dando certo, afinal? Enquanto saímos, homens e mulheres para engrossar as fileiras de ‘operários’ do mercado, no modelo econômico atual, com o objetivo de melhorarmos o nível e as condições de vida da família, estamos contribuindo para a sua decadência.
O que não está dando certo, afinal? Enquanto saímos, homens e mulheres para engrossar as fileiras de ‘operários’ do mercado, no modelo econômico atual, com o objetivo de melhorarmos o nível e as condições de vida da família, estamos contribuindo para a sua decadência.
E do que precisamos de verdade, para termos uma vida confortável? Sermos os consumistas que nos transformamos?
Vejo muitas jovens senhoras, que estão ‘escolhendo’ se posicionar no
mercado com uma avidez de fazer pena.
A realização de experiências voltadas para a sua interiorização, a experimentação de prazeres mais profundos, como a experiência de ser mãe, por exemplo, fica relegada a terceiro plano.
Muitas extrapolam o limite dos anseios e querem cada vez mais. Mais títulos, mais sempre mais, sem pararem para se perguntar se essa necessidade é sua ou se está respondendo à proposta de realização do mercado.
E tal proposta, sabemos, aposta no consumo como referência de sucesso. Se você pode consumir, você é feliz. Mas é só isso? A vida se resume apenas na satisfação de prazeres externos e pulverizados facilmente, para atender a outros?
A realização de experiências voltadas para a sua interiorização, a experimentação de prazeres mais profundos, como a experiência de ser mãe, por exemplo, fica relegada a terceiro plano.
Muitas extrapolam o limite dos anseios e querem cada vez mais. Mais títulos, mais sempre mais, sem pararem para se perguntar se essa necessidade é sua ou se está respondendo à proposta de realização do mercado.
E tal proposta, sabemos, aposta no consumo como referência de sucesso. Se você pode consumir, você é feliz. Mas é só isso? A vida se resume apenas na satisfação de prazeres externos e pulverizados facilmente, para atender a outros?
São agregações à imagem e não à mulher, que é sempre mais fragmentada.
Espírito e corpo, distintamente separados. Acredito que ninguém pode se
sentir realizado parcialmente, a menos que se recuse experiências
prazerosas no campo da realização pessoal, desde que se defina que tais
realizações não são importantes.
E quanto mais inconscientes estivermos das nossas próprias e particulares necessidades, mais iremos sofrer porque a nossa balança entre os mundos interno e externo, estarão desequilibradas. Há um preço a pagar por isso e nós temos que pagá-lo.
E quanto mais inconscientes estivermos das nossas próprias e particulares necessidades, mais iremos sofrer porque a nossa balança entre os mundos interno e externo, estarão desequilibradas. Há um preço a pagar por isso e nós temos que pagá-lo.
Basta ver a violência, o estupro, a morte, que tem aumentado entre as
mulheres, vítimas dos companheiros, a fragmentação da historicidade da
mulher no denegrir da imagem feminina, no abuso da propaganda e da
publicidade que a veicula como um corpo-moeda-de-troca, com prazo de
validade para uso.
Tudo isso configura o desrespeito à importância da mulher como co-partícipe na construção da história da humanidade. E demonstra que o que se entende como liberdade e igualdade entre os sexos, está longe de ser algo concretizado em toda amplitude. Não é. Tem estrada para se percorrer ainda. Muita estrada.
Tudo isso configura o desrespeito à importância da mulher como co-partícipe na construção da história da humanidade. E demonstra que o que se entende como liberdade e igualdade entre os sexos, está longe de ser algo concretizado em toda amplitude. Não é. Tem estrada para se percorrer ainda. Muita estrada.
E o que é pior é que pouquíssimas mulheres enxergam isso.
terça-feira, 6 de março de 2012
segunda-feira, 5 de março de 2012
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