terça-feira, 2 de agosto de 2011

Envelhecer: uma pretensão da alma


Era 1h da manhã de hoje quando a minha mãe ligou para desejar um feliz aniversário. Eu dormia e acordei assustada com o barulho da chamada. Literalmente, à primeira hora do dia 2 de agosto de 2011, celebramos, eu e ela, a minha chegada ao mundo, que até hoje, 51 anos depois, me perturba, me inquieta, emociona, e me fascina.

De volta à cama, pensei a vida, seus significados, que com o passar do tempo, sempre requerem de nós, novas leituras. Atualizo as minhas; como quem assiste a um filme mais de uma vez, ou volta às páginas de um livro lido tempos atrás. Cada vez que se retorna às cenas, ao cenário da nossa própria história, é possível embutir novas emoções, remover angústias e colocar ação em buracos que ali se encontravam, esperando para serem ocupados.

Aprofundar a tessitura do já feito dá dimensão ao tempo e extrapola o espaço. Não me interessa durar apenas, comemorando anos estendidos na comiseração da medicina, que prolonga dias à idade avançada que se aproxima. Quero viver intensamente, perdurar, não para constar na lista das estatísticas de prolongamento vitais.

Quero sim, poder com a idade, expandir a minha clareza sobre os significados da vida. Ter crescimento psicológico, promover a simbiose entre meus mundos: o interno e o externo. Crescer, em detrimento das limitações físicas, adentrando a longevidade, mas, de modo a romper as redomas do tempo, para que eu possa alcançar o miolo da minha sobrevivência, a real longevidade, eterna, porque não conhece ponto final e vai além dele e de mim.

Estando inserida na realidade do mundo de hoje, que corre numa busca desenfreada pela eterna juventude, não me preocupam as fórmulas e os mecanismos para esconder a idade que tenho, porque existe a diferença entre o envelhecer e o ser velho. E o tempo, ele não só destrói, mas nos fortalece ao mesmo tempo em que enfraquece. Quando se trata de apreciarmos os seus efeitos sobre a alma e sobre os aspectos da fisiologia.

A visão que temos do tempo, como Cronos - divindade suprema da segunda geração de deuses da mitologia grega -, que no dizer do poeta português, Fernando Pessoa: “Não se resiste ao deus atroz que os próprios filhos devora sempre”, exclui o perdurar, como outra sua característica. Ele, o tempo, prossegue indiferente à nossa idade ou à nossa condição de seres que envelhecem. O que o ele devora é a nossa juventude. Quando se ouve o comentário de que o tempo estragou as pessoas, é a fala da juventude propagada, não a da idade.

Aniversario. Estou na meia-idade.
Ao invés de seguir de braços dados com a hipocrisia da cultura que eleva a juventude e ao mesmo tempo a engendra, desatende, banaliza e acaba por mantê-la aprisionada em suas malhas, eu aceito incorporar a velhice, preservando e transmitindo o que tenho aprendido com a minha própria experiência. Dou forma nos resguardos da vida real, ao vigor do meu caráter.


2 comentários:

  1. Arthur schouperhouse , disse: " viver é sofrer!"
    Kali gibran disse: " A vida é uma ponte!"
    Jarbas Ferreira disse: " Viver é o avesso do avesso!".

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  2. Que bom que você voltou, Jarbas!!!! OBRIGADA!

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