Hoje é Dia do Folclore

Ilustração: Goretti Brandão

Se há um folguedo que tenho verdadeira devoção é o Pastoril. Ainda menina, dancei anos a fio, na escola que estudei. Apaixonada pelo cordão azul, eu subia no palco do auditório, durante o encerramento do período escolar. Era o mês de dezembro. As diversas canções, que aprendi a cantá-las para acompanhar todas as jornadas, lembro-me delas e canto até hoje.

A primeira vez que participei de um pastoril eu nem estudava ainda. Saí de borboleta, com asas feitas de arame e revestidas com filó amarelo. Nem sei que idade tinha, mas lembro que éramos, eu e outra menina, duas borboletas, uma azul e uma amarela, que entraríamos em cena - numa modalidade de pastoril para crianças pequenas, do jardim da infância -, como de fato entramos, depois de termos chorado, assustadas; presas que ficamos as duas, por nossas asas que se engancharam.

Na minha cidade sertaneja, Pão de Açúcar, havia um belo pastoril ensaiado por dona Zélia, uma senhora alta, morena e animada, que se apresentava no coreto em frente à Igreja Matriz do Sagrado Coração de Jesus, durante as festividades natalinas. Aquilo era um espetáculo! A comunidade toda levava cadeiras e se arrumava, lado a lado, para ver o pastoril dançar. Mesmo criança, eu sentia uma profusão, densa e envolvente, que transpirava harmonia.

Era como se todos da cidade fôssemos uma coisa só partilhando instantes únicos de intensa magia. As pastorinhas em fila, vestidas de vermelho e azul me encantavam, o som rítmico dos pandeirinhos tocando, os personagens: o pastor, a cigana, a borboleta. Tudo aquilo, visto ano após ano, era muito mais do que uma simples apresentação ou festejo, era um ritual que consolidava alguma coisa entre todos. Realizava-se ali a consolidação da identidade coletiva. Outro dia, assistindo um filme de Fellini, senti essa mesma sensação diante de uma cena, espetacular, onde havia um ritual que comemorava a passagem do inverno para a primavera.

As pessoas traziam para a praça o que não era mais usado em casa e faziam uma enorme fogueira queimando tudo, enquanto dançavam, finalmente, em torno dela. Via-se, ou melhor, sentia-se claramente, o fortalecimento da identidade ordinária àquelas pessoas, que juntas celebram o que tem influência e importância para todos: uma nova estação iniciada com o término da outra. A ritualização surge para materializar essa passagem. Aquilo ali é folclórico, se entendemos que folclore não se restringe apenas aos folguedos, mas a tudo o que diz respeito ao sentimento, ao pensamento e à ação que envolve um número significativo de pessoas.

Transferir o conjunto das experiências comuns para as representações metafóricas nos espaços da cultura é uma maneira onde a vivência do folclore é realizada. Nossos rituais: a dança, a roupa típica, as comidas, as crenças se exercitadas, são extensões que fortalecem nossa identidade e funcionam como somatório de preservação da personalidade das gentes, dos espaços demográficos, enquanto cidades, regiões e países, distintos. Mesmo com as mudanças trazidas com a globalização; a mestiçagem de pensamento, das constantes interações entre nossas experiências e a dos outros, é importante que não percamos a força expressiva daquilo que pontua quem somos.

Comentários

  1. Gorete,
    andei navegando no seu blog,não o conhecia ,gostei bastante.
    Parabéns. Um grande abraço.
    bjsss, Fátima

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Sagrados, como o fogo de Prometeu

Amanhã já é ontem

O que não se pode pesar