terça-feira, 20 de setembro de 2011

Primavera chega ao Museu Palácio Floriano Peixoto: nas imagens das águas, a memória margeada de flores da poesia alagoana


O evento, com boa programação, acontece até dia 25, no próprio museu, antigo Palácio do Governo


Foto: Goretti Brandão
A 5ª Primavera dos Museus, que teve início na noite de ontem e segue até dia 25 deste mês, trouxe em sua abertura, a exposição: Memória das Águas, do repórter fotográfico Pablo de Luca. 

As imagens colhidas pela lente e a sensibilidade do autor, conversam com a poesia alagoana. José Márcio Passos, diretor do MUPA, Museu Palácio Floriano Peixoto, desde abril deste ano, é o responsável em trazer para o público as flores da reciprocidade entre as duas manifestações artísticas. É com ele que converso.

_Ensaio Geral: Como surgiu a ideia para a criação da primavera dos museus?
_R: É uma iniciativa do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram/MinC). Tem como objetivo sensibilizar os museus e a comunidade para o debate sobre temas da atualidade.

_Ensaio Geral: A que público se destina a 5ª Primavera dos Museus?
_R: O público a que se destina esta ação são pessoas e grupos que têm interesse no tema do evento deste ano: “Mulheres, Museus e Memórias”. Estudantes, artistas, professores, etc.

_Ensaio Geral: Para a abertura do evento, a exposição fotográfica de Pablo de Luca, ilustrado com poesias de poetas alagoanos, seria a busca da transversalidade entre as interfaces da memória?
_R: A emoção é a principal busca desta união entre as imagens fotográficas e a poesia. É claro que cada uma delas tem a sua força. Entretanto, juntá-las, torna a busca pela emoção e o melhor entendimento mais significativa.

_Ensaio Geral: Tem surgido, felizmente, uma nova concepção de museu, onde se contextualiza, o papel social e educacional, baseado em ações inclusivas. O principal objetivo é possibilitar um diálogo entre o visitante e o patrimônio. O que está explícito e implícito no trabalho "Memória das Águas"?
_R: Um trabalho fotográfico com belos detalhes da vida, das alegrias e tristezas das pessoas que vivem do que as águas lhes oferecem. Uma técnica em preto e branco de grande sensibilidade. Imagens que inspiram poesia.
O que está implícito:
“O que vi e ouvi deixei impresso em imagens fotográficas”
Uma das atividades que é característica da região das lagoas e do litoral de Alagoas e que me chamou muito a atenção, é a pesca artesanal. O homem no meio da paisagem, em contato direto com a natureza e se servindo dela para seu sustento. Também a utilização de seus instrumentos de trabalho: velas, redes, currais, caiçaras, jangadas, canoas e embarcações em geral. Com todas suas formas e movimentos, com seu atrativo visual da coisa típica, tradicional que faz parte desta cultura, com uma simplicidade que só existe no Nordeste do Brasil.
Observei tudo aquilo e “fiquei incrível”...Então, não podia deixar de registrar, documentar, guardar na memória das imagens, para que com o tempo não se esqueçam como foi. E, quem observar, poder comparar, fazer alguma pesquisa ou estudo antropológico. Por esses motivos, me valendo da minha máquina e da minha profissão de foto jornalista, fotografei com meu olhar estrangeiro, com a intuição de um entusiasta, com alegria, com arte e poesia, mas principalmente com toda a cultura e sensibilidade que levo dentro de mim.
Pablo De Luca - Repórter Fotográfico

_Ensaio Geral: Observa-se que entre os museus e as imagens, sejam fotográficas ou cinematográficas, existe algo bastante comum: a necessidade da contação de histórias. Ambos são locais de construção de leituras e narrativas. _Quais os critérios utilizados para conciliar o olhar imagético de Pablo de Luca, à narrativização dos poetas?
_R: Esta conciliação, esta união, foi feita por mim durante uns 40 dias de “viagens” com as fotos e os poemas escolhidos. Variados sentimentos fizeram parte dos momentos da escolha, do casamento de cada foto com seu poema. Exemplifico alguns desses momentos:
-um barco parado à beira d’água, plácido, tranqüilo, fala que “o silencio tem suas audiências”.
-coqueiral em primeiro plano. Depois águas prateadas, paradas, esquecidas. E o poeta diz: “A lagoa ficou prata. A lagoa prateou. Não tem vida. Não tem brilho. Não é nada. A lagoa pranteou”.

_Ensaio Geral: Quais os poetas que ilustram a exposição fotográfica de Pablo de Luca?
_R: José Inácio Vieira de Melo, Judas Isgorogota, Anilda Leão, Chico Nunes das Alagoas, Paulo Renault, José Paulo da Silva Ferreira, Lucia Guiomar, Zé do Cavaquinho, Maurício de Macedo, Jorge de Lima, Arriete Vilela, Carlos Moliterno, Ledo Ivo, Goretti Brandão, Maria Beatriz Brandão Sá (Tizinha), Elizabeth Carvalho Nascimento, Ricardo Cabus, Sidney Wanderley e Fernando Fiúza

_Ensaio Geral: O museu, então, trabalha com a possibilidade de ser o mediador da aprendizagem para o público?
_R: Acho sim, que os museus podem e devem fazer o papel não só de mediador como de complementador da aprendizagem, fornecendo informações não obtidas nas escolas.

_Ensaio Geral: Ao estabelecer novas formas expositivas, você acredita que isso possibilite novas práticas discursivas e educativas?
_R: Desde quando estava à frente da direção do Museu da Imagem e do Som – MISA busco novas maneiras de expressão artística. O casamento da fotografia com a poesia vem desde 2008, quando fui o curador de uma exposição do fotógrafo Neno Canuto sobre a Infância nos Assentamentos. À época tive o apoio da professora Elaine Raposo que buscou os textos poéticos para juntar às fotos do Neno Canuto. Devo ter aprendido na ocasião a força dessas duas expressões artísticas, juntas. Sim, eu acredito que esse tipo de apresentação do trabalho artístico provoca novas práticas discursivas o que nos leva a uma melhora na educação.

_Ensaio Geral: Quais os novos projetos e planos para o MUPA?
_R: Meus planos são o de sempre guiar o Museu como um carro que embarca todas as manifestações artísticas e educativas possíveis. O que temos de fixo, parado: Coleção de obras do pintor Rosalvo Ribeiro, as pratarias e louças do antigo Palácio do Governo, o mobiliário deste mesmo Palácio, o espaço Ledo Ivo e o Memorial Aurélio Buarque de Holanda, além da especialíssima arquitetura do prédio, já está pronto, já existe, está guardado. Já é uma aula de história alagoana a visitação deste acervo.
Transformar o espaço do Museu num local vivo, pulsante, onde o aprendizado seja proporcionado continuamente, em especial ao público infantil.

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