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Fora do contexto

Menina, então você soube? Seu Cristóvão veio da rua com o cão no corpo e saiu quebrando tudo. Quando dona Dida foi chegando viu que a porta já estava cheia de gente. Fiquei sabendo que o seu Chico, amigo da casa, foi atrás dela, avisar. Tinha ido fazer uma visita na rua de cima e levado os netos. A primeira coisa que avistou, foi a cristaleira que estava no chão, vidro quebrado por todo lado. Uma bagaceira só. Logo ela que tem tanto cuidado em proteger as crianças do que machuca o coração. Irene, você precisava ter visto. Eu não, que não gosto de ver coisa assim violenta que me encho de tristeza. Perco o dia. Tanto que nem quis falar pra Toinho. Você conhece a natureza dele. De pouca fala, ainda balança a cabeça como lagartixa, quando quer fazer favor. Parece não estar nem aí para o sofrimento alheio e disposição - que é bom -, pra dizer qualquer coisa, não tem. Não se comove e nem consola ninguém. Se vou contar qualquer coisa minha e que me entristece, uma raiva, decepção, ele diz com...

Entre vírus, chineladas, e sem uma vela na mão

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Entre vírus, chineladas, e sem uma vela na mão Goretti Brandão   Jornalista e escritora Tossiu, e eu olhei pra ela com receio. A ver pela minha cara, Violeta me disse, olhe Odete, minha tosse é seca assim mesmo. É desde sempre e a minha garganta, se interessa saber, me dói mais à noite. Tenho alergias, você nunca notou? Nesses dias, agora, quando acordo, tenho medo de estar com febre. Mão no pescoço a ver se a temperatura subiu. Não subiu? Então agradeço a Deus. Sorte minha. Mas só amanheço no susto, como se tivesse acabado de vir de muito longe, correndo, e me livrasse por um cabelinho de sapo, do infeliz do vírus. Vou ver Aprígio que dorme que nem anjo e que acorda com um bom dia, Violeta! Saudação de sempre, mas que se faltar, eu cismo logo. Sabe-se lá? Tenho enveredado por pensamentos repetitivos, que se contasse pra Nena ela ia dizer, tá doida, menina? Eu, não. Nem pensar. Maluco de verdade eu conheço uns dois. O medo, não nego. Mas, o meu confronto com ele é na sexta-feira de...

Poesia

Manhã dessas em Santana do Ipanema, comecinho de inverno. Nem calor nem frio. Raios de sol sobre as calçadas, indo sobre pés doídos, descendo essa porção de ladeiras, a minha sombra que teima em andar comigo, quebra-se nos meios-fios, esgueira-se atrás de mim, oblíqua, e que a si mesma verga, dobra-se nas esquinas fazendo longos vértices. Mais malabarista do que eu, unilateral nos pensamentos, e precisando urgente de reconhecê-la. A praça, seus bancos e as trepadeiras. O vai-e-vem dessa gente a criar cenários móveis, imediatos e únicos. À menção de um cumprimento, ali, e um idoso que ao mesmo instante, atrapalha-se com as próprias muletas, tropeça e cai no asfalto. Acudido, ainda mais atordoado, retoma a marcha. Adiante, tranquilos, vira-latas dormem a sono solto sobre o passeio do centro da cidade. Assombra-me a moldura que o tempo nos dá e às coisas e à cidade. Têm um quê de eu ter sonhado mais do que vivido? Sei lá! Sei que as ruas, as ladeiras, o povo bom, os dias de sol e d...
Tinha vindo de um lugar qualquer, como quando em sonho, se aparece no cenário sem preâmbulo algum. Inaugurava-se, pois, não obstante ter-se pensado neutra, vazia de palavras, estando com os pensamentos desarrumados e turvos. Ali estava e haveria de dar sinal de presença. Bocejou, voltou-se calmamente para o lado esquerdo da sala, viu as fotos antigas na parede, cuja tinta pedia pintura nova. Duas ou três demãos. Fora disto havia a amostra do sol escaldante e o seu recorte feito pelo enquadramento da janela, a sombra da copa da árvore no chão de terra dura, o calor abafado e a sisudez de um campo exausto e sem flores. Seu olhar luziu, reluziu e estrelou-se pitagórico sobre às três da tarde. Àquela hora Mariana deveria estar na cozinha brincando com meia dúzia de bonecas. Kátia Lilian retornou inteirinha, com o seu cheiro à lembrança do vestido de cassa cor-de-rosa, sapatinhos brancos de plástico e o camiseiro com cortina nas portas. E ela ali, tão ricamente vestida e tão pobre das mão...

O Gato

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A cama sobre a qual deitara tinha um cheiro de naftalina e resquícios de alfazema. Tinha também, apurando o olfato, fragrância de l eite de colônia em alguma parte da colcha, onde inalava-se uma constelação simbólica de afetos. Dormia-se um sono breve e tardio, fora de hora. Um cochilo daqueles que se nos roubam os olhos pesados. Havia fitado por alguns minutos, quatro elegantes gueixas, de porcelana branca em trajes típicos, sobre uma pequena prateleira, cujo fundo suave, tinha flores vermelhas e pequenas rosas em decupagem . Preparavam-se as gueixas para tocar. Chegou mesmo a ouvi-las afinando seus instrumentos. Mergulho profundo. Acordou com uma das mãos dormente e meio aérea, como quem em viagem, abre os olhos sem saber onde está. E quem sabe mesmo onde se está em certas horas? A cama  sobre a qual sonhara exalava esquisitice. Voltara do reino dos sonhos. De um não-sei-quê e de um nunca ter estado em um lugar de onde se sente imensa saudade. Aonde iria depois daquele estranho...
Odete contava que no dia do nascimento de Violeta, nascera também a primeira flor do lírio eucarístico de Meninha. Teria sido aquilo coincidência ou sincronicidade? De certeza, anos depois, havia um caderno de capa dura, cor vinho, que apresentou-se a ela quando mexia em quinquilharias. Também, eram reais aqueles formigões albinos, que antes, amontoados no canto das gavetas velhas, alvoroçaram-se quando ela as abriu e, confusos, saíam em todas as direções, avançando sobre os livros, como um batalhão de soldados desertores. Estes, que fechados e no escuro, a não se sabe por quantos anos, mantiveram presas as palavras e sobre as palavras, os escritos que ninguém lia. No caderno, um relicário onde estavam descritas as emoções de importantes datas, onde Odete escrevera, não pouco emocionada, sobre Violeta. Aquele dia em que viera ao mundo e suas primeiras impressões. Era rósea, com pés e mãos perfeitas, sem pau-de-venta e que quando a viu chorar, pode ver que as lágrimas cruzavam-se sem ...

Perséfone

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É assim. Quando o tempo perde a intensa luz sobre as coisas, quando os reflexos que pontuam o brilho diamantado vão sumindo da superfície de todos os lugares, alguma coisa destranca meu baú de palavras. Até então meus sentimentos, muitos, tantos, perdem a via de interlocução. Todo sentido é feito alma à alma. O dizer metafórico, o concluir, o por para fora é sagradamente impossível. É tão profundo e sacro que pronunciá-los, os sentimentos, é como profanar o silêncio entre o intocável e a materialidade. Mesmo assim longe de serem expressos, não perambulam. Guardam-se.  Antes, eu tinha medo da escassez da escrita. Do papel em branco, da caneta descansando entediada sobre a mesa. E se a mim o sentir a alma das coisas tivesse sido negado? Besteira. Basta-me o tempo e o seu anúncio da constância do sol morno, os primeiros pingos d’água desenhando transparências na transparência dos vidros da janela, o ritual sonoro desse movimento, como um mantra ao coração, e sem equívoco, esca...