Viva São João do Carneirinho!


De cabelos cacheados, vestes feitas de pele animal, e trazendo no colo um carneirinho, São João Menino, entre bandeirolas, nos devota um olhar suave e um quase sorriso. No salão, meninas e meninos correm de um lado a outro, enquanto professoras se desdobram no ofício de contê-los, para enfim, formar a grande quadrilha. 

Olho em torno: decoração com palhas de coqueiro, música, balões, bandeiras que cruzam toda a extensão do lugar. Parece, a princípio, tudo igual há anos atrás. Os símbolos juninos ali estão presentes. Só faltou a fogueira, feita com papel celofane vermelho, imitando o fogo.

De um modo geral, tudo parece perfeito. Mas uma coisa chama a atenção e se destaca entre todas as informações visuais da festa: a produção das roupas das matutinhas. De alguns anos para cá, as adaptações feitas no vestuário das meninas é algo impressionante. 

Muito do traje simplório, aquela roupinha de chita, com babados rendados, chapéu de palha, sandália rasteira, está sendo trocado por uma extravagante indumentária que ‘sobrecarrega’ a representação simbólica e dificulta a própria leitura do símbolo. Essa observação seria o bastante para que se levantasse a questão da tradição, resgate cultural, com muitas opiniões a favor e contra.

A verdade é que as roupas vão para muito além do característico e recriam sobre o típico, algo apenas alegórico. Ou seja; os elementos do símbolo evoluem (?) para o distanciamento e para a quebra, possivelmente, da correspondência entre ele, o símbolo, e o simbolizado. É claro que as gerações que se sucedem trazem a sua marca e a imprimem ao seu tempo. 

Simbolizar é algo característico do homem, que vai, naturalmente, fazendo adaptações aos festejos. A palavra resgate, em se tratando de manifestações culturais, sempre me soa como se quiséssemos salvar algo, sem admitir adequações, como se, por exemplo, os festejos juninos tivessem que ser exatamente do jeito que aconteciam no nosso ‘tempo’.

A dinâmica mercadológica, alma do sistema econômico que regula e interfere diretamente em nossas vidas, tem determinado esse distanciamento entre o simbolizado e o símbolo, deformando-o e à sua essência. Isso acontece em grande parte, por não sabermos, no mínimo, o que celebramos. Por não conhecermos a importância dos nossos festejos e o que significam, e por isso vivê-los como uma festa apenas. Ou mais uma ocasião de ostentação estimulada pelo consumo. 

É possível percebermos a questão, na forma como as roupas estão sendo elaboradas. Os adereços fazem as crianças parecerem fantasiadas e artificiais. Contudo, é preciso que se recupere a mensagem dos festejos juninos, ensinando para elas o valor do simbolismo, o porquê das roupas, e o que se comemora.

A questão não é resgatar um tempo, mas recuperar a essência, a personalidade cultural de um povo. O que não se pode perder é a natureza do significado das coisas, porque nesse caso, não se corre o risco, quando das adequações que as novas gerações vão imprimindo, de haver a quebra e a perda desse significado, através da perigosa agregação de elementos culturais exógenos, determinados por valores que não são nossos, nem nos representam. 

Quando uma representação simbólica se perde, o ritual, como sendo a sua parte mais sagrada, se acaba e aí sim, começamos a ser e os nossos festejos, meras representações patéticas de não se sabe o quê.

Algumas crianças traziam chapéus de vaqueiro em vez de chapéu de palha. Uma excelente inovação. Afinal, isso reforça o símbolo do homem do campo, dançador de quadrilha, que festeja a alegria em ver sua roça de milho vingada. Alguns poucos vestidos traziam nas saias, pequenos bonecos de pano representando Maria Bonita e Lampião. Isso não era visto antigamente, mas é bastante louvável. 

Há uma atualização simbólica, que festeja elementos da nossa história regional. A maioria das meninas, no entanto, trazia o peso de vestidos enormes que dificultavam, inclusive, os passos de dança, sob o olhar envaidecido das mães, como produtoras.

Até quando São João do Carneirinho vai ter acesso aos festejos juninos? Porque a cada ano que passa, o verdadeiro espírito de religiosidade, como ritual, assim como a alma matuta da festa estão sendo esvaziados, sem que percebamos ou façamos algo para recuperá-los. Mas ainda dá tempo.





Comentários

  1. Perdemos as referencias das festas juninas.
    Sentimos saudades desses momentos tão significantes que marcaram uma época, nas escolas e nos bairros residenciais.

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