quarta-feira, 21 de setembro de 2011

O coco abre a roda para o espetáculo Pros Pés de Jurandir Bozo



 Com a palavra: Jurandir Bozo artista popular alagoano que sobe ao palco do Teatro Deodoro, hoje à noite, para apresentar o seu espetáculo: Pros Pés. Bozo comemora os seus 15 anos de carreira. O show abordará os trupés tradicionais - que no dicionário informal é sinônimo de barulho, bagunça -, a musica popular mais contemporânea  dentro do universo da cultura alagoana, sem perder sua essência, característica sempre presente em seus trabalhos. Desta vez ele promete abrir espaços apresentando os meninos que estão dançando o coco atualmente, dentro de uma perspectiva que os engaja como feitores e propagadores do coco de roda, longe da rivalidade dos concursos. É um espetáculo genuíno que se volta às tradições e que busca agregar outras leituras à identidade cultural alagoana





1_A discussão levantada a partir do seu texto: Universo da cultura popular em Alagoas, publicado em sua coluna, no site Alagoanos, Sobretudo Cultura (www.alagoanos.com.br) surge no momento em que está em discussão, também, termos como folclore e folguedo. O folguedo remete à brincadeira lúdica, genuína, onde a presença dos brincantes e a assistência das pessoas acontecem de forma espontânea. Para você o pagamento de cachês aos grupos que se apresentam é uma forma saudável de mantê-los atuantes ou ajuda a torná-los em vez disso, peças de um espetáculo, distantes ainda mais da identidade cultural que lhes deu origem?



Não temos mais como voltarmos no tempo, e tampouco em redefinir as prioridades desse mundo. Temos que entender ou assimilar essa nova estética de valores mesmo, mas sem perder a essência.



Não vejo problemas em se tratar alguém que faz algo com extremo potencial artístico e beleza artística como artista, e ser pago por isso é apenas se fazer justiça a tal talento, como tantos outros artistas que assim recebem, desmerecia em que a manifestação se um mestre ou seu grupo recebe para dançar? Será que essas comunidades que abrigam seus grupos conseguirão ser hoje, o que foram há 30 anos atrás?



Como esse jovem se relaciona com o mestre? Tem que dar visibilidade a esse mestre sim, e com olhos de encanto e de admiração. Fica mais fácil o diálogo, se esse mestre tem seu cd, se faz apresentações legais e seu grupo está com o figurino bem elaborado, esse jovem vai participar e vai querer estar ali. Mas como fazem hoje eu acho complicado. Tantos editais e não vejo as entidades que defendem esses mestres entrarem em nenhum... Aí complica...



A ASFOPAL mesmo tem 25 anos, e quando vamos ver não formou um mestre se quer para ser o presidente... Poxa. Associação de pescadores tem um pescador na presidência, a de agricultor tem um lá, sendo uma liderança. Será que em 25 anos não se teve como trabalhar uma ação voltada à protagonização e articulação de lideranças com esses mestres? Acho isso complicado... 



2_ Estamos falando sobre a preservação das manifestações culturais alagoanas. Nesse contexto é relevante identificar, primeiro, talvez o nosso principal problema, que seria o que determinou a quase total ausência da prática do folguedo, que tinha como característica, a brincadeira. A morte de mestres suscita a preocupação por parte daqueles que estão empenhados com a cultura popular: quem transmitirá o conhecimento acumulado por eles às futuras gerações e em que se alicerçará a transmissão? 



Essa é uma questão que me preocupa há certo tempo já, inclusive, produzi um espetáculo chamado "O que vem depois dos Mestres?", nele, estavam artistas que bebiam da cultura popular e a abordava de forma contemporânea.  



Tinha um projeto, na coordenação de cultura da Secretaria de Educação, que levava os mestres às escolas e lá se montava pequenos grupos e tal, era uma forma legal de socializar os folguedos com os alunos, pena que não tinha grande visibilidade, o lado bom desse projeto é que não era só o mestre, a cultura popular, era professor de teatro, música, dança...



A comunidade se enxergava como algo legal, e se valorizava. Assim fica mais fácil para o mestre desempenhar seu papel e atingir o público sem preconceitos dos mais jovens. O governo Téo Vilela acabou com o projeto que se chamava agente cultural, se não me engano. Era uma ação massa, que precisava de mais atenção do governo. Só os coordenadores se doavam. No mais, do secretário ao governador, não havia interesse. Era o que transparecia.



Outras questões inviabilizam, e são corriqueiras, em nosso Estado: o amadorismo dos gestores que caem de pára-quedas em trincheiras culturais e a falta de articulação política da classe artística... Mas tem exemplos positivos, aqui mesmo, de articulações culturais que dão certo.



O exemplo do Maracatu Baque Alagoano e do Coletivo Afro Caeté... Hoje ambos têm ações que trabalham a propagação de seus respectivos nomes, oficinas, apresentações em universidades e etc. Muitos jovens e outros nem tão jovens assim, vão às oficinas e participam dos grupos. Para isso é preciso divulgação e trabalhar de forma mais profissional a nossa cultura popular, pensar nela como um produto que precisar atingir um público e ser consumido.



Hoje o marketing é muito importante e extremamente necessário, tem que se ter gente para pensar nessas coisas com frieza, e aí deixar a paixão com quem faz a festa, que são os mestres e os seus brincantes.



3_ O surgimento de novas maneiras de dançar o Coco ou de apresentar o Boi, por exemplo, supõe que cada geração ocupa os espaços culturais se utilizando de expressões artísticas que vão agregando ao conhecido, novos elementos. Como você vê o fato de que expressões estranhas à nossa cultura tenham sido introduzidas em nossos folguedos? Será que está aí, um dos problemas acerca da estilização, daquilo que era original e autêntico?



Creio que essa sua pergunta foi a mais feliz, das tantas que venho respondendo nesses anos todos... SIM! É fato e não tem o que se justificar sobre a estética de uma modernidade vazia que os grupos atuais vinham propagando... Mas a minha provocação é anterior, não ao tempo, mas sim ao fato, porque ninguém chegou para trabalhar esses meninos, falo meninos porque hoje convivo com eles e temos dialogado e eles me escutam, assim como tenho escutado eles, e eles aprendem e nós aprendemos também.



Nilton que é o marcador do coco de roda no Jacintinho. Era o coco de roda que mais estilizava dentre os tantos cocos. Com 26 anos, ele tem 11, só de Xique-Xique. É um dos mais velhos que organizam o coco da atualidade. Foi presidente fundador da liga dos grupos de coco de roda. Segundo ele, tem menos de dois anos que ouviu falar no nome do Mestre Verdelinho.



Foi o primeiro a por num concurso de coco os trupés tradicionais do pagode, pela primeira vez um coco de roda (estilizado) se apresentou em um concurso com passos do coco tradicional e seguindo a uma estética coreográfica condizente à proposta, voltada as tradições.



Daí, muitos outros cocos começaram a fazer o mesmo, num processo em cadeia. Fantástico! O ponto negativo é que muitos dos cocos começaram a se utilizar apenas dos trupés, sem ter o mínimo conhecimento de onde e nem como utilizá-los ou para que ele era usado. Mas é um mal bem menor ao de não conhecê-los.



O 40 arrebatido, um cavalo manco, um chipapa, hoje, quase todo dançarino de coco sabe fazer, além de estarem descobrindo a importância dos mestres e da cultura popular tradicional. Demétrios Paulino (dançarino do coco Xique Xique), que vai estar em meu grupo nesse projeto, em dez anos de coco, sempre quis conhecer os trupés dos mestres e não encontrava onde aprender. (Ele é uma exceção).





Reis do Cangaço, Rosas de Saron, o  Xique Xique, o Pau de Arara, Novos Tempos, Renasce, tenho conversado com muitos coordenadores de cocos de roda. O coco está em um momento singular de redefinição de estética e busca de um diálogo que estava perdido entre a atualidade e a tradição.



Os bois é outra coisa. O que se sabe é que ele se tornou uma variante do Bumba-meu-boi. Quando isso aconteceu e por quê?.Tem bem menos publicações voltadas ao tema, e a falta disso já é algo que complica uma relação com as tradições, na verdade desconheço uma publicação específica que trate do boi alagoano. Ele precisa de um trabalho mais arrojado: estudos, definições e publicações que fundamentem pesquisas e definam características de identidade cultural.



A assimilação de expressões estranhas nessas manifestações, eu creio, já foi mais excessivo. As canções das modas que eram cantadas nos bois e cocos, não estamos mais vendo tais "delitos" culturais (rs). A grande questão é dialogar com esses segmentos que têm uma grande penetração em suas comunidades e assim mediar algo que seja legal para eles e para a perpetuação de nossa cultura.



Não sou acadêmico, e por isso não estou fazendo pesquisa e nem tenho bolsa de qualquer universidade, também não aprovei projetos para justificar algum ganho nessa historia toda. Faço, acredite quem quiser, porque gosto, porque essa é minha vida e adoro fazer. Mas se querem acreditar que faço por dinheiro não posso fazer nada.



Agora, que busco uma cena profissional, eu busco. Quero ver sim, e se preciso for ajudarei aos cocos, participando de editais, os mestres ganhando grana, e ganhando grana com suas apresentações, mas também quero ver esses meninos sabendo o que são e o que representam, não só eles, mas a manifestação que eles defendem. 



4_A ideia do novo, como característica trazida pela modernidade, em muitas ocasiões, tem evocado o fim das referências tradicionais. Nesse aspecto entra a questão da cultura de massa, como proposta que transforma tudo em produto de consumo, inclusive os folguedos populares. Como sensibilizar a alma alagoana, no sentido de recapturar a identidade popular e de cultura da nossa gente, para a sua valorização e pertença? Aonde foi que negligenciamos os conteúdos da nossa alegria e brincadeira?



Negar a cultura de massa ou achar que buscando identidade cultural alagoana estaríamos livres dela é algo utópico. Um exemplo positivo mesmo que é Pernambuco, na grande festa da lavadeira ou até mesmo no carnaval, tem as manifestações tradicionais, como tem shows e apresentações de diversos segmentos da modernidade, temos é que encontrar nossa fórmula, esse "problema" não é só nosso. Não podemos é confundir respeito com subserviência. 



Temos posto em evidência, características de uma alagoanidade dos latifundiários e da elite da cana. Não devemos negar que a cana tem seus benefícios, mas não podemos deixar de enxergar que em nosso Estado, ainda convivemos com as políticas dos currais. Vejam as regiões e as liguem a um político e aÍ vocês vão entender o que falo...



Temos que ver os Mestres como eles eram antes, líderes comunitários, e muitas vezes servindo a forças que não traziam bem para o povo, pois quem mantinha as brincadeiras em alguns casos eram os grandes fazendeiros ou políticos e isso sendo feito quase sempre a critério de favores.



Talvez hoje tenhamos que trabalhar para buscarmos uma cultura popular politizada e articulada, capaz de se articular e superar os entraves da modernidade vazia, pois ser moderno não é o problema, mas sim, como se chega nessa modernidade ou como se busca a mesma. Será que consegui responder? 



5_Grosso modo estamos diante de situações que expõem a realidade da cultura popular alagoana: a manutenção dos que trabalham com arte genuína, as intercorrências do novo, ou seja; sua agregação tendo como referência os folguedos tradicionais e os problemas que envolvem a preservação das manifestações culturais, como locais da expressão da alma alagoana. Você acha que é possível a conciliação positiva entre os que pensam e amam de diferentes pontos de vista, a cultura popular, hoje, em Alagoas? 



RS...



Acredito sim... Talvez não agora, mas em m curto espaço de tempo. Eu queria expor a problemática e assim com a polêmica se falar sobre o assunto e veja o que está acontecendo... rs



Não adianta só a lei que dá aos mestres uma bolsa para que o mesmo possa continuar passando seus conhecimentos e mantendo a cultura viva. Se ainda partilharmos que ela (a cultura popular) tem que ficar escanteada ou sendo tratada como segmento de segundo gênero. “Ah! é cultura popular... aí se cola porque tem que preservar o bichinho do mestre..." Esse discurso de coitadinho não funciona mais.



Temos que estar preparados e preparar esses mestres com seus grupos para estarem onde estiveram se apresentando por merecimento e talento, que é o que eles, mais têm e não porque é importante pra preservação ou porque tem que ser feito algo em prol de...



Lógico que é preciso preservar, lógico que tem muitas coisas que ainda partilham de um traço quase assistencialista, mas temos que procurar dar uma maior visibilidade à cultura e fazer dela o que ela é ou já foi, algo legal pra se divertir e brincar dançando e cantando. 

Um comentário: