Filosofia do Cotidiano


Os barulhos foram chegando aos poucos. Passos rápidos encheram o vão estreito entre as casas. A água corria descendo alegre pelas grotas. Rua descalça, jardim de craibeiras, matinhos, pedregulhos. O olhar vindo da escada, registrou atento cada detalhe. Fixou em si mesmo, aquele instante, como se o tivesse fotografado e colado imediatamente nas páginas do álbum da alma do mundo, lá bem dentro dela. Coisas. Coisas corriqueiras e tão comuns. Eram de fato comuns, sem nada de extrordinário. Mas havia ali, algo que unia o ver dos olhos com o enxergar, que de tão profundo, trazia a sensação de mergulhá-la Hades adentro e de visitar Perséfone em sua morada de inverno. Ora, ora... até e aonde tal olhar suscitou uma travessia imediata por entre séculos! Mitologia pura a misturar os mundos e as realidades. Não fossem os passos que se aproximavam teria ido ainda mais longe. 

Mas, retornou vendo o mundo recortado entre muros e vizinhanças pelo seu próprio olhar e recorreu urgente à verificação de que ali estava, inteira. De pé sobre a escada, comprometida em tornar as coisinhas vistas importantes e legitimadas, sucumbiu à emoção e os olhos encharcaram-se de lágrimas. O que seria das coisas se não houvesse a presença humana para atribuir-lhes sentido?

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