Ressurreição

 

 

Ivone esticou a corda do varal até ficar do jeito que ela quis,

Está lavando roupa, bicuda, cabelo assanhado,

Enxugou as mãos na saia, cruzou os braços e disse olhando pra mim:

“ você sabia, essas fraldas do menininho,

agora tá aparecendo umas que se usa e depois joga fora?”.

Mas a avó dele prefere assim, das antigas.

Sentada na cadeira de balanço,

Lá estava a dita cuja com a Bíblia na mão. Nem respondeu.

A atenção nessa hora tal, é engolir as palavras do evangelho de Lucas,

Dar de comer à alma, amornar o coração.

A bacia com o restos de sabão ainda faz bolhas multicoloridas

nas mãos da lavadeira.

Enxague essas roupas direito, Ivone!

“A senhora se lembra da cor dos olhos de dona Luizinha”?

Azulzinho, azulzinho. Olho de gente que veio de outro canto.

Sim,

sem tirar a vista, 

 'o senhor é o meu pastor e nada me faltará'

E de dona Amália chamando o marido de sujeito?

sim, só com um balançar de cabeça 'isso é uma tentação do inimigo'.

Dona Dadinha, quando ia dizer as coisas fechava os olhos, parece que até cochilava

e aquela amiga da senhora, que esqueci até o nome, 

chegou do Rio de Janeiro muito especial: "Melancia é indigesta"!

Bom mesmo era ver o papagaio de madrinha mandar o povo ter vergonha.

Vai seguindo pro quintal levando os panos para estender.

Que danada! Ressuscitou os mortos, como Deus há de fazer com a gente.

 

Goretti Brandão,

Santana do Ipanema-AL, 27/05/2026

 

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