terça-feira, 27 de dezembro de 2011

"Salve, salve Pão de Açúcar, salve a Terra da Cultura"

Pão de Açúcar - Foto: Goretti Brandão
As portas da Escola Estadual José Soares Pinto estarão abertas hoje, durante todo o dia, para exibir a exposição de trabalhos de artistas da Cidade Branca. O feito, organizado por alunos do curso médio, é o resultado do Projeto Feira Cultural: “Artistas da Nossa Terra”, que tem como objetivo tornar conhecida a produção artística, que abrange as diversas modalidades da arte e da cultura paodeaçucarense.

Conhecida por ser o berço que embala gerações e gerações de músicos, poetas, pintores, escultores, escritores, as ações de vulto destinadas à promoção da cultura pararam lá atrás, em 2004, com o lançamento do livro: Terra do Sol, Espelho da Lua, do escritor Etevaldo Alves Amorim e a reedição: Pão de Açúcar: História e Efemérides, da autoria de Aldemar de Mendonça, pai do poeta Marcus Vinícius, revisada e ampliada, também por Amorim.

Há, no entanto, um registro anterior. Em 1999, quando do lançamento do livro: Pão de Açúcar, Cem Anos de Poesia. Trata-se de uma coletânea que reuniu a verve poética que vai desde Moreno Brandão, Bráulio Cavalcante, Jovino da Luz, Antônio de Freitas Machado, Zequinha Guimarães e outros nomes, todos nascidos entre 1855/1899 até a poesia mais recente catalogada àquela ocasião, que encerrava seu trajeto em Marcus Vinicius/1937.

Só agora, em 2011, na comemoração dos 400 anos da cidade, aconteceu o lançamento do livro – fico a dever o título - do escritor Hélio Fialho. Como premissa para outras realizações, a literatura local, como a mais contemplada, na cidade, possui registros que servem - além de material para deleite e pesquisa -, como forma de pontuar a produção histórico-literária dos filhos da terra. Mas a arte em Pão de Açúcar é transpiração, também, através de outros poros.

A pintura, o desenho, a escultura, a musicalidade, fazem parte dos que vivem à beira do Velho Chico. E é a diversidade da arte que faz do lugar um dos celeiros mais profícuos do sertão das Alagoas. O Projeto, Artistas da Nossa Terra, reúne biografia, trabalhos, fotos dos artistas homenageados, e os expõe ao público. Iniciativa que poderia se tornar tão viral, atingindo as cidades alagoanas, quanto às ações que se propagam pela internet, pela importância que tem.

O evento de hoje, busca levar as pessoas a olharem para a arte feita em casa, como produto que inscreve na memória, como partilha de todos que vivem a realidade local, impressões sobre a vida e o tempo. Interessante seria que se desenvolvessem projetos objetivando incluir em matérias como: Geografia, História, Língua Portuguesa, Literatura, referências aos artistas da terra e seus trabalhos, para que os estudantes pudessem ter contato com a produção artística de sua região.

Dentro da modalidade literária, poemas poderiam ser utilizados para interpretação de textos, nas escolas. Concursos literários, recitação da poesia local. O reconhecimento à arte paodeaçucarense, por si só, demonstra um salto qualitativo no que diz respeito à mudança de viés que observa efervescência cultural na atualidade.

Daí para frente, ações destinadas à legitimação da cultura local, bem traçadas, caberão muito bem, quando o assunto é tornar um hábito, que seja transformado em comportamento cultural e que ocupe a atenção das gerações atuais e futuras, para questões que reverenciem a produção artística e reconheça os artistas locais, como objeto de pertença cultural da comunidade.

Afinal, a máxima de Jesus: “Nenhum profeta é bem recebido em sua terra”, é bem conhecida pelos que materializam os sentimentos através da arte, em suas cidades de origem. Falta valorização e reconhecimento. Para mostrar o avesso, este é o desafio que a Escola Estadual José Soares Pinto, resolveu encarar.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Um olhar sobre o envelhecer - 2ª Parte


Dando seguimento ao texto sobre o envelhecer, volto à importância do tipo da colheita a ser feita enquanto se caminha pela vida. Alguns, apenas quando são empurrados para a estação invernal é que se apercebem que as mãos estão vazias, que aquilo do que se necessita, após tanta andança, foi por eles desconhecido. A maioria sente a falta e a angústia de não saber nem o que está faltando. Recorro à mitologia grega como suporte à construção e evolução do texto.

O mito grego de Perséfone, diz que a bela jovem, filha de Deméter e Zeus, vivia alegremente e despreocupada com o que quer que fosse, colhendo flores sobre a terra, até que Hades, o deus do mundo dos mortos, apaixona-se por ela e consegue raptá-la, levando a moça para a sua morada. A leitura dos mitos gregos, quando se considera que o berço cultural do ocidente está na Grécia antiga, é uma maneira interessante de buscar entender os estereótipos ou lugares-comuns nas reações humanas, reproduzidas através dos tempos. Observar o que a lenda de Perséfone nos ensina, propõe à pessoa o retorno à própria adolescência.

Vivemos uma época onde a atuação humana, como agente no processo histórico está ameaçada pela perigosa intervenção de conceitos comportamentais, que fragmentam a vida. Aproveitar o ‘aqui e agora’ é uma proposta de falsa experiência de felicidade, que desconhece os desdobramentos e efeitos, que surgem após quaisquer ações que façamos. Mas, a propaganda que constantemente dá ênfase ao prazer momentâneo, o coloca como um direito que todos devem lançar mão.

A historicidade humana é segmentada e as pessoas vivem essa segmentação em ensaios isolados, que servem apenas para rebaixar, o que poderiam ser as emblemáticas experiências da vida, à condição de sinalização de meros acontecimentos, apenas. Os elementos que poderiam emblemar a existência e lhes configurar valor, se perdem a meio caminho. Sem a posse do somatório das experiências vividas, não consegue a pessoa percorrer o caminho da própria individuação. Há o comprometimento do crescer, no sentido de compreender e assimilar os conteúdos, à sua necessária maturação.

Viver despreocupadamente a intensidade do prazer momentâneo, como razão única de felicidade parece ser o que a bela Perséfone fazia, colhendo narcisos pelos campos. Colhendo, um único tipo de flor. Diz uma das versões da lenda, que a jovem ao ver uma planta com centenas de flores perfumadas, foi atraída por ela. Uma fenda abre-se no local e ela vai ter com o senhor do mundo inferior. A lenda ao que parece, quer nos mostrar que existe algo por baixo da beleza e do prazer, que nós, humanos e falívies, precisamos entrar em contato.

Lembra-nos que não é possível fazer colheitas por fazê-las, distraidamente, se guiando apenas pelo prazer de ter flores nas mãos, colhê-las e apreciá-las, tão belas. Tendo sido raptada, conta-nos o mito que Perséfone, no mundo inferior, passou a ser conhecida como Proserpina, rainha do reino subterrâneo. A vigilante das almas. O quanto antes possamos admitir que a juventude não é eterna, como nada sob o sol, mais atenção teremos ao direcionar nossa colheita, nos jardins dos tempos primaveris. Pois que, próximos do envelhecer, é tolice ficarmos perdendo tempo, na tentativa de negar o óbvio. Mais salutar é cultivar a as flores da jovialidade interior. A beleza sinalizada pelas flores, não é emblema do Belo, para quem ultrapassou o signo e soube tornar emblemático o seu significado.

Tendo o consentimento de retornar à superfície, Perséfone o faz todos os anos. Quando reaparece trazendo consigo a primavera e suas flores. É possível, também para os que envelhecem entrarmos em contato com as fragrâncias e a beleza dos jardins da vida. Mesmo quando fomos raptados e estamos - senão vivendo, diante alguns passos, da porta de entrada para o inverno da vida. Diferente, porém, da juventude, não colhemos mais as flores, mas a trazemos junto conosco, como emblema de experiência, para que sejam apreciadas e colhidas pelos outros.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Caminhando pelos outonos e invernos da existência

Um olhar sobre o envelhecer


Um dia a gente passa em frente ao vidro espelhado de uma loja, em um centro comercial, e sente o impacto: não somos mais os mesmos. Mudamos. A sensação que se tem é a de que estamos em um corpo errado. É como se uma máscara, revestindo a nossa pessoa inteira, estivesse escondendo e roubando a imagem que até então era a nossa identidade; o eu-sou-este (a). 

Somos pegos de surpresa, porque ainda que tenhamos a mente cheia de idéias e projetos, acontece uma grande confusão: a pessoa de dentro começa a não combinar com a imagem projetada no exterior e o próprio corpo dá indícios de que a vigência física começa a declinar.

Sequer somos convidados a entrar no processo. Neste sentido não há escolhas. Há sim, um caminho a percorrer, como outros percorridos tempos atrás, quando passamos de embrião, a feto, de criança a adolescente, de adolescente a adulto. Durante tais etapas, também não pudemos escolher parar no meio do caminho, onde nos sentimos confortáveis, mas, é como se subíssemos uma ladeira. Tempo de construção no mundo exterior, perseguimos sonhos, traçamos metas, corremos atrás de estabilidades, buscamos um lugar dentro da vida social e estamos ocupados com isso.

Implacável, o tempo passa. Muitas pessoas na meia-idade lançam luz frouxa sobre a inquietação que as persegue, pressentindo a ferida que a clarividência inevitavelmente vai causar. Assumir que adentraram as portas outonais e que terão que enfrentar o inverno da vida, para muitos é doloroso e assustador. Porque quando ainda bem não se chegou ao topo da montanha, local simbólico, de onde se podem observar o contexto das aquisições humanas - família, trabalho, sociedade – sobrevém a pergunta sobre o que se colheu, sobre o que foi colhido: flores, trigo, e de quais fontes, foram as águas por nós bebidas, e de que ar enchemos os nossos pulmões?

Significantes, que se nos foram oferecidos pelos campos da vida. Não podemos voltar atrás para ir buscá-los. Mesmo assim é preciso ter coragem de enfrentar nossos medos, para empreender lutas, que às portas do envelhecimento, nos espreitam como monstros e megeras do nosso mundo interior, e que irão, impiedosamente, nos condenar e cobrar por cada coisa, cada detalhe, do que deixamos por fazer, do que negligenciamos e do que nos esquecemos de trazer como suportes espirituais, psicológicos, necessários à nova experiência. Vividas as primeiras estações, somos requisitados a vivenciar outras instâncias. O que temos para nos ajudar a vivê-las?

Longe da beleza juvenil e, próximos às rugas, manchas, fragilidade física, que acentuam a condição de que estamos envelhecendo, surge à experiência que nos permite não apenas contemplar, mas mergulhar na ossatura, daquilo que é vital em nós, como decifrar a arte de construir a vida. Quando temos a certeza de que somos finitos, é que paradoxalmente, a vida tem mais valor e é mais reverenciada. Por trás das perdas físicas do envelhecimento, está o prêmio às escolhas que nos foram permitidas fazer. Aos que observaram as brotações do solo da alma e fizeram colheitas pelo caminho da existência, esses continuarão alimentando o coração e enchendo a vida de sentido e alegria.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Misturando povos: o sertanejo alagoano ao chinês da Ilha de Taiwan

Um pensamento, talvez mestiço...


Nem tão longe, nem tão perto, a depender do ponto de partida, mas distante alguns quilômetros da capital alagoana, diferenciado pela mudança de clima, que é uma determinante na diferente paisagem, o sertanejo que vive nos rincões, expostos à luz do sol quente, como se costuma dizer por aqui, é um sujeito sem meio termo: Sebite, falador joga o seu palavreado, comum aos costumes da sua região e da sua gente, é um sabe-tudo.

Há, porém, o acanhado e quase mudo, que esconde a fala, e compensa o silêncio rindo muito em resposta àquilo que ouve, além de conservar por anos a fio, um olhar para baixo, que não ultrapassa a cintura do interlocutor, até o dia em que se sinta confiado e igual, para olhá-lo da cintura pra cima. Conheço e convivo com os dois tipos. Ambos se aprontam para irem à feira na ‘rua’. Na cidade, um teatro de marionetes atrai o homem simples, de alma pueril, que fica deslumbrado com as andanças e com as mensagens passadas ao povo pelos fantoches.

Lá estão misturados às crianças: o vaqueiro, a rezadeira, sertanejos das mais variadas idades, compartilhando da alegria da ‘brincadeira’, onde podem se ver a si mesmos, e sem saber compondo a cena que registro, meio metalingüística: feito de poesia que assiste a poética que reproduz a vida e que faz reverberar ainda mais poesia, nos rudimentos de um lirismo singular que, sobretudo, sempre serviu como veículo de informação. Muito usado nos programas infantis de TV, a manifestação, rueira, genuína expressão popular, está condenada ao desaparecimento.

Em 1993, o diretor Hou Hsiao-Hsien, trouxe às telas do cinema, o filme, O Mestre das Marionetes, que mostra a vida de Li Tienlu, um manipulador de fantoches, como narrador da própria história. O cenário é a Ilha de Taiwan, próxima a China continental, que durante 50 anos viveu a ocupação japonesa. Sobre o pequeno palco, os fantoches se expressam acompanhados por um grupo de músicos. Pelos caminhos da arte, eles pontuam e dão ênfase à realidade e aos acontecimentos da vida política e pessoal. Suas tradições, superstições, sua música, questões culturais que envolvem desde costumes alimentares, até os religiosos.

Em se tratando da Ilha de Taiwan e do sertão de Alagoas e apesar da distância que separa sertanejos alagoanos de chineses taiuaneses, oriente e ocidente parece compartilhar de uma mesma fonte, de onde são originados padrões comuns comportamentais, que diferem na exteriorização dos mesmos, influenciados pela expressão cultural específica de cada país. 

Talvez seja o resultado, também, da influência cultural entre povos. Da mistura existente desde muitos séculos entre nações. Mundos que acontecem dentro do mundo. Coisas da globalização... Mestiçagem... Este assunto é para o historiador e paleógrafo francês, Serge Gruzinski. Estou só especulando...

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Confirmando o DNA: Gal, Dália e Ludmila Monteiro


Gal Monteiro e suas filhas, Ludmila e Dália, se apresentam hoje, no Projeto Palavra Mínima, no palco do IZP, com o espetáculo DNA. Extensa, a entrevista com a artista pode não obedecer aos critérios textuais da mídia internet, mas é impossível preservar no texto o essencial, quando tudo por si só, nele, já é essência. Convido os amigos do Ensaio Geral à deliciosa leitura...

1- Gal, as diversas expressões artísticas sempre interagem entre si. Possivelmente, porque lidam em essência com um princípio comum a todas elas, e que brota daquilo que sai da alma do artista, como sendo uma resposta àquilo que entra em contato com a sua alma, vindo de fora ou daquilo que está em sua alma e interage com o exterior, com o mundo, e que encontra nele o canal de materialização da arte. No entanto cada expressão para cada forma de arte tem sua identidade própria. Como é que você, Ludmila e Dália conseguem trazer para o palco a interação entre duas identidades artísticas?
R- Eu sempre estive ligada à arte, de um jeito ou de outro. Sou apenas aprendiz de artista, uma simples postulante, noviça. Mas sempre cultivei esses valores, assim como os pais das meninas. Creio que isso deve ter influenciado. Ludmila, por exemplo, da mesma forma que eu, escreve desde menina e teve, aos 9 anos, um livro de poemas publicado pela escola onde estudava e cantamos no mesmo coral. Dália, por sua vez, é autodidata, aprendeu a tocar violão praticamente sozinha e compomos juntas, as três. Portanto, vamos levar ao palco, na verdade, duas identidades que sempre estiveram embrionariamente ligadas, primeiro pelos laços de família, depois pela arte, vida afora, muito naturalmente. Adoro a ideia de interagir fora do ambiente do lar, onde nós, mães, às vezes assumimos as sanções e a vigilância, nem sempre compreendida pelos filhos. O palco nos nivela, nos põe mais livres. 

2- Três mulheres, em idades e fases diferentes de vida, poetisas, artistas, mãe e filhas e que hoje à noite compartilham um mesmo espetáculo. Certamente, para Ludmila e Dália a influência, o ambiente familiar dado à cultura, além daquilo que se pode chamar de destino, é algo indiscutível, mas, além disso, existe a pessoa que a si mesma se inaugura nelas e que segue se afirmando, opinando, sendo. Nesse caso o que está irremediavelmente unido: música e poesia feitas por Gal, Ludmila e Dália Monteiro ou Ludmila, Dália e Gal Monteiro desafiam suas próprias gerações e mostram que além de outras evidências estão unidas, também, pela arte?
R- Creio que, como eu disse, o fato de a arte estar, naturalmente, em nossas vidas - por opção, por gosto - faz de nós uma tribo meio diferente, ou, se preferir, pouco convencional. A arte, sem sombra de dúvida, é o diferencial que nos iguala. Digo melhor: Ludmila e Dália, quando falamos de arte, parecem desconhecer essa distância cronológica. Posso dizer que aprendemos de um lado e do outro. É um desafio sim: para mim, por não ter nascido em plena era dos computadores, da internet - eles vieram depois - e me ver encantada com o que eles podem fazer pela arte. Para elas, por se depararem com músicas e outras peças de arte do passado, e descobrirem que gostam mais delas do que daquilo que nasceu com sua geração, em alguns casos. A gente vai trocando figurinhas. Eu sou fã das duas: pelo talento e pelo fato de serem capazes de compreender além do seu tempo.

3- Entre as gerações está cada vez mais presente a inversão de valores que além de outras coisas, tem criado distanciamentos entre pais e filhos. Desenvolver um trabalho artístico feito com suas filhas contraria o que costumamos ver à maioria das relações existentes e demonstra, sobretudo, parceira, empatia, entrosamento. Você diz que: a arte salva, que a gente precisa dela pra viver e não apenas sobreviver”. Como é possível evitar os vazios abertos, entre pais e filhos, pela sociedade moderna? Que saídas você vê? Você acha que nesse aspecto, a arte, para qualquer pessoa, a proximidade com ela, humaniza as pessoas?
R- Acho sim. Continuo dizendo que a arte salva. E, se a arte é o seu trabalho, melhor ainda. Não tenho receitas para esse grave impasse que você menciona - da inversão de valores, dos vazios abertos - mas tenho certeza que a arte é uma forma de a gente ficar mais próxima dos filhos, sendo os pais artistas ou não. É, digamos, como ter a senha para decodificar as diferenças. Mais nada disso substitui o amor profundo e a capacidade de trocar de lugar, sentir-se na pele do outro. Nem sempre consigo, mas sempre tento, porque é nisso que acredito. Às vezes, me pego pensando como conseguimos equilibrar os sentimentos entre meus quatro filhos que são de pais diferentes, mas, se tratam como se viessem de um mesmo núcleo: com o mesmo amor, as mesmas briguinhas, as mesmas disputas e o os mesmos cuidados dos filhos de famílias nucleares, estruturadas de forma linear. Eles não julgam, não se discriminam entre si, nem me questionam de forma negativa. De quem foi o mérito? Acho que tem a ver com a alma de artista (risos). Entendo a arte, nessas estruturas todas, não como coadjuvante, mas irremediavelmente necessária para sermos pessoas melhores. Porém, deixemos claro: isso vale para quando a gente ama a arte de verdade, quando ela é uma expressão profunda do nosso espírito inquieto e não quando ela se torna um comércio cru, sem ética e sem princípio, apenas um meio de sobrevivência. 

4- Em se tratando de DNA está claro que entre você e suas meninas, há muito em comum – ao que se refere à sensibilidade artística, literária –, isso quer dizer que vocês sintetizam de maneira bem parecida, o modo de ver, sentir e colocar em ação esses sentimentos através da expressão artística? E como acontece entre vocês o entrosamento dessas aptidões fora do ambiente e do contexto da arte? Como é equilibrar sensibilidades na convivência entre mãe e filhas?
R- Pergunta difícil. Vou falar das duas filhas porque a Dália - que antes faria uma participação especial - vai tocar várias músicas com a gente. O DNA é uma coisa interessante: há momentos em que ele salta aos olhos e aos sentidos e todos percebem que há relação de parentesco entre as pessoas; há outros em que nós, os parentes, nos sentimos menos parecidos entre nós. Temos muitas divergências. Com cada uma delas tenho divergências diferentes. Mas, mesmo sem sabermos como e nem sempre expressarmos, descobri que nutrimos uma admiração mútua muito grande. Eu e Ludmila somos mais românticas, mais sonhadoras. Dália é nosso chão, a seta que aponta para a terra firme, enquanto navegamos pelos astros. Tenho dificuldade de conviver com a bagunça que elas - e principalmente a Lu - fazem. Por outro lado, consigo enxergar nelas um presente fantástico. 
Somos mães e filhas, mas somos, também, cidadãs e artistas que lutam as mesmas lutas e contracenam nos mesmos palcos.

5- Falando sobre o show: Vocês apresentam poesias musicadas, canções que acompanham a recitação de poemas, você, Ludmila e Dália cantam, declamam como é o espetáculo?
R - O espetáculo obedece à estrutura do projeto Palavra Mínima: um intérprete/autor e um poeta dividindo o palco. Em DNA, eu canto, acompanhada por músicos da estirpe de Deyves (violão/vocais), José Rocha (teclado) e Batata (percussão), músicas de minha autoria, em parceria com outros compositores, como Júnior Almeida, João Neto e o próprio Deyves. Dália faz uma participação especial tocando guitarra em algumas músicas, entre elas, Hiena (Gal, Ludmila e Dália). Ludmila é o outro lado da moeda. Para ela, o desafio é ainda maior: vai declamar seus poemas pela primeira vez, enfrentando a timidez e o desconhecido. Acho que o espetáculo não poderia ter nome mais adequado: D.N.A.: é a expressão da arte em família, uma herança que tem mão e contramão - todos legam e todos herdam. Vou levar meu filho Hermano para assistir e, quem sabe, entrar nessa simbiose. Fica faltando apenas minha filha mais velha que é jornalista e atriz e mora em São Paulo. Vou sentir sua falta na primeira fila.

6- O que você diz acerca da parceria entre as artistas Gal e Ludmila, com a participação ‘mais’ que especial de Dália? O público será agraciado com outras edições?
R - (risos) Eu sempre quis que isso acontecesse, de verdade. Espero que o público goste, eu estou super nervosa... Não sei o que vai rolar, no futuro, se vamos voltar juntas aos palcos, mas uma coisa é certa: nossa casa é e será sempre um espaço onde se discute e se devora a arte. Ou ela nos deglute, lenta, e deliciosamente, quem sabe? Lá, nós temos as portas abertas para os amigos que, "coincidentemente", sempre trazem um violão, um poema, uma voz, um abraço apertado, um saco de milho de pipoca, uma pizza, uma boa gargalhada, umas lágrimas e desenganos que a gente cura no colo e no abraço. De um jeito ou de outro estamos juntas, onde quer que seja o palco.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Gal Monteiro & Ludmila, amanhã, no Teatro Linda Mascarenhas


Gal Monteiro
O Projeto Palavra Mínima apresenta amanhã, sexta-feira, 16, às 20h, o espetáculo: Gal Monteiro & Ludmila em "DNA". Em entrevista, Gal fala sobre o trabalho artístico compartilhado entre ela, Ludmila e Dália, também sua filha - e que tem participação especial no show -, sobre sentimento, sensibilidade, herança artística, em como a arte transita livremente, prolifera, se mistura e preenche os espaços onde as relações de amor familiar são construídas e alicerçadas entre elas.  Uma excelente conversa que trago para o leitor, amanhã, aqui no Ensaio Geral. Aguardo vocês!

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Noite de dezembro


Sinto o cheiro do Natal todos os anos. É um cheiro que guardo comigo desde a infância e que volta por essa época. Nos meus registros sensoriais, o tempo, todo ele e a todo tempo, exala aromas específicos. Aromas sagrados, que têm o poder de me conduzir e iniciar nos mistérios natalinos. Retorno por dentro das minhas lembranças, até chegar aonde quero ir, e  aqui estou: 

A sala irradia a luz dezembrina. Deve ser a das nove da manhã, essa hora que traz a minha avó do seu quarto, carregando uma caixa grande de papelão. Estamos eu e meus irmãos, crianças, a sua volta. Um grande galho seco, cheio de hastes por ela escolhido, acha-se posto dentro de um jarro pintado de dourado. Estou diante do que será a nossa Árvore de Natal.

Todas as extensões da planta estão cobertas de algodão. Aberta a caixa, suas mãos habilidosas e pacientes retiram do seu interior, luminosas e delicadas bolas natalinas. A curiosidade cresce - a gente, meninos e meninas -, delira querendo pegar as coisas e ajudar a pendurá-las. Um vento leve e quente invade os quatro cantos da sala, percorre os limites do seu contorno e desperdiça sobre os móveis e sobre nós, suados, a sua fragrância de Seiva de Alfazema, como um sopro vital dela roubado.

Adiante está a mesa onde a lapinha será arrumada. Estragética, ela se encaixa e reforça o ângulo reto onde as paredes se encontram. Minha avó dá voltas, idas e vindas, e outra vez retorna ao quarto. Sua silhueta baixinha e rechonchuda reaparece sorridente. Anda segurando as sandálias nos pés e parece deslizar sobre o chão de cimento, como se distraidamente, se ousasse bailarina, ainda que imodesta e fora de hora. Seus olhos pequenos nos vasculham e vão buscar nossos pensamentos iniciados apenas: “Não, primeiro vou montar a Árvore, depois a lapinha”. Ninguém discorda da adivinha, que sabe lê por dentro da gente.

Aí está, pois, o serviço terminado. Bolas de diversas cores e tamanhos balançam dependuradas. A meninada bate palmas, dá palpites, corre pela sala. O pisca-pisca é cuidadosamente posto fazendo círculos entre os galhos. É preciso testá-lo. As luzes se acendem. Novos gritos, novas palmas. As crianças nos abraçamos umas às outras celebrando o instante que nos enche a todos de descomedida satisfação. É preciso pregar acima do portal, que dá entrada à sala de jantar, os dizeres natalinos de Feliz Natal, Boas Festas e Próspero Ano Novo.

Timidamente São José sai da caixa, todo envolto em folha de jornal. Depois Maria, depois o Menino Jesus, exageradamente maior em tamanho que os pais. A manjedoura, os bois, as vacas, os cordeiros, o jumentinho, o camelo, o espelho que vai servir de lago, os patinhos, o galo, pastores, os três Reis Magos, imponentes, com vestes que apresentam majestade e brilhos dourados. O tempo não passa para o anjinho que da mesma idade, em todos os dezembros da minha infância, vai ser colocado acima, sobre a entrada da manjedoura e nos saudará com a mensagem de Paz na Terra aos homens de boa vontade.

Um cheiro de caju se anuncia vindo da cozinha. Minha avó fala sobre a viagem de Maria e José para Belém, na orla do deserto da Judéia, por causa do recenseamento exigido aos judeus pelo império Romano, sobre a natividade da criança-Deus que se fez homem dentre os outros, enquanto vai assentando a Sagrada Família em seus devidos lugares. O silêncio reverencial ocupa o momento. Os Reis Magos andarão da porta de entrada, sobre os móveis, para não serem pisados, até chegarem na data certa, ao local onde Jesus se encontra, repetindo o feito e a viagem que fizeram, seguindo a Estrela de Davi. Ela, que feita artesanalmente pela dona da casa, cintila enorme, sob o efeito da areia brilhante, pairando sobre a cena.

O momento é carregado de simbologias cristãs. Distancio-me para ver com olhos adultos, o que cada um de nós está fazendo àquela hora e me consinto a alegria de vermo-nos felizes, vivendo instantes que o tempo não pode mediar com horas. Estão ali e aqui, eternizados, e salvos pela memória, que me lança sobre o tempo e através dele, e que me leva a este lugar que não tem lugar, nem é mais um lugar, é um sentimento vivo, feito de imagens fiéis que me tragam e que me participam, como se fora uma película, um filme, que atuo e assisto ao mesmo tempo, em noites de dezembro, como a de hoje.

Dedico estas lembranças aos meus irmãos, que junto comigo viveram a alegria e a Graça de ter como nossa avó, Mãe Tina, que nos ensinou tudo o que sabia sobre a vida, o Natal e o Espírito Santo de Deus...

domingo, 11 de dezembro de 2011

Pequena história noturna


Havia conhecido a moça em minha terra. Bonita, a gaúcha era alta, loura, bem vestida e aparentava ter 30 anos. Não sei por que, levou-me à sua cidade. Não tinha quem o dissesse, mas era pobre e periférica. O que tinha e de sobra era a altivez de gente nobre e fenótipo de manequim. Em sua casa desorganizada onde tudo era uma descompostura da ordem, me recebeu a sua mãe, uma mulher desajeitada e nada parecida com a moça. Hospedaram-me muito bem. Eram atenciosas e diligentes o tempo todo. À noite, da sua casa localizada em um morro, olhamos eu e ela, a cidade, os prédios iluminados e os carros. À visão daquele mundo, outro, não lhe disse nada, mas desejei estar ali, longe que estávamos daquele tipo de vida. Como se tivesse lido os meus pensamentos, ela me disse que aquilo que víamos não era importante. Concordei por educação. Não tardou e apareceu um rapaz desconhecido que eu sabia, viera da minha terra, que ao contrário da moça que tão bem me acolhia, tinha-me antipatia. Perseguiu-me. Correndo, entrei em um quarto ou algo parecido. Encurralada quase fui atingida por uma enorme pedra de amolar, que lançada por ele contra mim, chocou-se contra a parede. Consegui sair do cerco e fui me meter entre pessoas desconhecidas minhas, mas conhecidas da moça. O rapaz reapareceu, mas a sua disposição de desafeto havia mudado em outra. A minha também. Uma mágica nos envolveu e ele, se achegando bem perto de mim, me beijou a boca. Um sonho da noite passada...

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Entrando em outras dimensões


Ilustração: Goretti Brandão
Trouxeram a menina que adentrou na casa com um vestidinho azul-marinho, estampado com bolinhas brancas e de alcinhas vermelhas. Uma graça. Magrinha e dona de dois grandes olhos, os cabelos chegavam à cintura, escorridinhos pelas costas e bem escuros, foi logo esboçando um riso sem dentes à mostra, apertando os lábios numa falsa timidez, que se confirmaria em alguns minutos.

Entreolharam-se, ela e o menino, e se reconheceram amigos, praticamente inseparáveis, assim, unha e carne, comemorando o encontro em carreiras desembestadas. Ambos com cinco anos estavam dispostos a percorrerem o mundo da imaginação por eles conhecido. Eram cúmplices. Via-se pelas intenções que afinavam, para desembaraçar a realidade e construir outras, paralelas e prenhes de novidades, todas prontas a funcionarem, e muito bem, obrigada.

O corredor comprido e largo virou campo de futebol, onde os dois jogavam a bola para o gol dentro da rede fantasma, que só eles sabiam onde estava. Brigavam: ela insistia em fazer gols com as mãos: “pode sim, pode sim, a gente pode fazer gol de mão, não pode?” Nenhum acordo, desentendimentos postos aos gritos, até encontrarem uma forma de não estragar a amizade usando de uma estranha matemática que somava pontos e não gols que podiam sê-los ou não. Para continuarem brincando, criaram regras próprias. Aí... Empataram e empataram.

Um chute forte e, sumiu-se a bola no quintal o que os levou junto. Quando voltaram, avisaram que haviam tomado uma bebida. Uma bebida, não, consertou a menina com seriedade: um tônico, e viraram heróis que procuravam por diamantes, colares e pulseiras. Ela, heroína, foi logo trocando de nome. Era a Mulher Maravilha. Poderosa, catou nas calçadas, papéis brilhantes com que se enrolam os bombons e tentava, com jetinho de investigadora, descobrir o esconderijo da rainha-que-era-má. Deveria prendê-la. Ele, o Super-Man acrescentou-se o nome de Jesuíno. Super-Man Jesuíno.

Com pedrinhas e pequenos pedaços de madeira anunciou para a avó - impaciente com a vida e sempre colocando a culpa do seu indisfarçável mau humor na quentura do dia -, que tinha achado os diamantes, e abriu as mãozinhas sujas mostrando seus tesouros. Àquela altura a Mulher Maravilha já havia encontrado a rainha má e a punira com a prisão. “Jogue isso fora, menino. Vá lavar as mãos pra limpar essa sujeira” Ele foi. “Mas não é sujeira não, vovó. É diamante camuflado”. Tinham cumprido a missão.

No primeiro cômodo da casa, nem varanda nem sala, mas que pode ser chamada pelos dois nomes, visto a indefinição do local, a jovem fisioterapeuta encontrou a idosa senhora que a esperava, e sem demora deu início à sessão de exercícios. Cuidadosa, encorajava-a a levantar-se da cadeira de rodas: “A posição dos pés está excelente. Incline o corpo pra frente, dona Juciata. Juciata não, minha filha: Cacilta. Perdão. Cacilta. Dona Cacilta” ratificou a mocinha, meio sem jeito. O menino passou correndo, e sem parar, alertou: “cuidado pra não derrubar a minha avó!” e seguiu adiante, se sentido gente grande.

O efeito do tônico havia passado. Desfizera-se a identidade secreta. Menino e menina eram crianças de novo, mas assim que alcançaram a cozinha, foram mudando para temidos lutadores de Jiu-Jitsu. Ele, “Requebegue”, investiu contra “Loque” a lutadora, ainda se ajustando à transformação, o que a fez entrar no ringue à força e em desvantagem, franzininha que é, mas enfrentou a peleja que se fazia em apertos pra cá, empurra pra lá, levantamentos da saia do vestidinho e puxões de camisa. “Cuidado com essa brincadeira que ela é menina. Aguenta não”, protestados por um, eu-também-sei-brigar, que ela dizia pra não se entregar, os enormes olhinhos pretos cheios de lágrimas, de tanto levar safanões. Os lutadores alternaram derrotas e vitórias tantas vezes quantas quiseram, até que suados pararam de lutar. Tinham sede. Abriram o armário na ponta dos pés, mas não alcançaram os copos. O menino foi buscar ajuda e apontando para um, de plástico amarelo-limão, disse feliz da vida: “O meu é aquele ali, ‘Ó’!”.

Quando a tarde deu indícios de declinar, eram os dois, já Ricardo e Elisa, marido e mulher, irreconhecíveis e distantes das outras façanhas. Brincavam naquele instante de um amar leve e descompromissado de afagos, interessados apenas na procriação. Tinham filhos: um casal de gêmeos, e circularam com as crianças feitas com caixas de sapato, pelos ambientes da casa, como se estivessem passeando pelas ruas da cidade em dia de domingo, felizes, exibindo criaturinhas alienígenas. O menino teve uma ideia nova de ser outra pessoa, mas desapontado reclamava a falta de um ‘franguês’ para concretizar a experiência. 

“O nome certo é freguês, corrigiu a empregada. Tá certo, tá certo” ele respondeu, procurando escova e pente no quarto da avó. “Ô menino o que você está fazendo aí? Venha pra cá!” Era seis da noite quando os dois resolveram ajustar alguns detalhes da imaginação para garantir que ela fosse sempre recíproca e agora, cabelereiros e fregueses um do outro, atendiam por Felipe e Luana, duas silhuetinhas miúdas, que sobre os restos do ocaso, mexiam no cabelo um do outro, enquanto projetavam compridas réstias, que invadiam a sala de jantar e a cozinha.

Quando a irmã mais velha veio buscar a menina, as duas crianças já haviam transposto, sem darem nenhum sinal de que o fizeram, a linha mágica entre os mundos que adentraram. Voltaram inteiros através dos portais que para eles se abrem em todos os cômodos da casa, contida em várias outras casas dentro de cada cômodo, e cada uma contendo histórias. Histórias de heróis com superpoderes, lutadores, jogadores, que esperam do outro lado sob a opacidade da rigidez que bloqueia a imaginação, poderem brincar conosco outras versões de nós mesmos. Só os que se fizerem flexíveis, podem ultrapassar dimensões. Acredito que, e não sei por quanto tempo, as crianças são quase as únicas que ainda conseguem fazer isso.

 
Para Khevyn e Emile, que em minha presença, constantemente, fazem essa travessia de ir e vir, entre os mais fantásticos mundos...

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

O Grande Poder do Mestre Verdelinho


"A terra deu, a terra dá, a terra cria, Homem a terra cria, a terra deu, a terra há"


Simplória e bela, cheia de céu, como uma grande estampa de chita, que veste a cultura popular, uma estrelinha que vem e vai embora e que torna a aparecer no dia seguinte, caminha pelo espaço poético de Verdelinho. Outras estrelas, maiores ou miudinhas, aparecem e trocam de lugar com outras mais apagadinhas. Surgem as batatas de manivas, que ajudam a reforçar os sentidos que constroem e reconstroem os ciclos da germinação. Há o orvalho que molha o chão, pontuando a manhãzinha, há insetos e há o homem: criatura dentre outras que nascem do ventre da Terra.

A ideia de redondeza delimitada pela simplicidade de como se vê a vida, torna conhecidas as possíveis dinâmicas reproduzidas pelo universo inteiro, suficiente e metafórico – intuicionista – no microcosmo que a Terra passa a representar, e modela-se na sua vitalidade de mãe. A Mãe Gaia, a que sendo generosa é geradora de toda a vida. Verdelinho expõe o segredo de tudo o que nos sustenta, porque ele sabe que existe, por lhe ter sido revelado, através da observação feita por um si só, homem simples, sobre e a partir de pequenas coisas.

Ele não precisa prescutar e não o faz. Toda a maravilhosa manifestação da vida que, a si mesma se inaugura, é o bastante para a presença da sua filosofia, como a verdade mais verdadeira, tão às claras que nos encandeia, e que permite que surja e se afirme em sua verve, despretensiosa e limpa. Límpida. Longe de influências das calorosas discussões científicas. À sua contemplação que o faz afirmar que há - não de que deva haver -, um grande poder vindo da própria terra e que a faz criar e destruir e criar novamente assegura a sua certeza e a sua reverência, de que ela também é criatura viva.

Sobre o seu próprio eixo, a Terra gira e o faz, porque tem poder, porque cumpre seus rituais obedecendo às regras do universo. Deu, dá e cria, diz Verdelinho, porque tudo o que vive sobre a terra, e por ela é gestado, é para ela também alimento. Ela tem poder porque tem sabedoria. A de gerir seus ciclos vitais respeitando seus tempos e limites. Poderíamos chamar a isso de rotina, que o homem não consegue suportar ou incapacidade nossa de ver que nada retorna igual sobre a terra, embora assim pareça? Somos nós os capazes de profanar os tempos, o templo e a sabedoria de Gaia, com a nossa insensibilidade.

Mestre Verdelinho se volta para o mundo, que diferente da terra, simboliza os resultados da nossa ação sobre o nosso lar. O mundo é o lar e a Terra é o ventre que deveria habitar em nós, da mesma forma que somos seus habitantes. É para os homens, para o seu mundo feito sobre a terra, e não para a terra, que ele apresenta em sua defesa, um poder maior. Soberano. É um poder capaz de corrigir o mal que a ela infringimos, com a nossa arrogância de poder. Filosofia sim, a do mestre, que derrama sobre seus versos, escrita que parece ingênua, pelo modo como é transmitido pela escrita, a sabedoria singela, de quem honrado, pode ser aquele entendido como alguém que teve a Graça de ter conservado o coração de menino.

Essa é a possibilidade humana, a nossa chave capaz de mergulhar-nos nas profundezas de Deus: O Grande Poder que “corrige o mundo pelo seu dominamento”. Verdelinho deve estar mergulhado lá!

Para conhecer a letra de Grande Poder, visite:
www.apalavraeparadizer.blogspot.com

Grande Poder, a poesia de Verdelinho

Grande Poder

O nosso deus corrige o mundo
pelo seu dominamento sei o que a terra gira
com o seu grande poder
grande poder com o seu grande poder.

a terra deu, a terra dá, a terra cria
homem a terra cria, a terra deu a terra há
a terra voga a terra dá o que tirar
a terra acaba com toda má alegria
a terra acaba com o inseto que a terra cria
nascendo em cima da terra nessa terra há de viver
vivendo na terra que essa terra há de comer
tudo que vive nessa terra
pra essa terra é alimento
deus corrige o mundo pelo seu dominamento
a terra gira com o seu grande poder
grande poder, com o seu grande poder
o nosso deus corrige o mundo...

porque no céu a gente vê uma estrelinha
aquela estrela nasce e se põe as 6 horas
quando é de manhã aquela estrela vai embora
tem uma maior e tem outra mais miudinha
tem uma acesa e outra mais apagadinha
seis horas da noite é que pega a aparecer
quando é de manhãzinha ela torna a se esconder
só de noite ela brilha em cima do firmamento
porque deus corrige o mundo pelo seu dominamento
a terra gira com o seu grande poder
grande poder, com o seu grande poder
o nosso deus corrige o mundo pelo seu dominamento...

o homem aplanta um rebolinho de maniva
aquela maniva com dez dias tá inchada
começa a nascer aquela folha orvalhada
ali vai se criando aquela obra positiva
muito esverdeada, muito linda e muito viva
embaixo cria uma batata que engorda e faz crescer
aquilo dá farinha pra todo mundo comer
e para todas as criaturas vai servir de alimento
deus corrige o mundo pelo seu dominamento
a terra gira com o seu grande poder
grande poder, com o seu grande poder.
o nosso deus corrige o mundo pelo seu dominamento...

sábado, 3 de dezembro de 2011

Arte alagoana exibe qualidade e beleza no espaço do IPHAN

Com diversidade de temas e técnicas, a exposição de trabalhos dos artistas alagoanos, revela criatividade apurada

Arte alagoana exibe qualidade e beleza no espaço do IPHAN
Perivaldo Figueirâ e Darcy Farias

Aberta à visitação pública até fevereiro de 2012, podendo ser prorrogada, o IPHAN deu início na quinta-feira, 1º, à exposição coletiva Arte Alagoana, em seu espaço destinado para exposições temporárias. Trabalhos de artistas com técnicas e temas diversos enchem o salão de cores e formas e têm como principal objetivo atrair a atenção dos novos visitantes à cidade, divulgar a produção das artes plásticas de Alagoas, além de levar ao local, os que apreciam eventos dessa natureza.

A realização do evento foi uma ideia da artista plástica Darcy Farias, que expôs uma individual: A volta a Jaraguá, no IPHAN. Quando soube da desistência por parte de outro artista que faria a exposição seguinte. Daí, com o salão disponível resolveu ocupá-lo, organizando a coletiva. A escolha dos artistas foi selecionada por ela, em conjunto com o também conhecido e experiente artista plástico, Persivaldo Figueirôa.

“A escolha dos artistas, além da diversidade de temas e técnicas, foi uma sugestão minha e da Darcy. Passa pelo bom trabalho dos artistas sugeridos e escolhidos. São amigos e que já nos reunimos em outros momentos. São nomes representativos em nossa capital”, pontuou Figueirôa, que também é o responsável pela concepção da montagem da exposição.

O período compreendido entre dezembro a fevereiro, podendo ser haverá no porto de Maceió o movimento de chegadas de diversos navios e segundo ele, em consequência disso, espera-se que um número expressivo de turistas visitem a cidade. Daí a relevância da exposição, que tem neles o seu público alvo. A divulgação da arte produzida aqui também repercute a divulgação dos nomes dos artistas locais.

Os artistas que participam da coletiva são: Achiles Escobar, Beta Bastos, Darcy Farias, Denise Matos Diniz, Dorgivan Ayres, Gicélia Sampaio, Gustavo Lima, Goretti Brandão, Graça Dias, Lys, José Tenório, Lula Nogueira, Marcos Plech, Orlando Santos, Persivaldo Figueirôa Salles, Sandra Nees, Tânia Pedrosa e Zita Soares.

Para os interessados: A disponibilização do espaço para as exposições temporárias no IPHAN são feitas através de editais. Selecionados os artistas, há em seguida um calendário para os eventos, esclarece Persivaldo.
 
O IPHAN fica na Rua Sá e Albuquerque, 157, logo no início do bairro de Jaraguá, para quem vem da Pajuçara. Dê uma passadinha lá!

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Sentir para mim é encantamento

Sexta-feira ensolarada. É bem provável que o dia avance dessa forma. Manhãzinha, chuva desproposital e de pouca molha, levantou um cheirinho de terra aguada. Acordo. Estou viva. Quero escrever, mas as palavras fugiram de mim, como fazem de vez em quando. Tudo que vejo é simplesmente tudo o que vejo e apenas o que vejo. A alma das coisas se esconde e meus olhos apenas refletem a vida sem mergulhar nela. 

Preciso da permissão do que existe por dentro do que se vê, para entrar naquilo que não se vê. Pensar sobre árvores, sobre a chuva, sobre a mulher que passa na rua catando lixo, me obriga a senti-los. Sentir é encantamento, talvez delírio, porque não me basta pensar sobre o que está claro: a árvore, suas folhas, sua raiz. A chuva que molha, a mulher que necessitada, cata restos nas lixeiras. 

Quero sentir a partir das imagens. Por isso é que me arrisco a sair do lugar de dentro de mim onde sou confirmada, para emprestar valor àquilo que, disposto, é quase sempre lido pelo pensamento, racional e tão exato que bloqueia outras versões da minha consciência. 

Persigo como um cão furioso a busca de significados, porque assim, vendo sem poder ultrapassar o que vejo, percebo-me como uma câmera fotográfica nas mãos de quem faz fotografias sem saber enxergar o sentido das coisas. Busco completude e respostas que acalmem a minha ânsia e a minha necessidade de exigir de mim mesma a resposta da resposta para aquilo que sinto que as coisas representam e o que posso vir a ser por causa delas. 

Tenho sede de significantes e neles, nos que estão diante de mim, quero infiltrar perguntas, como faço à interpretação dos meus próprios sonhos, para revirar pelo avesso cada símbolo que me invade, até esgotá-lo. As minhas melhores perguntas sempre são as que fazem o meu coração. Se por algum motivo perco com ele a intimidade, sufoco a alma e não consigo enxergar para além do que vejo. 

Não é de registros imagéticos que preciso povoar minha vida, mas dos significados que esses registros trazem. E extrair significados, valorá-los, conceituar relevâncias é a minha maneira de acrescentar profundidade à experiência de viver. Estou nublada. Acordei estéril. Funciono racionalmente em relação às minhas vivências no mundo, mas não me conforta definir as coisas pelo sim ou pelo não, apenas. 

Os critérios do pensamento me ocupam um território, eu confesso, pouco conhecido, atrofiado até, e que me sufoca por isso. É o sentimento quem respira em mim.


terça-feira, 15 de novembro de 2011

O morto-vivo


Este homem que encontro todos os dias, acha-se deitado sobre o chão da rua, esperando que as pessoas passem sobre ele, como se fora, ele mesmo, um quase morto. Não aprecia o contato com os outros ou com o mundo dos vivos. Passa-se como uma coisa qualquer, um sem-mãe que seja ou que nunca haja tido uma para ensiná-lo a vida. De outro modo não haveria sido o que se tornou: uma pessoa desprezível no mesmo grau e medida que despreza os outros. 

Vi-o, como sempre o vejo e por essa razão não cogitei perguntar por que se acha ali, estendido, barriga para cima, com um olhar vago de quem não sente, não aprecia nada e nem ama coisa alguma. Para que confirmar o que eu já sei? Há dias para os que passam, mas há anos a mim, que já o venho sondado, que a sua vida é um restinho de respirar, ler coisas que se refiram a desejos fortuitos e seus apenas, e mover-se em torno de assuntos redundantes sobre novidades que o mantenham cada vez mais, em apurado narcisismo. Tenho-lhe pena, confesso. Mas, prefiro espelhá-lo nas retinas dos meus olhos miúdos, à extensão de um denso sentimento de estranheza profunda, antecipando as minhas próprias angústias, que são inevitáveis e que não posso escondê-las. Pior do que ser um morto-vivo, é ter a certeza de que estou diante de um infeliz.

Falta-lhe algo que não posso completar ou que eu possa dar de mim, por mais que eu queira. Essa vontade mora aqui dentro, como coisa transformada em segredo. Um segredo criado à força, porque este homem não me quer escutar, nem a ninguém. Submeto-me a guardar em silêncio sepulcral minha inquietação e o desejo de tirá-lo dali, em definitivo, daquela rua onde se deita. Adianta lançar sementes em terra árida? Apenas dou-lhe as duas mãos para que se levante do chão, quando o percebo querendo se erguer, mesmo que depois volte a vê-lo na mesma posição e no mesmo lugar. 

Margeio, pois, a sua solidão empoeirada, a sua vida sem sentido e à deriva assim como a sei e que me incomoda, porque a rua em que se deixa abandonar é via da minha vida, e deitado sobre ela, ele é como as flores que vejo sujas, quando viajo por estradas de barro. Estradas e flores que sempre me levam aos recônditos aonde poucos vão. Lugares de flores singulares que se podem aspirar-lhes o pó, descobrindo-as tão belas ali, condenadas pela poeira à indiferença dos que trafegam e à própria indiferença por nunca se verem na realidade, porque o destino de serem flores de beira de estrada as oculta, e a maioria dos que por ali passam, não ligam pra elas.

É este o homem que nada sabe sobre as delícias da vida, por não saber nada sobre a grandeza do amor. Infeliz, se deixa ficar sobre o chão, destinado, esmoler de afetos primários, mendigo e mal nascido das entranhas de quem não o soubera amar, porque, também sem sorte, não fora vítima do amor, já que por maldita descendência afetiva, não pudera sê-lo e que por isso, talvez nunca pudesse ser dado a ele, o que através de gerações anteriores, não se compreendera nem se sentira, por se tratar o amor, entre eles, de um insondável mistério. Coitado do morto-vivo.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

A noite que mora na gente

Meio atordoada Emília acordou e viu que a tarde estava indo embora. Esfreguei os olhos, saltei da cama, a casa escuuura. Saí do quarto e fui acendendo as luzes. Primeiro a do corredor, depois a da sala, a da cozinha e a do lado de fora. Olhei as buganvílias que Adilson cortou na semana passada. Precisava fazer um estrago desses? Aquilo não foi o que se possa chamar de poda, foi destruição mesmo. O chão do jardim cheio de galhos, as flores pendidas e eu com pena das plantas. Pensei: Isso é natureza morta pra valer, e Adilson me perguntando sem nenhum dó, se juntava tudo e colocava na calçada, 'assim dona Emília, sem ‘impatar’ a entrada da garagem'. E aí eu disse que ele calçasse as luvas de jardinagem, primeiro, que buganvília tem um espinho medonho e ele respondeu que é uma dor danada quando a gente se fura,  e foi juntar os galhos. Pois bom. No outro dia, de manhã cedo, fomos eu e Olavo pra capital

Hoje, assim que foram chegando  de volta, Emília foi logo percebendo que do lado de fora do muro de Antônia, sua vizinha, a hera havia murchado. Coisa de um dia apenas. Mostrou a Olavo: olhe pra aquilo! Ele teimou comigo que não era o que eu e ele estávamos vendo, com aquela mania de me contrariar que ele tem. Desceu do carro e foi olhar de perto. Pegou nas folhinhas retorcidas, que nem São Tomé fez, incrédulo, enfiando os dedos nas chagas de Jesus. Adilson havia cortado os veios da planta. Emília deu de ombros: Por mim... O que se pode fazer Olavo? A hera saiu do meu jardim, foi pro dela, o que é que há? Enfeitou de graça o seu muro esses anos todos. Depois rebrota. Rebrotar como mulher, se Adilson cortou a conexão? Ela olhou pro marido e achou que conexão era uma palavra pra lá de descabida para usar como definição do acontecido. Teve vontade de rir, mas se conteve. Deu demonstração não, riu foi por dentro.

Entrei em casa cansada, carregando a tiracolo, meu notebook e a câmera fotográfica. Mais nada, e ponto final. Isso faz Olavo sempre reclamar, que eu penso que ele é carregador. Né não.  Mas é homem. Então eu me faço de rogada e remedio o descontentamento dele com o adágio: “Carregar peso é coisa pra homem, que é quem tem força” Sei usar de racionalizações quando me convém. Mas, ô que viagenzinha estressante. Pior do que aquela, só quando Olavo resolve ir bebendo cerveja. 'Um dia a polícia rodoviária lhe pega, Olavo, e aí você vai ver o que é bom'. Falo quase desejando que isso aconteça mesmo. Ele correndo feito um doido e eu me fazendo de besta pra melhor passar, dando alertas disfarçados: você está correndo mais do que o devido, ou sou eu que ando nervosa, hein Olavo? O ponteiro do velocímetro ia a mais de cem quilômetros, e eu usando de eufemismos para não acusá-lo de estar correndo demais. Não quero briga. Mesmo assim ele me olhou de través, com aquela cara de irritado por natureza, mas aliviou o pé um pouquinho, felizmente. Homem difícil esse meu. Muito difícil. 
Na terça-feira passada liguei pra ele: Está se sentindo bem, Olavo? Eu me referia ao seu humor me utilizando de subterfúgios. Uma evasivazinha proposital. Ele havia se esquecido de tomar o Olcadil antes de ir pro trabalho. Fui limpar a mesa, e lá estava o danado do comprimido que o deixa feliz, ali, miudinho, camuflado na toalha branca. Estou bem sim, por quê? Nada não, Olavo, eu só queria saber.

Primeiro vamos arrancar esses matinhos da calçada, depois vamos tirar as hexórias do canteiro e mudá-las pr’aquela jardineira, viu Adilson? É Emília lançando mão de seus eufemismos, agora, com o artifício de conjugar o verbo ir no plural, dizendo, vamos, para fazer de conta que o trabalho será compartilhado pelos dois. Um jeito dissimulado de mandar e desmandar. Você tem mão boa pras plantas, Adilson. Não vê que é só pegar nelas e elas ficam logo bonitas? Derrama elogio por cima de elogio a ele, que mexe na terra, vaidoso, como quem pega em ouro em pó. 'Dona Emília, agora nós vai aguar, né? Dá pra senhora ir pegar o regador lá em baixo pra mim?' Adilson é uma pureza só, não entende de eufemismos nem de palavras arrumadas com segundas intenções. O ‘vamos’ para ele é vamos mesmo. Sinto-me envergonhada de saber que sou capaz de artimanhas para esconder pequenas falsidades, abusos de poder ainda que domésticos, exercidos sobre servidores que nem Adilson. Tenha dó de mim, meu Deus, que sou miúda demais. Olavo não. Tem vez que até o admiro. É direto, e de uma sinceridade que dá medo. Fica desconcertado quando me revelo olhando só pro meu umbigo, dizendo impropérios, usando de insensatez, sendo avessada, irracional, maldosa demais, assim, e chamando a isso de sinceridade. 'Cansei de usar máscara, Olavo'. Depois, longe do olhar dele, eu tenho é medo de esvaziar meu coração. 'Olhe pra mim desse jeito não, Olavo, que eu sinto que preciso experimentar esse lado escondido, essa vontade de dizer que acho é pouco, pras coisas que sinto desse modo, e que vivo abafando'. Mas quando lido com esse aspecto de mim, parece que não vou saber dosar meus sentimentos. Estou como se fora duas versões de mim mesma. No fundo, sou uma criaturinha querendo juntar peças de um quebra-cabeça para saber quem preciso ser. Quero aprender a mediar razão e coração.

Emília chegou à janela, olhou pra fora. Sentiu o cheiro de vida acontecendo. Suspirou profundamente. Que grandeza a de Deus! Tão perfeito... Às vezes aceitar sentimentos nossos, desconhecidos, dói. É como descobrir a escuridão, que estava ali e tinha-se espalhado sobre tudo. Grande demais. Misteriosa demais pro entendimento da gente. Dá medo. Melhor mesmo é conhecer e lidar com a noite que mora na gente. 
Uns meninos passaram fazendo barulho pela esquina. Emília se lembrou de Lelo, que criança pequena, olhou pra vastidão do universo lá fora, fitando a abóboda celeste como se fosse pela primeira vez e gritou feliz: ‘A lua ta rasgando o céu!’ Deslumbrada, a criança havia descoberto os astros luminosos saídos do escuro e diante da outra versão do dia, começara a entender o anoitecer “que coisa linda!” dizia, e sem tirar os olhos daquilo tudo, me perguntou: “Já é de noite, né, mãe?”

terça-feira, 8 de novembro de 2011

"Ser artista é uma dádiva"


Cansado de pintar mesmices, Orlando Santos faz brotar dos seus pincéis para as telas, um povo simples, o cotidiano e o regionalismo, através de um estilo pessoal, marcado por tendências cubistas

O artista Orlando Santos
Homem de estatura mediana, brincalhão e de humor fácil, ele é um dos principais patrimônios vivos de Porto Real do Colégio, terra onde nasceu. É graduado em Contabilidade, sendo que, 31 dos seus 52 anos, são dedicados às artes plásticas. O alagoano, conhecido nos circuitos da cultura local, era ainda um menino de 12 anos, quando começou a pintar. Seus trabalhos já ganharam o mundo. Estão no Canadá, na França e em Portugal. Em Maceió, sua arte pode ser vista em hotéis, órgãos públicos federais e estaduais, instituições, pousadas, consultórios e residências. Minha conversa é com ele.

O que é ser um artista? Quais os louvores e as dificuldades em ser artista em Alagoas?
Ser artista é uma dádiva, nascemos com esse talento, embora o tempo nos faça refletir na opção dos seguimentos, assim buscamos em livros e pesquisas algo que nos revele o belo prazer. Em alagoas é muito complexo, o movimento irradia pelas vertentes do individualismo, parecendo até uma competição, onde o talento adormece com muita facilidade, e as pessoas dotadas ficam a mercê de meias dúzias para terem seu trabalho reconhecido.

Quem vai ao Aeroporto Zumbi dos Palmares pode apreciar um dos seus belos trabalhos. Percebe-se que ele tem um forte apelo e influência do movimento cubista. O que o faz escolher tais características em suas composições?
Estava meio cansado de fazer as mesmices, todos pintavam coisas parecidas, e eu estava num estagio de desenvolvimento onde me sentia  preso pela pressão  dos outros. Isso me incomodava, passei um certo tempo sem pintar,  em pesquisas descobri novos estilos, dentre eles me deparei com o Cubismo. Mas eu não queria um cubismo prostituído, eu queria um cubismo que eu tivesse domínio, cores, e movimento... Pois há muito o movimento não aparecia, e eu me sentia sem perspectiva para continuar pintando. Achei fantástico o que lia me interessei, e fui pesquisando até achar um artista que em me identificasse dentro do cubismo. Achei Chagal, que não queria ser cubista, mas tinha um trabalho figurativo que me impressionou. Dai em diante entrei noutras academias e descobri Braque, Cezanne, Picasso, Tarsila, Di Cavalcanti, Portinari, todos foram minha luz... Segui... 
Cana café
No início do movimento, até 1912, o cubismo apresentava cores moderadas, formas, com predominâncias geométricas, desestruturas e desmembramentos. Decifrar a obra era uma condição que se seguia à sua apreciação. Era o Cubismo Analítico. Na segunda fase, no Cubismo Sintético sugiram as cores fortes, além das formas, agora voltadas para o reconhecimento das figuras. Seu trabalho tem como premissa, o cubismo dessa fase?
Não, o cubismo analítico me encantara por demais, eu nunca gostei de juntar pedaços, ou metade de elementos, colagem, (coisa do Cubismo Sintético) isso não me interessava.  Enveredei pelo analítico, porque me sentia mais espontâneo para expor minha condição e conhecimento especifico vindo de outras academias que eu admirava. Achei que ser figurativo era o suficiente para trabalhar as transparências que não existiam no cubismo, e dar formas e expressão cubista para ser um inovador do cubismo aqui, quicá noutros lugares. Como dizem por ai, “é muito difícil ser cubista, e você retrata muito bem a gama de suas cores próprias.” Aprendi desde cedo a ter personalidade artística.

No Brasil, artistas como Tarsila do Amaral, Anita Malfatti, Rego Monteiro e Di Cavalcanti, apresentam características cubistas em suas obras. De alguma forma esses artistas tiveram ou têm influência em seu trabalho?
Di Cavalcanti tem uma predominância pela sutileza e expressão das multas, embora eu me detenha ao direito de fazer figuras expressivas com conotações brasileiras, porém as cores típicas da nossa região fumegam entre telas e telas, e me parece mais arrojadas por ser nordestino. Ele não era cubista, mas influenciado por Portinari que também não era cubista, tinha uma tendência natural ao que na época se chamava cubismo. Acho que entre Portinari e Di Cavalcanti, eu descobri bem mais minha arte, porque freqüentei o ateliê do Adélio Sarro em São Paulo, e descobri novos movimentos artísticos que me influenciaram, mas não me tiraram o direito de ser artista único naquilo que faço.
Carro de Boi
 Pablo Picasso, como um dos precursores do estilo, é um dos primeiros artistas que nos remetem ao movimento. Sabe-se, portanto, que entre 1907 e 1909, as obras de Cézanne deram início à fase do cubismo. Diz-se que no Brasil não encontramos artistas exclusivamente cubistas. Como você se considera então?
Me considero um artista ousado, que buscou em pesquisas um trabalho maturado de curta duração, mas que marcou a época de 1907 a 1912, por não ter tanto cubistas na época, não foi possível a continuidade da academia, mas aqui somos poucos com essa tendência... Se não me engano eu sou o único que tenho essa influencia forte abrasileirada que carrego na alma e na consciência.

Sobre Picasso; o que você acha da sua obra?
Acho fantástico o trabalho da fase azul fase rosa, onde ele sintetiza suas angústias e revoltas, e sentimentalismo. Quanto à fase cubista não me interessei muito não, achei muito grotesco a expressão de Guernica, me deixou aflito a expressão angustiante, e aquelas metades utilizadas por ele não me trouxeram sensibilidade, eu não me sentiria bem se o retratasse. Respeito–o, ele era muito bom no que fazia, temos que respeitar, cada um faz e retrata o que chamam de arte da melhor maneira possível, aquela era a forma que ele achou para representar. Observando que as Damas de Les Demoiselles ele conseguiu fazer algo interessante no meu humilde entendimento, mas não captei uma mensagem igual noutros trabalho do mesmo seguimento. Com isso digo-lhe que era foi um gênio na descoberta, e conseguia retratar o cubismo iniciado por Cézanne de forma própria, isso sim me chamou a atenção, mas observo que ele tinha sua própria personalidade, e criou assim seu próprio estilo cubista. Foi o que eu fiz.

Como surgem as ideias: as cores, as figuras e os temas para os seus quadros?
Surge naturalmente, tenho um conhecimento dos círculos das cores, e acredito que isso me ajuda muito. As figuras surgem do nosso regionalismo, do cotidiano, da vontade de crescer de um povo simples e trabalhador, me inspiro muito no camponês, acho fantástica a lida, respeito e acredito na felicidade deles. Acho que a candura do olhar, a expressão, interagindo um ao a outro é um foco importante na nossa cultura.

As pessoas que freqüentam os salões de exposição, em sua maioria, se referem ao seu trabalho, que tipo de menção elas fazem? Elas identificam o seu estilo ou perguntam algo sobre a sua maneira de pintar?
Elas identificam muito bem, questionam a tenacidade da luz, a transparência e harmonia das cores, o circulo entre elas estão estampado em todas as telas, dizem que meus traços são de personalidade própria, e em pouco tempo muitos aproximam e dizem “Parabéns” você consegue um domínio que não encontramos com facilidade. (Isso me deixa feliz)

Como seus quadros são vendidos e quem são os compradores das obras do artista Orlando Santos?
Geralmente os clientes me procuram e fazem as encomendas, eu não pinto por série, geralmente faço um trabalho voltado para o objetivo do solicitante, quando me objetivo expor coisa que há muito não faço por falta de espaço, eu sigo um tema peculiar, e me dedico por inteiro. Sou fiel ao meu trabalho.

O que você acha que poderia ser feito, melhorar o interesse e impulsionar um comportamento positivo nas pessoas, para maior repercussão na sociedade, relativo à apreciação e valorização da arte e dos artistas alagoanos?
Acho que a classe artística se retrai muito, parecendo até que cada um tem seu trabalho e pronto. Esse comodismo artístico desestrutura o interesse de uma sociedade perceptiva. Acho que um movimento primoroso que pudesse respeitar o objetivo de todos talvez valorizasse mais o artista, e chamasse a atenção do povo. Qualquer movimento unificado gera frutos, se bem que não temos espaços, somos desintegrados, apenas lutamos com força para não deixar a peteca cair. Acho até um pouco de ousadia.  
A apreciação de um povo dar-se pela cultura, esse ícone é muito peculiar, nem todos pensam na arte como arte, então não temos muito que nos preocupar com esse rótulo, mas fazer nosso trabalho, expor e convidar as pessoas que valorizam nosso trabalho. A arte precisa ser contemplada de outra maneira.