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Sob o olhar do infinito

Dias esses pedregosos. Antes, sentada no primeiro degrau da escada que dá para outros cômodos da casa, apreciara as noites do céu. Imaginava que, o universo aquela vastidão, a pudesse tragar numa viagem pelo desconhecido. Vagar por entre os astros, em carne e osso, não. Não a si mesma, feita do tecido humano, mas vagar na força das perguntas, sobre o que significa o universo, o que significa ver aqueles pontos luminosos que lhe causam arrepios, e perguntar sobre as constelações, e pressentir ser capaz de entender tudo o que seus ancestrais souberam sobre as estrelas. Dias esses de incertezas, e a curiosidade, sempre, estabelecida, sendo a causa de reverências, só de pensar que diante da Via Láctea, tudo seu, toda a sua alegria, toda a sua dor, suas pelejas e conquistas, seus questionamentos, poderiam ser resumidos em tolas abstrações e desintegrar como sofismas. Haveria ela, então, de ser um nada. Um nada a observar que as distâncias celestes e as luzes astrais, tinham tanta gran...

O cheiro da vida

A paisagem passa ligeiro. Aridez de quase deserto - é como estar vendo por dentro de Isaura -, o seu deserto tão bem escondido, entre a alma e as suas vísceras. (Pudera ver por dentro das outras pessoas, como tão bem percebo Isaura: as suas teias de aranha, seus velames, suas folhas queimadas, a árvore seca que aponta galhos aflitos e afiados, contra um céu que dita um único tom de azul, para o que a vista oferece).  A desolada visão, ao contrário do que deveria motivar tristezas, emite uma ponta de alegria que reverbera lá dentro e como uma onda de emoção, vem para fora em forma de um solitário sorrisinho disfarçado.  O carro corre pela estrada. Um homem que viaja desconsolado declara ao motorista que “mulher só vai é com tabica na bunda”. Isaura e outra mulher que se sentara no mesmo banco, se entreolham e disfarçam o riso, ambas, cobrindo a boca com uma das mãos. Por que teriam sorrido? Isaura sabe o porquê de se rir. É que a invadiu um estranho gosto de vitória, por ...

Perdido

Sou a inteireza de onde te arrebentas em fragmentos. Por isso a mim consinto trafegar as desagregações dos seus passos errantes. Perdido estás, e ao teu extravio e a ti, eu te maldigo. Maldigo-te por ignorares a tua sombra que ti devasta, e que indignada, perverte e confunde tua fome e tua sede, que o condena à inapetência e o abandona, mendigo, à mais cruel autofagia. Tu és vácuo, e eu bendigo o teu vazio,  único reduto e sentido que de ti resta  e que me alimenta viva e constante. Tornei-me saprófaga e nutro minhas raízes dos teus restos, e me alicerço, incorruptível, no labirinto que ti consome e que o faz perder-se. Conheço-te em todos os teus atalhos, porque ando sobre os teus muros, e sei de todas as vezes que erras o caminho Rápido. Percorra-te em todos os lugares de ti Se ti achares, me acharás...

Meia-idade

E ntardeço acumulando primaveras e flores,  com a modéstia senhoril de uma jardineira, que entendeu das cíclicas estações os enredos: como o encharcar de begônias o excesso de zelo, como ver na brincadeira dos ponteiros do relógio, os números do tempo sobre os jardins. Um gato preto roça o rabo por entre as minhas pernas e mia Maria Emília que engelha murchando como um maracujá, quer despejar em minha casa as novidades da rua e encher meus ouvidos de pecaminosos vexames. Queria fazer bolhas de sabão,  com as artérias do mamoeiro acolá, para me livrar de maledicências e afugentar mesquinhezas.  À narrativa do instante perturbo o que fui em menina. Movo, com o dedo indicador, pedaços de infância que trafegam na poeira de um facho de luz,  e entram em diagonal pelas fendas da porta. Para me espelhar como gente grande na sala de jantar, Deixo-me cravar pela seta de fogo, viro sombra,   e  me meto, impreterível,  no rumo de pequenas formigas...

A PALAVRA É PARA DIZER: Garida

A PALAVRA É PARA DIZER: Garida

Garida

Imagem
Na tarde quente, o fogão de lenha metia fogo pelas ventas. A parede era negra,  as vigas eram negras,  as telhas enegrecidas. As imagens despejam-me a fuligem por dentro. À panela, douravam os lambe-dedos e frigia o vento. No quintal, a goiabeira, o pé de café e o silêncio. O pilão dormia em um canto. As folhagens oscilavam e enverdeciam a vista. Mais tarde, cadeira de balanço lá fora, A ver chegar as primeiras estrelas, A rua inteira era um pavilhão de repertórios e imensidões, e ninguém sabia que depois, amontoados, serviriam à saudade, que como uma serpente,  sibila sobre as páginas onde se cravam as lembranças. Um fantasma alto e magro assobia uma canção, me sorri, me traz no colo e me conta estórias de trancoso: Era uma vez uma Margarida, que viajou para o céu...

Figurado

Pássaro inocente, cujas asas distanciaram-me o universo e o vôo Entrou pela minha varanda e brigou com a transparência, sem entender o vidro da porta, assim como não sei ultrapassar o meu destino. Sou eu sim, a subir discretos relevos, A arriscar-me em rasantes vôos. Minhas asas feitas em casa, de velhos lençóis sobre os ombros, Alça-me até agora sobre a mesa da cozinha, sobre janelas da fachada,  voando sobre um  céu feito de calçada e cimento, sobre o tempo da memória das coisas. Dessas coisas é que me saiu do peito a ave, quebrantando a limpidez, agora, sem entender a porta. Sem o refúgio no mistério do vidro, desguarneço. Perdi-me do mundo do faz-de-conta, Perdi das asas o vôo tecido em algodão E os fragmentos pontiagudos transluzidos, cobrem o limiar da porta, entre mim e os meus medos. Para atravessá-la, h averei de dilacerar os pés.