O vídeo busca interpretar, ainda que de forma amadora, a primeira parte do poema de João Cabral de Melo Neto. Ele foi produzido por mim, Francimária Ribeiro e Roberto Wagner, em 2009.
Soledade tinha ido fazer uma faxina no quarto de dona Aurora e vexou-se em pouco tempo de serviço. Encontrou uma caixa de papelão com muito cacareco dentro. Frascos de loção secos, de Leite de Colônia, embalagens de plástico de Leite de Rosa, Charisma, carretéis de linha, mochilas de papel. Oh, mamãe, venha aqui, por favor. Dona Aurora que mexia um doce de leite na cozinha, deu descanso à colher de pau sobre um pires, e sem tirar o avental, caminhou com passos ligeirinhos e sem arrastar os pés até o quarto. A filha, impaciente, quis tirar satisfação sobre aquele troço todo, que à primeira vista, desnecessários, só servia para atrair baratas. Para que tanto lixo guardado, mamãe? Vamos jogar isto tudo fora. Dona Aurora, do alto de seus mais de setenta anos, encheu as ventas de fogo e correu os olhos dentro das órbitas. Mas... encheu-se de calma e sem alterar a voz, explicou coisa por coisa que ali havia juntado. Percebeu com a mesma calma, prêmio daquela paciência aprendida com os anos, ...
De um lado o caminho de sempre que não é mais o mesmo. Não será jamais. Mas enquanto olho pela janela do automóvel, busco recompor a minha cidade, derrubar esta que é outra, que a outra não me diz o que dizia. Eu tenho que escavar pelo menos cinco décadas soterradas para trazer o presente que há muito prescreveu. Depois de retirada a terra do tempo, anseio ver Kilé, a preta, e o seu tabuleiro cheio de laranjas descascadas e seus roletes de cana. Ela, ali, sentada no lugar de sempre quase à entrada do campo de futebol. Meu pai está comigo e segura a minha mão enquanto caminhamos rumo aos pés do morro. Aos pés da vida, aos pés de tudo. Olho meus dedos fincados no chinelo. E tudo torna-se ventania, e poeira e desejo de eternidade.
Não se pode dizer que aquele silêncio era um daqueles necessários. Os dias mergulharam a presença do rapaz numa escuridão fora do comum. Era outra a realidade, como também não era nada o que tinha sido desejado antes. Não se tinha notícias do que fizera ontem ou anteontem, ou depois que fechou-se à entrada da vida. Dormia estendido, talvez, sobre a cama e sobre lençóis encharcados de suor. Quando uma vez levantou-se, foi para tirar a roupa. Tudo era escuro. Tanto dentro quanto fora, o que era apenas o mais que real reflexo da ausência de quaisquer interesses. Lá na rua os carros passavam, os barulhos, as vozes, as buzinas, a fumaça e na calçada do prédio, o vai-e-vem de pessoas era contínuo e indiferente. Quem sabia, senão os vizinhos, que o rapaz estava ali? Violeta sempre deitava para dormir pensando nele. E mesmo antes de pegar no sono fazia orações ao seu anjo da guarda. Assaltava-a a ideia - não -, a certeza de que aquilo não acabaria bem. Na verdade, o rapaz já havia a...
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