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Pensamento embolado

 Adilson me faz raiva. Daquelas que a gente tolera e vai levando. Desatencioso, faz que escuta o que digo mas não ouve. Ouvido de mercador. Responde 'tá certo, tá certo, dona Violeta, mas nem se presta à atenção. Quis atingi-lo essa manhã e sem dar tempo dele tomar fôlego, sem preparar o terreno, anunciei sem rodeios nem misericórdia, a morte de um cantor de bregas antigos. Um daqueles de sua devoção. Ele parou de arrancar os matinhos do jardim e ficou ali matutando. Coçou a cabeça. E eu satisfeita, me sentindo vingada, mexi na emoção dele, só para aumentar mais um pouquinho a sua tristeza. ' Quer ver a notícia na internet, quer? Eu mostro'. Queria ver sim. Queria ver para acreditar. Como consolo de si pra si, cantou a música mais conhecida do cantor e foi buscar na memória quantos cd's tinha, a lembrança de um show que tinha ido. 'O artista era dos bons. Sabia entrar e sair do palco com educação. Fazia bonito'.  Calou-se, resignado. Voltou a tirar matinho por m...

Velório

  A mulher que morava nos arredores, tinha ido velar dona Rosa. Quando chegamos na casa, ela já estava lá muito à vontade, bem no meio da sala. De costas para os pés da falecida, como se estivesse na feira, dona Creuza contava às outras mulheres presentes, que ele, o rapaz, que a filha de tal fulana, conhecida de todo mundo ali, tinha se envolvido, enganou a ambas. Falsificou documentos e levou a moto da mãe dela. Que as crianças, tinha muita pena, queria que o pai pedisse a guarda e levasse as duas com ele. Fez contas dos gastos. Cinco mil reais. Deu de entrada para comprar a moto. E o miserável ficou com ela. A filha da falecida, em meio às lágrimas, falou por entre dentes ´que aqui não é lugar de se lavar roupa suja´ e, tendo uma crise de sentidos soluços foi levada para o quarto amparada pela irmã mais velha. Um rapaz magrinho que usava um corte de cabelo desses modernos, nem parecia, mas era o encarregado de encomendar o corpo. Dona Rosa quieta, sob um véu de filó branco, ...

Inocência

 O menino pequeno chorava se sentindo largado: "quero ir pra minha casa. Eu moro perto de "Bizola" Era o nome do candidato à presidência do país pintada com tinta vermelha na única parede intacta dos escombros em frente à casa. Ainda me pergunto quem traduziu para ele, que  não sabia ler nem falar direito. A mãe, o irmão mais velho... Voavam as pequenas borboletas pretas naquele quase jardim desarranjado, feito por si mesmo, de verdes, chananas, beldroegas, restos de tijolos e lixo. Assanhavam-se legiões de mosquitos e o cantar dos sapos nos dias de frio. "Eu quero ir pra minha casa" Um dia chegou da escola antes da hora todo feliz, "mamãe, hoje não vai ter aula: o marido de tia Carla, morreu!" O menino hoje é um homem. De pequeno restou nele meia dúzia de tristezas que ainda agora reverberam. Comigo é quase igual: quando fui crescendo desconheci o paraíso e quase morri afogada tomando banho no rio. Passada a agonia, falava nisso orgulhosa. Achei que ...

Espelho

Na esquina aqui de casa o chão é de barro vermelho, e as paredes dos muros se estendem pela rua estreita e vão dar pra outros caminhos. Não demora e logo haverá meio-fio e calçamento. Cheguei à metade da vida e fui adiante, preocupada em me sentir amada. Outro dia me deparei com o espelho da cristaleira da sala e encontrei uma senhora gordinha tão assustada quanto eu. Minha mãe que me condenava todo o tempo de não querer crescer, não entendia como as dores do mundo me atormentam tanto. Eu nunca soube ouvir as estórias tristes que ela quis me contar. Minha mãe que não entendia meus sentimentos e me via como tola e muito frágil, por certo e contra a sua vontade,  se reconheceria diante da minha imagem refletida. com o mesmo olhar que o dela procurando amor.

Inesperado

Minha irmã desceu as escadas e olhou para o jardim que eu tinha inventado de fazer no fundo da casa Admirada quis saber como fiz aquilo? "Foi uma vontade que me deu de encher isso aqui de flor" Tinha dividido o quintal em duas partes Marinalva era mulher da roça. Parecia tão forte,  mãe, nem lembro mais de quantos filhos. Quantos filhos? De manhãzinha chamou os m eninos pra tomarem o café. Uma dor de cabeça,  fui visitá-la depois, presa a uma cama. Só mexia os olhos... Coitada. As flores do meu jardim me levaram às rosas dela e a ela, de novo, e de novo. Deitada, a casa velha no meio do mato, o telhado cheio de teia de aranha e as galinhas soltas no terreiro, cacarejando, uma lembrança que planta em mim  tanto espinho. Tem vezes que o meu coração abre essa gaveta

Entre a porta do banheiro e o corredor

Não se pode dizer que aquele silêncio era um daqueles necessários. Os dias mergulharam a presença do rapaz numa escuridão fora do comum. Era outra a realidade, como também não era nada o que tinha sido desejado antes. Não se tinha notícias do que fizera ontem ou anteontem, ou depois que fechou-se à entrada da vida. Dormia estendido, talvez, sobre a cama e sobre lençóis encharcados de suor. Quando uma vez levantou-se, foi para tirar a roupa. Tudo era escuro. Tanto dentro quanto fora, o que era apenas o mais que real reflexo da ausência de quaisquer interesses. Lá  na rua os carros passavam, os barulhos, as vozes, as buzinas, a fumaça e na calçada do prédio, o vai-e-vem de pessoas era contínuo e indiferente. Quem sabia, senão os vizinhos, que o rapaz estava ali?  Violeta sempre deitava para dormir pensando nele. E mesmo antes de pegar no sono fazia orações ao seu anjo da guarda. Assaltava-a a ideia - não -, a certeza de que aquilo não acabaria bem. Na verdade, o rapaz já havia a...
Manhã. Tudo branco ou tudo como se eu quisesse branco? No muro alto a hera planta-se. Firme. Agarrada a parede. Do lado de dentro, a casa. Silenciosa. Os móveis adormecidos e cheios de objetos dentro, esperam. Do lado oposto, balançam as folhas de uma árvore. Movimento. Os contornos do branco borram a cena antes estática. Novamente dentro, o barulho que o gato faz comendo a ração quebra a imobilidade. Não o silêncio. Esse, meu, que debulha pensamentos, onde cabem os sons de pássaros, é pura magia. No jardim interno, grandes folhas da jibóia avançam sobre a parede de pedra, libertando as novas folhas que atravessam, vitoriosas, as pérgolas e vislumbram um mundo de telhados e céu. Chuvisca. O gato cheio de direitos, pula sobre a bancada. Dono de si, me olha satisfeito, rabo hirsuto, sinalizando felicidade. O sol acende um raio amarelo. Disputa a manhã com os pingos d’água. Impõe-se lançando mais raios, mais amarelos, mais luz. Maribondos voam, pensamentos voam, palavras voam... Alguma ...

Passou

  Esgarçou-se a fibra do tecido que não esperava por isso... E por trás da brecha como na tv, o esperado invadiu meus olhos. Pronto! Passou... Aquele show de Milton Nascimento e Chico Buarque, que eu desejei tanto assistir.   A camisola da minha mãe, que na gaveta inexistente, É teimosa em fingir estar lá. O livro onde a minha avó escolheu guardar uma pena do papagaio, Uma folha de goiabeira e pequenas flores. De novo, E, de novo, e já passou. Pronto. A maturidade sem músculos, das minhas irmãs e a minha, a pele solta que engilha os braços... os mesmos que nos abraçam. umas às outras, nos apoiando. Éramos ontem e hoje, somos? Talvez as mesmas, talvez, não Pronto. Passou novamente. Estamos nos segurando na brecha que se abriu, surpresas. Surpresas. Somos o tecido e o rasgo.

Depois de ontem

De um lado o caminho de sempre que não é mais o mesmo. Não será jamais. Mas enquanto olho pela janela do automóvel, busco recompor a minha cidade, derrubar esta que é outra, que a outra não me diz o que dizia. Eu tenho que escavar pelo menos cinco décadas soterradas para trazer o presente que há muito prescreveu. Depois de retirada a terra do tempo, anseio ver Kilé, a preta, e o seu tabuleiro cheio de laranjas descascadas e seus roletes de cana. Ela, ali, sentada no lugar de sempre quase à entrada do campo de futebol. Meu pai está comigo e segura a minha mão enquanto caminhamos rumo aos pés do morro. Aos pés da vida, aos pés de tudo. Olho meus dedos fincados no chinelo. E tudo torna-se ventania, e poeira e desejo de eternidade. 
Diante de mim deitam-se meus sentidos quase esquecidos da palavra. Às vezes eu dispenso letras e viajo para o paraíso das formas e das cores. Se há como ter falado é através de gestuais, tritura papéis, mexe goma e cria estruturas, que falam sobre esse meu desejo de tornar em poesia palpável, o que possa traduzir o que significa estar aqui. A arte trafega sobre um momento eterno de tensão onde uma cortina quase transparente ameaça romper-se. Está a um passo de esgarçar-se e resolver o paradoxo, a luta dos opostos, a aparente falta de nexo, que induz à certeza do excesso. Aquilo que suponho ser a minha criação é como um traço que se quer em linha reta, mas uma mão que não é a minha, a conduz a cortar no papelão duro outra criação. Mais bonita, muito mais do que eu pensei. Que mistério eu sou nas mãos que me modelaram...

Amanhecer

Para ontem um hoje que madruga. Meu gato é medroso,  conheço pelo olho arregalado, as costas curvadas, o pelo arrepiado. Como conheço a madrugada ainda escura. essa coisa da noite não querer partir, e a mulher que partiria ao amanhecer estar ansiosa pela última das vezes, perguntando: Que horas? Que horas são? Sabia que iria embora assim que a primeiríssima luz viesse? Teria medo? Estaria ansiosa? Meu gato é tão desconfiado, mia e mia, mesmo tendo comida, tendo meu olhar e minha voz. Mesmo sendo aceito. E eu,   essa mulher que às cinco da madrugada, entre miados e sustos, acordo aos pulos, o coração aflito, sei que o sol é para mais um dia, Portal para o que tem que ser, Então... que o dia amanheça.

Todos os barcos

Quando Violeta abriu os olhos naquela manhã - que nem sabe precisar quando -, viu que era a última de tantas outras dormidas e sonhadas - de sonhos perdidos. Perguntou-se se aquilo tinha que ter sido daquele jeito e, sem outra resposta que não fosse aquela, correu a modificar todas as lembranças. Eram todas inexatas, algumas falsas, algumas meticulosamente dispostas como se fossem verdadeiras. Serviram ainda as fotografias? Quem sabe. Veria depois, sem vexame. Havia sobrevivido a uma dor renitente que há anos doía. E como doía. Mas, com insistência cobriu-se e a seus olhos, e aos seus sentimentos, com uma desonestidade de fazer ainda mais dó. Ridículo aquilo. Seria para salvar-se a si mesma do insucesso no amor? Sei lá... Para que julgar-se? Mas, admitia ter se servido sim, de subterfúgios, para atravessar um sentimento nunca correspondido. Era só a vontade dela, O que em vez de ser uma pena, para a sua surpresa, foi um sucesso às avessas.  Violeta ponderou que todas as suas lágrim...

Acordada

Meus livros dormitaram na biblioteca sob grossa camada de poeira. É tamanho o tempo deste descaso. Meu dedo sujo experimenta o pó acumulado, O silêncio das coisas esquecidas por anos. Uma possível história de amor,  um conto de fadas, O gatinho magro que foi ficando e ficou, enquanto esperei sem saber o que esperava. Por isso é que chegaram amanheceres desconexos, aqui e depois de agora (ontem e ontens) Este plural inexistente para hoje e para o que dormiu e fingiu passar. Talvez a vontade louca de que tudo fosse o que não fosse. Talvez a denúncia tardia, o olho aceso propositadamente encoberto, e eu, dizendo a mim mesma, que nada podia ter sido como foi. Acordo, enfim... E encontro as roseiras cheias de botões, um beija-flor, um bem-te-vi cantando alegre. o meu sonho de flores parindo outras. Espanto a poeira, abro os livros e vejo. que felicidade!.  Tem tanta coisa que não tinha lido ainda...

Sem Assunto

  Deitada no sofá da sala, uma perna erguida sobre o encosto, Celeste vasculhava distraída o pedaço de céu recortado, bem acima da jardineira do muro. Quanto mais nuvem melhor, pensava. Brincava de ver anjos e bichos que desmanchando-se diante dos seus olhos, evaporavam manchando aquele azulzão celestial. Nela, um desejo ardente de ver coisas sobrenaturais e que de repente, pudesse ser aberto um portal para o Mistério. Mistério, com letra maiúscula mesmo. Algo inacreditável, impressionante. Só de pensar sentia um medo enorme de não aguentar ver o que, segundo a sua própria imaginação ousava pensar, pouquíssimos olhos humanos ou nenhum, talvez, tivessem visto, e morrer de repente. Pensamentos malucos que iam e vinham. A tarde seguiu vagarosa, mastigando os segundos, os minutos e as horas que declinaram na dormência do sol. Celeste seguiu pensando fragmentos. Do que havia feito pela manhã, do cochilo que acertou em cheio a sua distração e arrebatou-a para o esquecimento de si. De...

Rabeando

 Atravessando essa chuva todinha e nem deixei palavra dentro do inverno. Pior para mim, que por desleixo, comprometo uma estação, sem dizer minhas coisas. Mas elas estão aqui, sentindo. E quando eu digo; coisa, eu quero dizer muita coisa. Nesta casa que goteja palavras soltas, sonhei outras. Por esses dias sonhei duas casas. Eu, numa sala imensa sem reboco, um canto desejoso de sofá e dois abajures. Sim, logo dois. A outra casa nem entrei. Na fachada, salitre, uma bagaceira. Esmurrei a parede, uma força... e abriu-se um buraco. Olhei por ele e pensei, ‘se continuar assim vai cair tudo’. Alertei o dono da casa. ‘Ô, Seu menino, se não cuidar, essa frente vai cair. Pode cair a casa toda, viu?’.  Nesse tempo o silêncio me fala sobre inexatidões. Dos dias chuvosos saíram estopins de bombas e notícias, a maioria tão tristes. Cheiro de pólvora, não. Nem senti. Senti alguns medos, coração disparado, uma dorzinha aqui de um lado. Depois saudades, depois lágrimas, depois, amanheci com a...

Com quase sessenta

Soledade tinha ido fazer uma faxina no quarto de dona Aurora e vexou-se em pouco tempo de serviço. Encontrou uma caixa de papelão com muito cacareco dentro. Frascos de loção secos, de Leite de Colônia, embalagens de plástico de Leite de Rosa, Charisma, carretéis de linha, mochilas de papel. Oh, mamãe, venha aqui, por favor. Dona Aurora que mexia um doce de leite na cozinha, deu descanso à colher de pau sobre um pires, e sem tirar o avental, caminhou com passos ligeirinhos e sem arrastar os pés até o quarto. A filha, impaciente, quis tirar satisfação sobre aquele troço todo, que à primeira vista, desnecessários, só servia para atrair baratas. Para que tanto lixo guardado, mamãe? Vamos jogar isto tudo fora. Dona Aurora, do alto de seus mais de setenta anos, encheu as ventas de fogo e correu os olhos dentro das órbitas. Mas... encheu-se de calma e sem alterar a voz, explicou coisa por coisa que ali havia juntado. Percebeu com a mesma calma, prêmio daquela paciência aprendida com os anos, ...

Um sentido novinho

Os gatos eram muitos e passaram correndo pela cozinha fazendo um escarcéu, igual àquele dia quando Dionê, quase sem fôlego, veio até nossa casa contar que Belmiro anoiteceu e não amanheceu. Tinha ido embora. Naquele mesmo dia, Nena havia comprado uma nova máquina de costura, e escreveu no fundo de uma daquelas gavetas estreitas, com caneta esferográfica, ‘hoje, 7 de julho de 1966, Belmiro de seu Afonso, foi tentar a sorte em Santos. Não tinha necessidade daquele alvoroço todo, mas Dionê achou que era novidade.   Saber, Nena já sabia. No dia anterior, Ofélia, mulher de seu Expedito, chamou-a pelo muro, e disse entre dentes, a notícia que nem merecia aquele tom de fofoca, ‘diz que o rapaz vai embora pra São Paulo’. Já vai tarde. Quem falou isso, menina? Não sei, mas que tinha ouvido, tinha sim. Minha mãe benzeu-se, e quando ergueu o olhar e eu vi neles aquela expressão dos santos nos altares da Igreja do Sagrado Coração de Jesus, não sei porque, lembrei, comparando mal, Nossa Senho...

Fora do contexto

Menina, então você soube? Seu Cristóvão veio da rua com o cão no corpo e saiu quebrando tudo. Quando dona Dida foi chegando viu que a porta já estava cheia de gente. Fiquei sabendo que o seu Chico, amigo da casa, foi atrás dela, avisar. Tinha ido fazer uma visita na rua de cima e levado os netos. A primeira coisa que avistou, foi a cristaleira que estava no chão, vidro quebrado por todo lado. Uma bagaceira só. Logo ela que tem tanto cuidado em proteger as crianças do que machuca o coração. Irene, você precisava ter visto. Eu não, que não gosto de ver coisa assim violenta que me encho de tristeza. Perco o dia. Tanto que nem quis falar pra Toinho. Você conhece a natureza dele. De pouca fala, ainda balança a cabeça como lagartixa, quando quer fazer favor. Parece não estar nem aí para o sofrimento alheio e disposição - que é bom -, pra dizer qualquer coisa, não tem. Não se comove e nem consola ninguém. Se vou contar qualquer coisa minha e que me entristece, uma raiva, decepção, ele diz com...

Entre vírus, chineladas, e sem uma vela na mão

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Entre vírus, chineladas, e sem uma vela na mão Goretti Brandão   Jornalista e escritora Tossiu, e eu olhei pra ela com receio. A ver pela minha cara, Violeta me disse, olhe Odete, minha tosse é seca assim mesmo. É desde sempre e a minha garganta, se interessa saber, me dói mais à noite. Tenho alergias, você nunca notou? Nesses dias, agora, quando acordo, tenho medo de estar com febre. Mão no pescoço a ver se a temperatura subiu. Não subiu? Então agradeço a Deus. Sorte minha. Mas só amanheço no susto, como se tivesse acabado de vir de muito longe, correndo, e me livrasse por um cabelinho de sapo, do infeliz do vírus. Vou ver Aprígio que dorme que nem anjo e que acorda com um bom dia, Violeta! Saudação de sempre, mas que se faltar, eu cismo logo. Sabe-se lá? Tenho enveredado por pensamentos repetitivos, que se contasse pra Nena ela ia dizer, tá doida, menina? Eu, não. Nem pensar. Maluco de verdade eu conheço uns dois. O medo, não nego. Mas, o meu confronto com ele é na sexta-feira de...

Poesia

Manhã dessas em Santana do Ipanema, comecinho de inverno. Nem calor nem frio. Raios de sol sobre as calçadas, indo sobre pés doídos, descendo essa porção de ladeiras, a minha sombra que teima em andar comigo, quebra-se nos meios-fios, esgueira-se atrás de mim, oblíqua, e que a si mesma verga, dobra-se nas esquinas fazendo longos vértices. Mais malabarista do que eu, unilateral nos pensamentos, e precisando urgente de reconhecê-la. A praça, seus bancos e as trepadeiras. O vai-e-vem dessa gente a criar cenários móveis, imediatos e únicos. À menção de um cumprimento, ali, e um idoso que ao mesmo instante, atrapalha-se com as próprias muletas, tropeça e cai no asfalto. Acudido, ainda mais atordoado, retoma a marcha. Adiante, tranquilos, vira-latas dormem a sono solto sobre o passeio do centro da cidade. Assombra-me a moldura que o tempo nos dá e às coisas e à cidade. Têm um quê de eu ter sonhado mais do que vivido? Sei lá! Sei que as ruas, as ladeiras, o povo bom, os dias de sol e d...